Novo inquilino de três meses bagunça a casa

O cenário de uma terça-feira muito feia, com uma cara abusada de tão emburrada (mamãe adorava usar este termo quando eu me mostrava um pouco, digamos, contrariada), que escureceu as cores e nuances da cidade me fez ficar assim: sem um tema específico e único para discorrer nesta coluna. Apesar dos pingos de chuva, sai um pouco para uns afazeres no Centro e, juro por Deus e por São Francisquinho, que estive atenta à procura de inspiração. E nada! Em casa, dediquei-me a pequenos consertos e enquanto batia um martelo e arrumava um quadro, fixava o olhar no horizonte na janela à busca de motivação. E nada! E bem no final da tarde, quando pensei em tirar um cochilo, deixei o pensamento voar em momentos do passado, flutuar no presente e imaginar cenas do futuro à espera de estímulo. E nada!

Sem um tema único para a coluna e cansada de realizar ajustes na casa para facilitar o adestramento do novo cachorro que adotamos (eu e filha Gabriela), preciso contar para vocês como é difícil ensinar um filhote. Meu Deus do Céu. Ninguém merece. Meu Paizinho Padre Cícero. Dai-me paciência. Senhor do Bom Fim. Ajudai-me e coloco as fitinhas coloridas no meu pulso. Alan Kardec, iluminai-me com os bons espíritos. A criatura, que foi batizada de Quincas Fernando Martins, é da tradicional espécie sem raça definida, isto é, o famoso vira-lata, e não passa um único dia sem fazer uma travessura. O cusco é quase que endiabrado (ai, tadinho). Morde tudo, puxa fios, late porque não quer dormir sozinho, faz as necessidades nos lugares errados, exercita seus dentes nos braços e pernas das habitantes da casa.

Não sei ainda se fiz certo. Se não foi uma atitude muito prematura. A lembrança do shih tzu Dalai, que conviveu conosco por quase 10 anos ainda é muito recente e a saudade do neto canino que partiu em 8 de novembro também. Mas uma casa sem um cão é uma casa triste, sem vida, sem alegria, sem surpresas. Mas um lar sem latidos de cachorro, sem lambidas e sem fuços acomodados nos pescoços de suas donas é um lar melancólico. Então, depois de uns três domingos caminhando sozinha na Redenção e olhando os cachorros para serem adotados, convidei a filha Gabriela e decidimos, juntas, ir procurar um novo cãopanheiro. Meu coração dizia, apesar da imagem do Dalai muito viva, que necessitava de um novo amiguinho canino.

Então, desde 4 de fevereiro, habita a nossa humilde residência o Quincas, um filhote de três meses que parece resistente em aprender. Mas sou paciente. Todo o tempo livre que tenho é aproveitado lendo dicas de como ensinar os filhotes a fazer as necessidades no lugar certo. Todo o tempo disponível no trajeto de algum compromisso é gasto pesquisando na internet como evitar que o filhote destrua os móveis. Todo o tempo que sobra entre uma agenda e outra é consumido relendo livros que já tinha em casa sobre como tratar a adaptação dos cachorros filhotes. Não serei vencida pelo Quincas porque sou muito persistente. E toda vez que o cusco faz alguma coisa certa, como pipi no seu banheirinho, ele é agraciado com um pedaço pequeno de petisco e palavras de alegria.

Talvez a ausência de criatividade tenha um nome: Quincas. Que tem me desafiado na arte de adestrar um filhote. Que tem me preocupado toda vez que preciso sair com medo de encontrar a casa toda revirada quando volto. Que tem me perturbado as noites de sono quando resolve latir desesperadamente para informar que não deseja dormir sozinho. Mas prometo para vocês que é uma questão de dias. É só o cansaço inicial. Em breve, a colunista promete assuntos mais polêmicos, atuais e interessantes. É que o novo inquilino de três meses bagunça a casa e o meu pensamento.

Autor
Márcia Fernanda Peçanha Martins é jornalista, formada pela Famecos/PUCRS, militante de movimentos sociais e feminista. Trabalhou no Jornal do Comércio, onde iniciou sua carreira profissional, e teve passagens por Zero Hora, Correio do Povo, na reportagem das editoriais de economia e geral, e em assessorias de comunicação social empresariais e governamentais. Escritora, com poesias publicadas em antologias, diretora do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do RS (Sindjors), e secretária do Conselho Municipal dos Direitos da Mulher de Porto Alegre (COMDIM/POA). Tem o blogmarcinhaprodigio.blogspot.com. É mãe da Gabriela e avó dos caninos shih tzu Dalai, agora uma estrelinha, e do vira-lata Quincas Fernando.

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