Normalistas

"Moço educado não corre", me disse um homem de cabelos brancos, que esperava o bonde em um banco de pedra na Praça Júlio de Castilhos. Eu devia ter uns 17 anos e atravessara correndo a avenida, correndo, apressado - e atrasado. O bonde Prado chegou e sentamos juntos em um daqueles bancos laterais dos bondes tipo "gaiola". O velho senhor me examinou dos pés à cabeça e falou com voz sussurrada, mas firme:

"Meu jovem, em vez de correr para cima e para baixo,

experimente o "footing", a arte de caminhar

que nossos vizinhos portenhos

aprenderam com os castelhanos.

Vais enxergar melhor as coisas e as pessoas.

E mais fácil de achar namorada."

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Ele desceu em uma parada antes do Centro. Pelo resto da viagem, fiquei remoendo o que ele dissera. Mas logo esqueci. Dias depois, me vi iniciando uma corrida desabalada rua abaixo - sem ter nenhum motivo para aquilo. Então, ao lembrar das palavras do homem de cabelos brancos, parei na esquina da Felipe Camarão e fiquei pensando por um tanto. Depois de alguns minutos, segui a passos bem medidos, subindo a rua, respirando com calma, como ele ensinara, recuperarando o fôlego perdido.

A partir daquele dia, mudei meu ritmo de caminhar pelas ruas - passei a olhar nosso bairro como nunca o fizera antes. Aqueles eram tempos de uma cidade serena, que ainda vivia suas heranças do Velho Mundo. Pela primeira vez, reparei que a fachada da casa dos Dreher, por onde passava todos os dias, tinha no alto belas cariátides e mal-encarados faunos. E, na esquina da Castro Alves, os jardins dos Silva Jardim me fizeram um convite para deitar na grama e olhar as nuvens. O homem tinha razão - a cidade estava recheada de belezas que era preciso descobrir a cada dia e a cada passo.

Procurei por certo tempo, mas nunca mais encontrei o velho do bonde Prado. Queria dizer-lhe que aprendera a tal lição. Quando fiz 18 anos o caminhar pelas ruas de Porto Alegre já era uma rotina prazerosa. Alguns colegas do ginásio aderiram com entusiasmo. E não mais precisavam fugi do cobrador dos bondes. Alguém sugeriu estender as andanças até o Centro e ir passear na Rua da Praia e ver as gurias, como diziam, entre risos de ingênua felicidade.

Nova aventura surgiu, soprada pelos mais velhos - subir a avenida até a Ramiro Barcelos e esperar a saída das meninas do Colégio Bom Conselho.

Recordo o prazer que tínhamos de ficar sob o sol morno do meio-dia, na beira da calçada, aguardando o desfile das normalistas vestidas de azul-e-branco.

Aqueles jovens inocentes e barulhentos sabiam muito bem que as meninas eram distantes e impossíveis objetos de desejo, mas que acendiam nossas tolas fantasias de adolescência. E as gurias passavam em duplas, de braços dados, faceiras e fazendo de conta que não nos viam postados no meio-fio, brincando com as correntes dos chaveiros e ajeitando os cabelos untados com Glostora.

Doces tempos, doces lembranças. Pincipalmente para o amigo João Pedro, que acabou namorando e casando com uma daquelas graciosas normalistas.

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Autor
José Antônio Moraes de Oliveira é formado em Jornalismo e Filosofia. Atuou em jornal em A Hora, Jornal do Comércio e Correio do Povo. Trocou o jornalismo por publicidade, redigindo anúncios na MPM Propaganda. Diretor de contas internacionais, morou por anos na ponte aérea Porto Alegre/ São Paulo/ Rio/Miami/New York. Foi diretor de Comunicação do Grupo Iochpe e co-fundador do Cenp (Conselho Executivo das Normas-Padrão). Atualmente, reside na Serra gaúcha.

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