O que penso sobre o Bolsonaro e até agora não tinha tido oportunidade de dizer

O Elpídio é aquele sujeito que no meio de uma rodada de chope, de repente interrompe uma conversa sobre futebol para perguntar algo completamente diferente.

- O que vocês acham do Bolsonaro?

Pronto, o grande grupo que se dividia harmonicamente em gremistas e colorados, agora fica todo fragmentado.

Todos querem falar ao mesmo tempo.

- Fascista

- Canalha

- Precisamos de autoridade

- Leis mais duras

- Ditadura

- Democracia.

Quando baixa um pouco a poeira, o Heráclito, que defendia uma tese sobre a importância de se jogar no 4x4x2, quando foi interrompido pelo Elpídio e que pretende voltar logo à discussão sobre o futebol, fala:

- Vamos ouvir o Mestre sobre isso.

O grupo me chama de Mestre porque o Antônio Crespo, que foi meu aluno na Famecos, disse que eu merecia esse tratamento porque era o único cara no grupo que já lera o Slavoj Zizek e entendera alguma coisa.

Começo, tentando bancar o irônico.

- O Bolsonaro não existe, foi inventado pela mídia.

- Como não existe?

O Ricardo é assim impetuoso, não espera ninguém terminar uma frase. Diz que aprendeu quando foi guerrilheiro na VAR Palmares, que devemos nos antecipar sempre ao inimigo, atirar primeiro para não morrer.

- Como não existe? É um perigo, um pequeno Hitler.

A muito custo e graças a intervenção do "seu" Heitor, o mais velho do grupo, as coisas se acalmam e posso voltar à minha tese.

- A mídia inventou o Bolsonaro para assustar a burguesia. É o tipo do recado - ou vocês se acertam - ou nós chamamos o demônio.

- Mas o demônio para a burguesia não é o Lula? Pergunta o Aldo, sempre atento.

Aproveito a deixa para elaborar melhor o pensamento (preciso agradecer depois ao Aldo pela ajuda) sobre o que pretende a grande mídia.

- Isso mesmo. São dois, os demônios que ela usa para assustar a classe média, que no final é quem vai escolher o novo presidente.

- Como não temos mais os velhos comunistas que comiam as criancinhas (uma injustiça histórica porque eram os padres que faziam isso) serve o sapo barbudo, o Lula. Ele é o demônio da esquerda.

 - O Bolsonaro faz o demônio da direita, ajuda o Aldo.

- Isso (preciso mesmo agradecer o Aldo). Assustados, o centro conservador, a direita democrática e até mesmo uma certa esquerda envergonhada, unem-se e escolhem um candidato ao qual dão o título de democrata. Então, a mídia transforma esse personagem no candidato que vai salvar o País dos radicais da esquerda e da direita.

- E quem vai ser esse candidato?

- O ideal seria o FHC, o cara que tem o fisique du role para o papel, mas...

- Fisique de quê? Interrompe o Ubaldo, que não suporta nenhum galicismo ou anglicismo.

- O cara mais adequado para viver esse papel, mas na falta dele, serve até o Alckmin.

- O Bolsonaro, então, é pra esquecer? Volta o Elpídio.

- Esquecer... esquecer... não sei, até porque sempre existe a possibilidade de uma repetição na História, ainda que o Marx disse que ela volta como farsa. Então, todo esse projeto da mídia de criar o seu candidato preferido, pode ruir e surge um novo Collor da vida como salvador da Pátria.

- Mas o Collor foi um produto da mídia.

Agora o Aldo não está mais ajudando.

- Mas caiu quando foi abandonado por ela, mas nada impede que, no desespero, para evitar a volta do Lula, a mídia aposte no Bolsonaro.

Eu devia ter encerrado a minha fala quando citei o Alckmin, porque a discussão recomeçou a toda e não é mais sobre futebol.

- Fascista

- Canalha

- Precisamos de autoridade

- Leis mais duras

- Ditadura

- Democracia.

Autor
Formado em História pela Ufrgs, foi jornalista nos veículos Última Hora, Revista Manchete, Jornal do Comércio e TV Piratini. Como publicitário, atuou nas agências Standard, Marca, Módulo, MPM e Símbolo. Acumula ainda experiência como professor universitário na área de Comunicação, nas universidades PUC e Unisinos. É autor dos livros "Raul", "Crime na Madrugada", "De Quatro", "Tudo que Você NÃO Deve Fazer para Ganhar Dinheiro na Propaganda" e "Tudo Começou em 1964", que tem formato de ebook.

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