O 123

Por José Antônio Moraes de Oliveira

Não estou bem certo se o nome era Ramiro ou Clodomiro. Mas me lembro que era uma figura humana daquelas que deixam sua marca por onde passa. Ele era o chefe das oficinas da Companhia Carris Portoalegrense, que administrava o serviço de bondes elétricos na capital gaúcha desde o início do século XX. O bonde era então o mais eficiente transporte urbano conhecido na época, tanto que continuaram a circular - devidamente modernizados - em cidades altamente civilizadas do Primeiro Mundo.

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Voltando ao Ramiro (sim, o nome era Ramiro) - depois de mais de 40 anos trabalhando nas oficinas da Carris, na Avenida João Pessoa, o homem parecia conhecer cada um dos mais de 200 bondes da frota. Era capaz de os reconhecer de longe, pelos barulhos que faziam ou mais de perto, pelo número vermelho estampado na cabina do motorneiro.

Mas, naquela manhã cinzenta e fria de inverno, Ramiro acordou incomodado. Pressentia que o dia que tinha pela frente seria um pesadelo. Tomou sua xícara de café preto bem forte, colocou o quepe, pegou a marmita e saiu à rua. Ainda estava escuro, ao longo do caminho, foi ouvindo cachorros latindo e galos cantando nas chácaras vizinhas. Às 7 horas em ponto, marcou o ponto enquanto observava a fila de bondes saindo para mais um dia nas ruas e avenidas da cidade.

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Ele conhecia um pedaço da história daqueles velhos bondes. A Carris foi fundada em 1872, por um decreto de D. Pedro II - era a mais antiga empresa de transporte coletivo do País. Os arquivos contam que os primeiros bondes chegaram quando Porto Alegre ainda era uma pacata cidadezinha de 34 mil habitantes. Eram puxados a mula e causaram enorme sensação. Mais tarde, vieram os carros eletrificados, importados da Inglaterra, todos pintados de amarelo, com uma faixa lateral vermelha e verde. Dizia-se que era uma homenagem da Companhia Bond, de Londres, aos 100 anos da Revolução Farroupilha. Começava a era dos bondes elétricos, que durou até os anos 20 e 30, quando desembarcaram no porto de Rio Grande os primeiros automóveis Ford modelo A.

Mas, agora, depois de 150 anos, os velhos bondes estavam por ser aposentados. Rodariam mais uma vez, a caminho do ferro-velho no fim da linha do Partenon, para serem desmontados e virar sucata. E Ramiro, como chefe das oficinas, deveria indicar os que seriam retirados de linha. Ele se sentia mal como carrasco dos carros que lhe eram tão familiares. Em cima de sua mesa estava a prancheta com a lista dos carros com mais tempo de serviço. Puxou pigarro e foi em frente. Os da linha Assis Brasil seriam os primeiros. Eram bem antigos, com quase 40 anos de serviço. Depois, chegou a vez dos "gaiolas", das linhas Duque e Gasômetro, e que eram parte do folclore da cidade. Contava-se que, durante a greve de ferroviários de 1953, o músico Lupicínio Rodrigues - que havia trabalhado na Carris como aprendiz de mecânico - ao ver os torcedores de futebol caminhando até o estádio, compôs os versos que ficaram famosos:

"Até a pé nos iremos; para o que der e vier;

Mas o certo é que nós estaremos;

Com o Grêmio onde o Grêmio estiver (...)."

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Ramiro continuou, evitando encarar os homens agrupados à porta do Escritório, esperando pelos envelopes do pagamento da semana. Eram motorneiros, cobradores e fiscais dos bondes listados em sua prancheta. Aquilo o fez detestar ainda mais aquele dia. Depois de mais uma xícara de café, foi até o fundo da oficina, onde os bondes o aguardavam. Alguns deles eram bem populares, como o "gaiola" 317, da linha Duque; o 18, veterano das linhas Glória e Navegantes e, adiante, o Bradley número 12, agora com portas automáticas, que o povo apelidara de "Coca Cola". O carro seguinte da fila era o 123, um carro pelo qual Ramiro tinha um certo apreço, mesmo sem saber bem o porquê. Talvez por ser sólido, bem construído, valente mesmo, que nunca dava oficina.

Subiu até a cabina, botou a alavanca de tração em neutro, andou pelo corredor, acariciando os bancos de jacarandá, polidos pelo uso pela passagem de milhares de pessoas. Puxou a corda do marcador de passageiros, deixando-o no zero, sentindo como tivesse dado um golpe de misericórdia.                                       

Foi até o escritório, assinou e entregou a lista para o despachante. Na parede, a folhinha de São Miguel Arcanjo matando o dragão marcava 8 de junho de 1970. Seria uma data difícil de esquecer.

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Autor
José Antônio Moraes de Oliveira é formado em Jornalismo e Filosofia. Atuou em jornal em A Hora, Jornal do Comércio e Correio do Povo. Trocou o jornalismo por publicidade, redigindo anúncios na MPM Propaganda. Diretor de contas internacionais, morou por anos na ponte aérea Porto Alegre/ São Paulo/ Rio/Miami/New York. Foi diretor de Comunicação do Grupo Iochpe e co-fundador do Cenp (Conselho Executivo das Normas-Padrão). Atualmente, reside na Serra gaúcha.

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