Nós, os comunistas

Fôssemos fazer uma contagem sobre quais são as palavras mais malditas do mundo ocidental a partir do fim da Segunda Guerra, 'comunismo' e 'comunistas' certamente estariam entre as primeiras.

Desde que os Estados Unidos iniciaram sua grande batalha de mídia para derrotar econômica e, se necessário, militarmente a União Soviética, a grande vencedora na luta contra o nazismo, se fez de tudo para transformar essas palavras em verdadeiros anátemas.

No Brasil, com curtos períodos de pausa, a batalha contra o comunismo e os comunistas, ocorreu em todos os níveis, alternando ora a tentativa de desconstruí-los, usando argumentos lógicos e racionais, ora usando as mais violentas formas de opressão contra essa opção filosófica e seus adeptos.

Comunismo, porém, é uma palavra muito antiga. Engels, no seu livro clássico A Origem da Família, da Propriedade Privada e do Estado, diz que uma das primeiras formas de organização econômica da sociedade foi o comunismo; nos ensinamentos da vida entre os primeiros cristãos, ela está presente e se torna uma bandeira de luta, como uma forma de comunismo primitivo; o primeiro grande movimento revolucionário da era moderna, em 1871, na França, chamou-se Comuna de Paris.

Com o Manifesto Comunista de 1848, de Marx e Engels, o seu significado ganhou uma visão mais clara e se transformou no instrumento ideológico a sustentar as principais revoluções populares desde então, casos da Rússia e China, principalmente.

A consolidação no Ocidente do sistema capitalista, principalmente depois do desmoronamento da União Soviética, transformou a questão do comunismo, de uma opção de luta dos trabalhadores, em objeto de estudos acadêmicos.

A crise geral do capitalismo, que se torna cada vez mais aguda, levou o filósofo húngaro, István Mészaros, a recuperar uma velha advertência de Rosa Luxemburgo de que a opção que nos resta é entre socialismo ou barbárie.

O francês Alain Badiou se preocupou em recuperar não apenas o sentido da doutrina, mas também o significado da palavra comunismo, ao dizer: "A ideia comunista é a ideia da emancipação de toda a humanidade, é a ideia do internacionalismo, de uma organização econômica mobilizando diretamente os produtores e não as potências exteriores; é a ideia da igualdade entre os distintos componentes da humanidade, do fim do racismo e da segregação e também é a ideia do fim das fronteiras."

Como o veículo em que escrevo agora é voltado para a discussão da Comunicação em suas diversas áreas, pretendo aqui, a partir da minha experiência pessoal, lembrar a presença dos dois - comunismo e comunistas - no decorrer dos últimos anos, na nossa mídia.

Logo após o golpe de 64, o general Juracy Magalhães, Ministro da Justiça de Castello Branco, enviou ao jornal O Globo uma lista de simpatizantes do comunismo, que deveriam ser demitidos.

Resposta do diretor Roberto Marinho:

"Ministro, o senhor faz uma coisa, vocês cuidam dos seus comunistas, que dos meus comunistas cuido eu".

Não foi o único ato da defesa inegociável feita pelo diretor-redator-chefe do Globo por seus subordinados que incomodavam os militares. Pressionado, ainda no governo Castello, a entregar uma lista de empregados simpáticos à esquerda, remeteu um envelope fechado com os nomes de todos os funcionários. Um general ligou de volta, indignado.

- O senhor me mandou a folha de pagamento.

- Quem tem que descobrir os comunistas são vocês - respondeu o dono do jornal.

Quando comecei no Jornalismo, poucos anos antes do golpe, na Última Hora, de Porto Alegre, a maioria da redação era composta por comunistas, vindos da antiga Tribuna Popular ou simpatizantes do PTB de Brizola.

Talvez a única exceção de peso fosse Sérgio Jockimann, que corria em faixa própria.

Eu, na época, era ainda virgem nas leituras de Marx, de Trotsky ou Lenin, mas já cativado por visões humanitárias da esquerda socialista, oriundas da literatura e do cinema. Dois marcos desse sentimento foram a leitura de Les Thibault, livro clássico de Roger Martin Du Gard, que narra de forma romanceada, a luta pacifista e sua derrota na Primeira Grande Guerra e o filme de Jules Dassin, Aquele que Deve Morrer, sobre um levante grego contra a dominação turca.

Mais tarde, já durante a ditadura militar, trabalhei durante anos no Departamento de Jornalismo da TV Piratini, onde eram produzidos dois telejornais.

