Nas pegadas do poeta

"Outra vez te revejo, 

cidade da minha infância pavorosamente perdida... 

cidade triste e alegre, outra vez sonho contigo..."

"Fernando Pessoa)

Em minha primeira visita a Lisboa, eu não estava sozinho. Um poeta me acompanhava. Não era apenas um poeta, mas um poeta apaixonado por Lisboa, seus botequins, becos e ladeiras. Seu nome, Fernando Pessoa.

Que escreveu um dos primeiros roteiros turísticos da capital portuguesa, 'Lisboa: O Que o Turista Deve Ver'. No entanto, hoje é quase impossível encontrar a Lisboa de 1925. Ela desapareceu, engolida pela modernidade e um turista apressado não a encontrará. Mas quem sabe dos caminhos de Fernando Poesia desfrutará de uma viagem inesquecível.

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O poeta disse que Lisboa começa no mar. O Viajante está em um barco que chega pela foz do Rio Tejo e desembarca no tradicional Cais da Rocha. Então o poeta anuncia:

"Para o viajante que chega por mar, Lisboa ergue-se como uma bela visão de sonho, contra o azul vivo do céu, que o sol anima. E as cúpulas, os monumentos, o velho castelo elevam-se acima das casas, como arautos distantes deste delicioso lugar, desta abençoada região."

Fernando Pessoa conduz o Viajante até o centro, passando pela Câmara Municipal, dirigindo-se ao Terreiro do Paço e continuando pelas ruas da Baixa. Na Praça do Comércio, fala dos grandes arcos e da imponente estátua equestre do rei Dom José I, "... fundida em uma  só peça de bronze em 1774" e que o povo renomeou de Praça do Cavalo Negro.

É onde fica o Café Martinho da Arcada, que era frequentado pelo poeta e que ainda conserva uma mesa com seus objetos pessoais. Logo à frente, outras duas praças, do Rossio e da Figueira, parte do roteiro sentimental dos vates e escritores lusitanos.

A do Rossio era chamada de "O Coração de Lisboa" e fazia parte do caminho que o poeta fazia diariamente, quando ia visitar clientes e amigos. Mas o Viajante deve seguir pela Praça dos Restauradores, continuando pela Avenida Liberdade, até uma grande praça, que os lisboetas conhecem como Rotunda. Em 1925, ainda não existia o grande monumento que hoje domina o local - o Marques de Pombal chegaria ali mais tarde, em 1934 e onde permanece, com um grande leão a seus pés, lembrando o poder do estadista sobre a vida dos portugueses.

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Diante do Viajante se estende a Avenida da República até a Praça de Touros do Campo Pequeno, "... que data de 1892 e foi construída em tijolos no estilo moçárabe". Os dois continuam até chegar diante da Livraria Bertrand, a mais antiga de Lisboa, fundada em 1732. À direita, uma das muitas carruagens do Museu Nacional dos Coches. Mais adiante, a estátua de Eça de Queiroz, com a figura da Verdade reclinada a seus pés. Na placa na esquina, a presença de outro grande poeta, Almeida Garrett.

Retornando ao centro, eles adentram no bairro da Mouraria e de Alfama, os mais antigos de Lisboa. No alto, o Castelo de São Jorge com muralhas que remontam ao nascimento de Lisboa. Em tudo, vestígios dos romanos, que dominaram a então Portugália por volta do século 2 a.C. Nas torres e colunas de pedra, traços dos árabes, que invadiram a região no século 8 e onde permaneceram até o século 12.

Hoje, o castelo é um dos locais mais visitados da capital portuguesa, mas quando o poeta escreveu seu roteiro, era ocupado por militares e visitas dependiam de autorização escrita do oficial do dia.

Depois do castelo, é a vez do Chiado, o bairro mais intelectual de Lisboa, com livrarias e logradouros que levam nomes como Almeida Garrett, Eça de Queiroz e Luís de Camões. É onde está localizado o Café A Brasileira, onde o poeta foi frequentador assíduo por muitos anos.

Do outro lado da praça, o Teatro Nacional São Carlos, inaugurado em 1793, o Largo do Carmo e o Miradouro de Alcântara, onde se desfruta a mais bela vista de Lisboa.

Embora o guia não mencione, sabemos que no Chiado fica a casa onde nasceu o poeta, em 13 de junho de 1888, bem no largo do Teatro São Carlos, número 4. Passando pelo Chiado, eles seguem rumo ao Aqueduto de Águas Livres, uma impressionante construção da engenharia lusitana. Foi erguido em 1732, com o intuito de abastecer Lisboa - apesar de ter   o Rio Tejo à sua frente, a cidade sofria com uma crônica falta de água. Detalhe omitido nos guias de turismo - com frequência, o aqueduto é fechado ao público pelo alto índice de suicídios.

Dali, o poeta e seu acompanhante seguem para Belém, onde estão os mais importantes monumentos da Era das Navegações. Como o Museu dos Coches, o Palácio Nacional da Ajuda, além da icônica Torre de Belém, uma fortificação de 1521, que se tornou símbolo da expansão marítima de Portugal. Sua arquitetura primorosa lembra que foi dali que partiram as naus portuguesas em busca do Novo Mundo.

O poeta faz uma pausa diante de um dos edifícios mais imponentes e magníficos de Lisboa, construído no século 16 - o Mosteiro dos Jerônimos. Sabe que ali repousa o grande poeta da lusitanidade - Luís Vaz de Camões. Está acompanhado de outro ilustre português: o navegador Vasco da Gama.

"Uma visita aos Jerônimos tem, necessariamente, de ser demorada     para ser uma visita verdadeira."

O passeio por Lisboa está prestes a se encerrar, pois o guia se despede   e desaparece. Em 1935, morre o poeta, dez anos após ter escrito o primeiro guia de Lisboa e seus restos são depositados ali mesmo, no Mosteiro dos Jerônimos.

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Autor
José Antônio Moraes de Oliveira é formado em Jornalismo e Filosofia. Atuou em jornal em A Hora, Jornal do Comércio e Correio do Povo. Trocou o jornalismo por publicidade, redigindo anúncios na MPM Propaganda. Diretor de contas internacionais, morou por anos na ponte aérea Porto Alegre/ São Paulo/ Rio/Miami/New York. Foi diretor de Comunicação do Grupo Iochpe e co-fundador do Cenp (Conselho Executivo das Normas-Padrão). Atualmente, reside na Serra gaúcha.

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