O homem das palavras

Estava a caminho do supermercado, quando noto aquela figura muito singular. Não lembrava um tipo comum, destes que se vê todos os dias. Exibia um exuberante bigode a Nietzsche e seu sorriso parecia superior, como se tivesse certeza de saber mais do que os outros. Talvez um missionário - daqueles que gostam de ajudar os outros e de corrigir coisas quebradas ou fora do lugar. O homem entrou no estacionamento do supermercado e parou em um canto, junto à porta de entrada. Então, em gestos medidos, armou uma mesa dobrável e ali pendurou um cartaz que anunciava:

"VENDO PALAVRAS"

***

Os clientes do supermercado passavam com pressa, um ou outro lançando um olhar desconfiado ao homem de bigodes a Nietzsche.

Os camelôs do outro lado o examinavam com curiosidade. Que raios seria aquilo? O homem não exibia mercadorias, apenas um velho dicionário em cima da mesinha. Depois de algum tempo, passa um velho com jeito de aposentado, levando um cachorrinho pela coleira. Curioso, para e olha. Chega perto e pergunta o que o homem da mesinha estava vendendo. O diálogo que se seguiu poderia constar entre as Fabulosas de Millôr Fernandes:

"- Vendo Palavras", responde o vendedor. "Algumas estão em promoção."

"- Quais?", quis saber o velho.

"- ?Histriônico? - por apenas 50 centavos."

O velho do cachorrinho coça a cabeça.

"- Mas o senhor não pode vender palavras. Elas não são suas. Palavras pertencem a todo mundo..."

"- Temperilha."

"- O quê?"

"- O senhor sabe o que quer dizer ?Temperilha??"

"- Não."

"- Viu? Vendo palavras que as pessoas não conhecem, mas que podem precisar."

"- Mas eu posso pegar essa palavra de graça no dicionário."

"- O senhor tem dicionário em casa?"

"- Não. Mas eu poderia ir à biblioteca pública."

"- O senhor sabe onde fica a biblioteca?"

O aposentado faz uma pausa antes de responder.

"- Não. Nunca fui. Estou aqui esperando a mulher fazer compras."

"- Então é um cliente. Enquanto ela compra feijão e alface, leve uma palavra por apenas 50 centavos."

"- Eu não vou usar essa palavra. Comprar pra quê?"

"- Se o senhor não comer a alface ela acaba estragando e o feijão vai carunchar."

"- O que pretende com isto? Vai ficar rico vendendo palavras?"

"- O senhor ouviu falar na Lya Luft?"

O outro ensaia um muxoxo: "- Não."

"- Ela é escritora. Escreveu que o Brasil está ficando pobre, faltam palavras, ninguém mais lê livros."

"- E por que o senhor não vende livros?"

"- Justamente por isso. Já que as pessoas não compram palavras no atacado, eu as vendo a varejo."

"- E o que as pessoas vão fazer com palavras? Palavras não enchem a barriga de ninguém."

"- A escritora disse que cada palavra provoca um pensamento. Se usamos poucas palavras, pensamos pouco. Se eu vender uma palavra por dia, em um ano, são mais de 300 novos pensamentos. Sem contar os que me furtam a mercadoria. São como trombadinhas, que afanam relógios e celulares."

Acaricia os bigodes a Nietzsche e emenda:

"- Vê aquela moçoila com o carrinho de feira carregado?"

O homem do cachorrinho volta-se e faz que sim com a cabeça.

"- Ela passou há pouco por aqui. Olhou a placa com ar superior, deu um sorriso maroto, ardendo de curiosidade. Mas não parou para perguntar os preços. Tenho certeza que ela tem um dicionário."

Assim que chegar em casa, vai abri-lo e me roubar uma palavra. Imagino que, para cada pessoa que compra uma palavra, pelo menos outras duas vão pirateá-la. Mas estarei feliz, pois vou provocar mil pensamentos novos em um ano."

"- O senhor não se acha pretensioso? Pegar um..."

"- Farelório."

"- Pegar um livro velho e..."

"- Epifragma."

"- O senhor me interrompe!"

"- Desvairamento"

"- Está me enrolando, né?"

"- Onicofagia."

"- Que coisa maluca..."

"- Ambages."

"- Ambages?"

"- Pode ser também ?evasivas?!"

"- Eu sou mesmo um idiota para dar trela para gente como você!"

"- Parênese."

"- O senhor é engraçadinho, não?"

"- Finalmente chegamos: ?histriônico?!"

"- Adeus."

"- Ei! Vai embora sem pagar?"

"- Tome seus cinquenta centavos."

"- São três reais e cinquenta."

"- Cumé que é?"

"- Pelas minhas contas, são oito palavras novas que eu acabei de entregar para o senhor. ?Histriônico? está na promoção, mas como o senhor se mostrou interessado, faço todas pelo mesmo preço."

"- Mas oito palavras seriam quatro reais, certo?"

"- É que quem leva ?ambages? ganha uma ?evasiva?, entende?"

"- Tem troco para cinco?"

***

(Apud Fabio Reynol, 2008)

Autor
José Antônio Moraes de Oliveira é formado em Jornalismo e Filosofia. Atuou em jornal em A Hora, Jornal do Comércio e Correio do Povo. Trocou o jornalismo por publicidade, redigindo anúncios na MPM Propaganda. Diretor de contas internacionais, morou por anos na ponte aérea Porto Alegre/ São Paulo/ Rio/Miami/New York. Foi diretor de Comunicação do Grupo Iochpe e co-fundador do Cenp (Conselho Executivo das Normas-Padrão). Atualmente, reside na Serra gaúcha.

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