Nós não vamos nos render!

Um dos personagens mais importantes do século 20 voltou a reviver recentemente nas telas em produções ambiciosas. Considerado por muitos como o maior britânico que já existiu, Winston Churchill (1874 - 1965) foi retratado nos filmes "O Destino de uma Nação" e "Churchill", ambos de 2017, e na primeira temporada do seriado "The Crown", em 2016. Nas três obras, o ex-primeiro-ministro foi encarnado por grandes atores: respectivamente, pelo inglês Gary Oldman, pelo escocês Brian Cox e pelo norte-americano John Lithgow. Cada um desses trabalhos debruça-se apenas sobre um recorte da extensa trajetória pública do político - mas mesmo essas visões parciais da vida do comandante militar e estadista são suficientes para ao menos apresentar a complexa personalidade de uma das figuras mais definidoras da história nos últimos cem anos.

Em cartaz a partir desta quinta-feira, 11, "O Destino de uma Nação" rendeu a Oldman no último domingo o Globo de Ouro de melhor ator de drama. Mesmo atolado em maquiagem pesada e sob quilos de enchimento, o astro de títulos como "Sid & Nancy" (1986), "Drácula de Bram Stoker" (1992), "Minha Amada Imortal" (1994) e "O Espião que Sabia Demais" (2011) entrega mais uma atuação memorável - a atuação de Oldman, aliás, é mesmo maior do que o filme dirigido por Joe Wright. "O Destino de uma Nação" se passa em maio de 1940, quando o expansionismo e a beligerância de Hitler avançam por toda a Europa e ameaçam desembarcar nas praias da Grã-Bretanha. A falta de pulso em lidar com a ameaça nazista leva a demissão do primeiro-ministro Neville Chamberlain e à escolha de Churchill para o cargo - muito a contragosto da maioria de seu próprio partido e do rei George VI, que veem com reservas o veterano político intempestivo e teimoso. Já nos primeiros dias de governo, o premiê tem que enfrentar, além da resistência interna, a perspectiva de uma invasão alemã e a iminência de uma tragédia: o massacre inevitável das tropas britânicas e francesas encurraladas pelo inimigo no norte da França caso não sejam evacuadas a tempo - episódio retratado soberbamente em "Dunkirk", de Christopher Nolan, um dos melhores filmes de 2017.

Além de Oldman, merece destaque em "O Destino de uma Nação" a competente e homogênea interpretação do elenco em conjunto - com brilho especial para a sempre ótima Kristin Scott Thomas no papel da paciente Clemmie, esposa de Churchill, única pessoa a quem o velho buldogue eventualmente dava ouvidos durante uma discussão. Se o principal pecado do roteiro são as muitas adaptações e mesmo invenções de fatos com propósitos dramáticos - Churchill nunca pegou o metrô e consultou os populares a respeito do que deveria fazer ou não, por exemplo -, seu grande mérito está em expor as fragilidades e equívocos de seu personagem central, relativizando o tom elegíaco. Turrão e cabeça-dura, comunicando-se ora com balbucios, ora por gritos, com o característico charuto permanentemente na boca e a mão sempre ocupada com um copo de uísque, Churchill é apresentado como um egocêntrico encantado pela própria retórica proverbial, confiante em excesso em suas ideias e avaliações. "O Destino de uma Nação" humaniza seu herói ao mostrá-lo falível e presa de convicções e fantasmas do passado, que embotam no começo da trama sua visão a respeito do desenrolar da II Guerra; no entanto, é justamente essa obstinação que o levará mais tarde a enfrentar a oposição ferrenha e sustentar planos e estratégias decisivos para o futuro do conflito.

O realizador Joe Wright disse em uma entrevista que seu filme tem uma ressonância especial nos Estados Unidos de hoje, com o presidente Donald Trump, colocando em xeque a importância de ter na condução de seus destinos uma liderança com autoridade legítima. Infelizmente, também podemos nos reconhecer nessa problemática: vivemos em um país em que abundam governantes desprovidos de espírito público, incompetentes, tacanhos, corruptos. A representação cabal desse triste deserto de espíritos é o atual presidente, comprometido apenas com a própria sobrevivência política e da malta que o sustenta, um vergonhoso e ilegítimo arremedo de estadista. Mas "O Destino de uma Nação" nos deixa um recado oportuno para este ano de eleições: não importa quantos vigaristas, antigos ou novos, tentarem nos impingir. Nós não vamos nos render!

Autor
Jornalista e crítico de cinema, integrante da Associação Brasileira de Críticos de Cinema (Abraccine). Editou de 1999 a 2017 a coluna Contracapa (artes, cultura e entretenimento), publicada no Segundo Caderno do jornal Zero Hora. Neste período, também atuou como repórter cultural do caderno de variedades de ZH. Apresentou o Programa do Roger na TVCOM entre 2011 e 2015 e é é autor do livro "Mauro Soares - A Luz no Protagonista" (2015), volume da coleção Gaúchos em Cena, publicada pelo festival Porto Alegre Em Cena. Foi corroteirista da minissérie "Tá no Sangue - Os Fagundes", veiculada pela RBS TV em 2016. Atua como repórter e crítico de cinema no Canal Brasil.

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