O país dos SN

Por Flavio Dutra

A facção que mais cresce no Brasil é a dos Sem Noção, que passarei a tratar por SN. Começa pelo presidente Bolsonaro, patrono da causa, que a cada semana, às vezes menos, comete um ato digno de SN. Um dos mais recentes, entre negar que tenha gente que passe fome no País e provocar os governadores nordestinos, foi cogitar o filho Eduardo para embaixador nos Estados Unidos. Até bolsonaristas fervorosos, mas não alinhados aos SN, ficaram com vergonha alheia do seu líder.

Outro que ganha relevo entre os SN no governo é o ministro da Educação Abraham Weintraub e suas dancinhas. Mas se engana quem acha que o SN tem ideologia ou partidarismo. Que nada! Atacam à direita, à esquerda e ao centro. Aquelas discurseiras da ex-presidenta Dilma nada mais são do que autênticas manifestações de SN. E o que dizer da deputada gaúcha que esbarrou de propósito num colega da Câmara e saiu acusando ele de agressão? SN de raiz. Só faltou esbravejar "mas o que é isso?" várias vezes.

A juíza que liberou os traficantes presos em flagrante com quase cinco toneladas de drogas é um exemplar incontestável de SN Jurídica. Algumas decisões dos egrégios magistrados das cortes superiores flertam com atos de SN, assim como o pessoal envolvido na Lava Jato que trocou mensagens sobre o que devem e o que não devem, expondo operações e decisões pelas redes sociais. Aliás, as redes sociais estão infestadas de SN. Pior é o pessoal da SN do crime que envolveu suas mulheres e filhos numa fracassada e trágica operação na cidade de Cristal para resgatar outro criminoso preso.

Os SN invadiram com força agora os eventos culturais e o caso mais recente foi o desconvite à jornalista Miriam Leitão e seu marido, o sociólogo Sérgio Abranches, para participarem da Feira do Livro de Jaraguá do Sul (SC). A alegação é de que o casal corria riscos porque foram registradas mensagens agressivas nas redes sociais e uma petição online com mais de 3,5 mil assinaturas de SN locais pedia que Miriam Leitão fosse cortada da programação por não concordarem com as posições dela. Vale lembrar que, anteriormente, ela fora vítima agressões verbais num voo doméstico por SN identificados com o lulismo, confirmando novamente que a classe não tem ideologia, ou tem todas. E aqui, novamente, surge uma opinião SN presidencial, com direito a editorial da Globo em defesa da jornalista.

Meu bom amigo Gustavo Machado, jornalista e escritor de muita noção, postou um oportuno comentário nas redes sociais, a propósito do episódio ocorrido com a jornalista global e seu marido, creditando o ocorrido à uma "jequice tenebrosa". Num apelo pela tolerância, elenca outros exemplos que ele entende como "jequice explicita", principalmente na aldeia. Me alinho ao arguto companheiro quanto à tolerância, mas me permito humildemente discordar quanto à comparação com atitudes jecas. O jequismo brasileiro, que teve sua origem no imortal personagem de Monteiro Lobato, o Jeca Tatu, é, na verdade, a representação de um sujeito ingênuo, o caipira simplório, símbolo do brasileiro que vive no campo. Aos que produziram os atos condenáveis descritos pelo Gustavo Machado não concedo o benefício da ingenuidade. Ao contrário, são conscientemente partidários dos SN e, sim, o autor da postagem tem razão e assino embaixo na ideia de que o retrocesso de civilidade constatado poderá  nos levar à perda de mínimos freios sociais a ponto de nos  tornarmos um ambiente fértil para o surgimento de seitas. A dos Sem Noção já está bem ativa e cresce cada vez mais.

Autor
Flávio Dutra, porto-alegrense desde 1950, é formado em Comunicação Social pela Ufrgs, com especialização em Jornalismo Empresarial e em Comunicação Digital. Em mais de 40 anos de carreira, atuou nos principais jornais e veículos eletrônicos do Rio Grande do Sul e em campanhas politicas. Coordenou coberturas jornalísticas nacionais e internacionais, especialmente na área esportiva, da qual participou por mais de 25 anos. Presidiu a Fundação Cultural Piratini (TVE e FM Cultura), foi secretário de Comunicação do Governo do Estado, da Prefeitura de Porto Alegre, superintendente de Comunicação e Cultura da Assembleia Legislativa do RS e assessor no Senado. Autor dos livros 'Crônicas da Mesa ao Lado' e 'A Maldição de Eros e outras histórias', integrou a coletânea 'DezMiolados' e foi coautor com Indaiá Dillenburg de 'Dueto a dois é sempre melhor'.

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