O dia em que Montevidéu parou

Em vida, Eduardo Germán María Hughes Galeano não era uma unanimidade entre os uruguaios. Mas, quando morreu, em uma manhã gelada de abril de 2015, Montevidéu parou, aturdida e órfã de seu cronista e poeta. Os caminhos de sua flânerie diária, as ruas da Ciudad Vieja e as ramblas 25 de Agosto e Gran Bretaña amanheceram tristes e vazias.

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Era um escritor verdadeiramente apaixonado pela cidade. Costumava dizer que, se um dia tivesse que nascer de novo, seria em Montevidéu. Seus amigos do Cafe Brasilero, a cafeteria que funciona desde 1877, lembram que ele gostava de repetir a frase que soava como ato confessional:

"- Caminho por Montevidéu e ela caminha em mim.

E, enquanto isso, as palavras caminham dentro de mim

e formam estórias."

Eduardo Galeano era um autêntico storyteller. Nasceu de família de classe média, católica, de ascendência europeia. Criança, sonhava ser jogador de futebol, mas trabalhou como pintor de letreiros, mensageiro, datilógrafo e caixa de banco. Aos 14 anos, vendeu sua primeira charge política para o jornal El Sol. Começou no jornalismo no semanário Marcha, que tinha colaboradores ilustres como Mario Vargas Llosa e Mario Benedetti.

Em 1973, com o advento do golpe militar, exilou-se na Espanha, onde escreve a trilogia Memória do Fogo. Em 1985, retornou a Montevidéu, onde viveu até sua morte.

Sustentava uma visão crítica sobre sua terra - dizia que os uruguaios acreditam em um Uruguai que o mundo não sabe que existe. Lembrava que o país aboliu castigos corporais nas escolas 100 anos antes da Grã-Bretanha e adotou a jornada de trabalho de oito horas antes dos Estados Unidos e da França. Ele foi um dos primeiros intelectuais a alertar sobre o envelhecimento da população uruguaia:

"- Aqui nascem poucas crianças. Nas ruas, vemos cada vez mais cadeiras de rodas do que carrinhos de bebês."

Os amores de Eduardo Galeano por Montevidéu podem ser revistos em seus escritos e pelas calles e plazas da bela cidade platina, incluindo o onipresente o Cafe Brasilero, a tradicional cafeteria da Ciudad Vieja. Em sua mesa junto à uma ampla janela, ele costumava se reunir com os amigos Mariano Araña e Mario Benedetti.

Requisitado por frequentes pedidos de autógrafos, tentava minimizar o incômodo com uma tirada filosófica:

"- As pessoas que querem ver Deus, criam deuses nas pessoas. Como faz bem a elas, permito que me vejam."

Naquele dia gelado de abril de 2015, quanto o vento sul que subia da Patagônia esvaziava ruas e ramblas, o Cafe Brasilero não abriu as portas. Até hoje, permanecem nas paredes fotos e frases de Galeano. Uma delas mostra a mesa do escritor naquele dia de abril - vazia e com as cadeiras viradas sobre a mesa. Uma triste imagem da solidão e distanciamento que Eduardo Galeano lamentava:

"Montevidéu é uma cidade onde as pessoas amam sem dizer e se abraçam sem se tocar."

Quando Eduardo Galeano morreu, aos 74 anos, no ofício fúnebre celebrado no Salão dos Passos Perdidos, da Assembleia Legislativa, o presidente uruguaio Tabaré Vázquez citou um pensamento emblemático do escritor que serve para resumir a essência de seu modo de ver o mundo:

"Assovia o vento dentro de mim. Estou despido. Dono de nada, dono de ninguém, nem mesmo dono de minhas certezas, sou minha cara contra o vento, a contravento, e sou o vento que bate em minha cara."

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Autor
José Antônio Moraes de Oliveira é formado em Jornalismo e Filosofia. Atuou em jornal em A Hora, Jornal do Comércio e Correio do Povo. Trocou o jornalismo por publicidade, redigindo anúncios na MPM Propaganda. Diretor de contas internacionais, morou por anos na ponte aérea Porto Alegre/ São Paulo/ Rio/Miami/New York. Foi diretor de Comunicação do Grupo Iochpe e co-fundador do Cenp (Conselho Executivo das Normas-Padrão). Atualmente, reside na Serra gaúcha.

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