Outono, seu lindo, eu vou lhe usar

Foi dada a largada para a estação dos encontros mais frequentes, das conversas com as amigas e amigos nos finais de tarde nos bares da Cidade Baixa, das idas ao cinema nos sábados e domingos, das caminhadas nos parques nos inícios das manhãs, do vinho tinto cabernet sauvignon saboreado em taças elegantes nas noites frias, da leitura mais intensa dos livros que acumulam pó na estante e das sestas prolongadas, sempre que possível. Outono, seu lindo, que chegou no Hemisfério Sul nesta terça-feira, 20 de março, às 13h15, prepare-se que eu vou lhe usar. E por um longo tempo. Pelo menos até o dia 21 de junho, data assinalada no calendário em que o Outono se despede e cede seu lugar ao Inverno.

De origem latina, que significa amadurecer (referindo-se à época do ano destinada à colheita), o Outono, para muitas pessoas, lembra melancolia, pelas imagens recorrentes de folhas caindo, pelo amarelar das paisagens, pelo acinzentar dos dias e pela queda da temperatura. Eu, contrariamente, vejo beleza nestes cenários que me estimulam a sair, aproveitar os prazeres da vida, embriagar-me de companhias e vestir-me, às vezes, da mais pura e necessária solidão. As nuances do Outono deixam-me empolgada para usufruir as noites mais longas, deixar o vento bater no rosto, agasalhar-me tão logo o termômetro indique a primeira baixa na temperatura e encantar-me com a paisagem formada pelo nevoeiro nas manhãs.

No início da tarde de terça-feira, ao sair para um compromisso rápido, fiquei apaixonada pela pequena sensação de frio que o Outono já trouxe. Ou foi pura imaginação minha? Ao caminhar apressada pelas ruas nervosas no centro de Porto Alegre, percebi algumas pessoas trajando roupas mais agasalhadas, algumas até com um certo exagero ao usar peças de lã. Ou será que foi miragem? Mais tarde, ao voltar para casa, a melancolia que, dizem, o Outono provoca, empurrou meus olhos para o livro que preciso terminar de ler, para escutar um som ambiental na sala, para um café passado na hora fumegante, para um cochilo de não mais do que 30 minutos, acarinhada pelo filhote canino Quincas, que espalhou-se aos pés da cama.

E a promessa de vida agitada que o Outono me propicia levou-me, imediatamente, a traçar os planos para os próximos meses. Quem sabe uma passagem de três dias para alguma cidade da Serra, não precisa necessariamente ser as tops, como Gramado e Canela, com as gurias? Ou agendar happys com as amigas e amigos que colecionei ao longo da vida nos diferentes empregos que tive? Ou programar mais cafés no shopping com a sempre fiel companheira dos tempos da Prefeitura? Ou talvez ir mais vezes ao cinema sozinha, como eu gosto de fazer sempre nos domingos à tarde e depois encarar um delicioso lanche com uma deliciosa fatia de torta e um chá de frutas?

Mas usarei o Outono também nos dias de chuva para ver bons filmes na televisão fechada ou nos canais de assinatura. Rever os filmes que têm cachorros como protagonistas e ficar com o rosto inchado de tanto chorar. Encontrar na Netflix mais filmes como 'Nossas Noites', em que Robert Redford e Jane Fonda experimentam novos sentimentos para fugir da solidão. Neste Outono terei, sim, dias de preguiça total, permanecendo debaixo das cobertas até mais tarde, planejando um almoço mais requintado nos domingos e me empanturrando de delícias doces como bolo de chuva, rapadura de leite, pé de moleque, brigadeiro de colher, brownie, pipoca ou orelha de macaco, que em algumas cidades é conhecida por palmier.

Se o Outono favorece a busca de encontros, pelo seu tom amarelado e avermelhado, causando um lindo visual paisagístico, no meu caso, ele pode inspirar momentos de solidão, de etapas de transformação de vida, de transição, de introspecção, de meditação. Não me importa qual o cenário, sombrio ou resplandecente, Outono, seu lindo, eu vou lhe usar de qualquer jeito, de todos os modos, em todos os instantes, nos dias e nas noites.

Autor
Márcia Fernanda Peçanha Martins é jornalista, formada pela Famecos/PUCRS, militante de movimentos sociais e feminista. Trabalhou no Jornal do Comércio, onde iniciou sua carreira profissional, e teve passagens por Zero Hora, Correio do Povo, na reportagem das editoriais de economia e geral, e em assessorias de comunicação social empresariais e governamentais. Escritora, com poesias publicadas em antologias, diretora do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do RS (Sindjors), e secretária do Conselho Municipal dos Direitos da Mulher de Porto Alegre (COMDIM/POA). Tem o blogmarcinhaprodigio.blogspot.com. É mãe da Gabriela e avó dos caninos shih tzu Dalai, agora uma estrelinha, e do vira-lata Quincas Fernando.

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