Opiniau-au-au

A Opinião é um cachorro que tem a casinha dele na cabeça das pessoas.

Ele pode latir à toa por banalidades, pode lamber o que lhe agrada, rosnar apenas para demarcar território. Agora, morder, não tem como: palavras não têm caninos. Por mais ferina que seja, a ferocidade da Opinião começa e acaba na emissão falada ou escrita, o que dispensa coleira. Além de nenhuma Opinião tirar pedaço de ninguém, quem a ouve ou a lê tem um poder muito maior do que quem opina: pode simplesmente ignorar o latido, o rosnado, a lambida.

É por isso que todas as opiniões são bem-vindas à realidade social: a favor ou contra, liberais ou reacionárias, elas formam a matilha barulhenta sem a qual a caravana dos fatos passaria na surdina.

Ao ladrar, a Opinião tem a chance de influir no meio. E é por isso que é vital levar a Opinião a passear por qualquer área da vida pública - a política, a economia, a sociedade, a cultura, a religião, os costumes. Porque tudo isso afeta a todos, sobretudo a quem não tem Opinião formada ou acha que a sua não tem valor. Daí a importância de deixar a Opinião se exercitar livre por entre os acontecimentos, fazer xixi diante de escândalos, uivar onde valores sejam ameaçados.

E há que cuidar bem da Opinião, com tosas do vocabulário e banho de ideias: assim ela circula à vontade por praças e palcos, plenários e periódicos.

Quanto à ração, ah, precisa balancear: convicção demais fica ardida, convicção de menos fica sem ardor. Já os dogmas - partidários, científicos, filosóficos, religiosos - esses podem conter nutrientes fictícios e às vezes são muito indigestos. O essencial é que, em ambiente democrático, a Opinião possa respirar o ar do nosso tempo. Mesmo porque a atmosfera da Idade Média não está mais aqui.

Autor
Fraga. Jornalista e humorista, editor de antologias e curador de exposições de humor. Colunista do jornal Extra Classe.

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