O desprezo pelo outro

Por Marino Boeira

Nos nossos discursos públicos sobre preconceito racial, feminismo, direitos das minorias, etc, somos politicamente corretos, assumindo posições aprovadas pelo consenso social, quando na verdade, intimamente, na maioria das vezes, somos indiferentes a eles, na medida em que poucos seres humanos nos importam realmente.

Slavoj Zizek conta no seu livro "Arriscar o Impossível", uma passagem esclarecedora sobre isso. Numa roda de amigos, ao ouvir uma cantora de blues, ele comentou que pelo timbre da voz, deveria ser uma afro-americana, embora seu nome fosse muito europeu. Imediatamente, foi taxado de politicamente incorreto ao identificar uma pessoa por suas características naturais, seja ela qual for.

Por isso, o manual de boas maneiras que todos devemos seguir à risca, impede que um negro seja chamado de negro, um judeu, de judeu, um careca, de careca ou um gordo, de gordo.

Para Zizek, existe por parte dos politicamente corretos, uma proibição completa de qualquer tipo particular de identificação, o que significa que o OUTRO deve ser entendido como uma abstração, como se já estivesse morto.

Zizek é um filósofo esloveno, com uma linguagem, às vezes, um pouco hermética, mas é fácil constatar como ele tem razão, quando pensamos na hipocrisia de alguns discursos em relação a causas nobres como solidariedade social e filantropia.

Quanto mais distante socialmente a pessoa é de quem se comporta como sujeito, mais o discurso politicamente correto se mostra falso.

Somos solidários com os meninos presos numa caverna da Tailândia; nos revoltamos com a foto daquele bebê morto numa praia do Mediterrâneo, depois que o bote em que seus pais tentavam clandestinamente entrar na Europa, naufragou;  podemos nos emocionar até com aquele pequeno cachorro  abandonado, desde que isso esteja apenas nas páginas dos jornais ou nas telas da televisão.

Ao vivo e a cores, quando passamos, por exemplo, por aqueles farrapos humanos que vivem sob o viaduto da Borges, apressamos o passo e olhamos firmes para frente para não perder nenhum tempo. Afinal, pode até ser gente como nós, mas são fedorentos e até mesmo perigosos.

Nos parlamentos, nos tribunais, nas igrejas, nas reuniões sociais, as pessoas tratam de se identificar através de seus trajes e linguagem como pertencentes a um grupo social que merece ser respeitado.

Aqueles que não seguem essas regras são marginalizados e, como aponta Zizek, só recebem solidariedade formal, quando se tornam vítimas de uma situação, que escancara para toda a sociedade  a verdadeira discriminação social escondida atrás de algumas regras de conduta.

Os tribunais parecem formar o cenário ideal para essa representação do drama social em que vive o nosso País.

O réu de um crime de morte, principalmente esses que envolvem a chamada guerra do tráfico, é visto não como um ser humano a ser julgado pelos seus erros, mas quase como um monstro.

Está certo que o crime e o criminoso muitas vezes se confundem na mesma ação e fica difícil para os acusadores distinguir o ser humano do ato criminoso e a partir daí, ao exorcizar o crime, desrespeitem o pouco que resta - quando ainda resta - de dignidade do acusado.

Condenados a dezenas de anos de prisão, em masmorras medievais, jamais se recuperarão e para a maioria das pessoas - principalmente aquelas que professam a importância de ser politicamente corretas - isso pouco importa.

Trata-se apenas do OUTRO, algo que não nos diz respeito, como fala Zizek em seu livro.

Minha filha, Tatiana Kosby Boeira, como Defensora Pública, vive quase que diariamente essa situação e tem me relatado muitos desses casos.

Um deles, que me pareceu paradigmático, é de um réu reincidente no crime de tráfico de droga, condenado mais de uma vez a uma pesada pena e que no mesmo dia do seu julgamento, ainda no tribunal, recebeu a notícia que sua mulher, que vivia do honesto trabalho de professora, tinha sido assassinada por uma gang rival da que fazia parte o réu.

Seu único pedido, então, normal para qualquer ser humano, era uma autorização para poder assistir o enterro da mulher. Embora isso seja um direito de qualquer preso, muitas pessoas preferem enxergar nele, não um direito, mas uma concessão da sociedade, um ato humanitário que serve para justificar os bons sentimentos dos bem-nascidos.

Sensível ao pedido da Defensora Pública, o Juiz autorizou a saída do preso e determinou que a Susepe providenciasse a escolta necessária para acompanhar o preso.

O que aconteceu?

Nada

Provavelmente por razões burocráticas, a ordem não foi cumprida a tempo e como o enterro não podia esperar, o réu não se despediu da sua companheira.

Num mundo de injustiças permanentes contra os mais fracos, certamente os politicamente corretos não vão dar a mínima importância ao fato.

Afinal, ele era um bandido assassino, bem diferente de nós que não matamos ninguém, pelo menos por enquanto.

Então, para terminar, com Zizek: o OUTRO, quanto menos nos incomodar, melhor.

Num outro contexto, na relação interpessoal, podemos lembrar também a famosa frase de Jean Paul Sartre - O inferno são os outros. Embora alguns queiram ler na frase, a ideia de que os outros são os culpados de nossos problemas, na ótica do filósofo francês,  o homem é responsável por tudo que faz e o inferno está no fato de possuir consciência disso.

Zizek e Sartre nos alertam apenas para o fato de que não podemos fugir dessa relação com o OUTRO e que por mais que queiramos fechar os olhos, ele está permanentemente rompendo a nossa tranquilidade para nos alertar sobre a sua existência.

Autor
Formado em História pela Ufrgs, foi jornalista nos veículos Última Hora, Revista Manchete, Jornal do Comércio e TV Piratini. Como publicitário, atuou nas agências Standard, Marca, Módulo, MPM e Símbolo. Acumula ainda experiência como professor universitário na área de Comunicação, nas universidades PUC e Unisinos. É autor dos livros "Raul", "Crime na Madrugada", "De Quatro", "Tudo que Você NÃO Deve Fazer para Ganhar Dinheiro na Propaganda" e "Tudo Começou em 1964", que tem formato de ebook.

Comentários