O primeiro, às 8 da noite, era o Repórter Esso, e o segundo, depois das 10, era o Grande Jornal Ipiranga.

Obviamente, entre as duas petroleiras, a esquerda era representada na brasileira. Assim, os redatores, teoricamente mais de esquerda, produziam o jornal da Ipiranga.

Eu, o mais novo entre os jornalistas, fui escalado com o Vicente Soares para o noticiário da Esso.

Mesmo assim, tentávamos passar mensagens subliminares, que certamente poucos telespectadores percebiam, de crítica ao sistema. Como grande parte do telejornal era feita com filmes da UPI, logo após uma reportagem, por exemplo, mostrando algo que valorizasse o 'american way life', emendávamos outro sobre a repressão aos negros no Alabama, ligados pela frase 'enquanto isso'.

Concomitantemente com as funções de jornalista, tendo me formado em História pela UFRGS, comecei a leciona a matéria em escolas públicas, inicialmente no Colégio Marechal Rondon, de Canoas.

Se não falava explicitamente em comunismo, porque os tempos eram de cautela, não deixava de tentar convencer os alunos que o modelo capitalista era um sistema esgotado.

Em determinado momento, dei uma guinada na vida profissional, trocando o jornalismo pela publicidade e o ensino de História no segundo grau para o de Comunicação em duas universidades, a PUC e a Unisinos.

Comecei na Standard Propaganda uma carreira de quase 40 anos em agências de propaganda, que incluiria ainda a Marca, MPM, Módulo e Símbolo.

Na Standard,que logo depois seria adquirida pela multinacional Ogilvy, praticamente só se falava em propaganda, embora um dos seus diretores fosse Plínio Cabral, um homem inteligente e sempre irônico, que fora dirigente do Partido Comunista no Estado e diretor do jornal Tribuna Popular, mas que antes de se tornar publicitário, mudara radicalmente sua linha política, chegando a Chefe da Casa Civil do governador Ildo Meneghetti,  quando do golpe de 64.

Nas agências de propaganda por onde passei, a única que oferecia espaço e parceiros para discussões políticas foi a MPM. O Sérgio, o Pacheco, o Marco Aurélio, o Gomes, o Beto e o 'Judeu', talvez gostassem mais dos temas políticos do que os publicitários, ainda mais que vivíamos os primeiros sinais do fim da ditadura militar.

Nas faculdades de comunicação da PUC e Unisinos, os professores com os quais mais convivi eram quase todos técnicos em suas disciplinas específicas e pouco interessados em debates de assuntos políticos, enquanto os alunos, em sua maioria, já eram fruto de uma nova mentalidade que os anos de censura militar impusera aos jovens, de valorização apenas de suas carreiras profissionais.

Concomitantemente com o trabalho de professor, durante um curto período, no Governo Collares, dirige a rádio FM Cultura, onde criei um programa de debates com um viés acentuadamente de esquerda. Eu funcionava como mediador e o professor Mario Maestri fazia o contraponto da esquerda com os convidados. Um deles deu muito o que falar, quando a entrevistada foi jornalista Eliane Brum, que acabara de lançar o livro Coluna Prestes , o Avesso da Lenda, construído apenas com os depoimentos que tomara de pessoas que há quase 50 anos tinham assistido a passagem da coluna por sua região ou ouvido falar dela.

Obviamente, o professor Maestri, com meu apoio nada sutil, tratou de desconstruir toda a proposta da jornalista, claramente de críticas à Coluna Prestes.

Hoje, atuando como franco atirador nos espaços de mídia que disponho, estou sempre propondo, sem grande sucesso, diga-se de passagem, a volta das velhas discussões políticas, entre as quais, usando a terminologia proposta por Badiou, a validade da 'Hipótese Comunismo'.

É o que faço, mais vez aqui, na Coletiva.net.

Autor
Formado em História pela Ufrgs, foi jornalista nos veículos Última Hora, Revista Manchete, Jornal do Comércio e TV Piratini. Como publicitário, atuou nas agências Standard, Marca, Módulo, MPM e Símbolo. Acumula ainda experiência como professor universitário na área de Comunicação, nas universidades PUC e Unisinos. É autor dos livros "Raul", "Crime na Madrugada", "De Quatro", "Tudo que Você NÃO Deve Fazer para Ganhar Dinheiro na Propaganda" e "Tudo Começou em 1964", que tem formato de ebook.

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