Passado perfeito

  "O passado é um estranho país. Lá, as coisas são muito diferentes”.   L.P. Hartley.   Os bondes da Carris foram um ícone …

 

"O passado é um estranho país.

Lá, as coisas são muito diferentes".

 

L.P. Hartley.
 
Os bondes da Carris foram um ícone inesquecível em meus tempos de ginasiano. Tempos de Porto Alegre tranquila, quase pastoral, quando aqueles barulhentos vagões amarelos se tornaram precursores da modernidade que, finalmente, parecia chegar à província de São Pedro. Eram carruagens encantadas, que tinham o dom de nos transportar de um bairro onde nada acontecia a um mundo de sonhos      e promessas, cujo eixo era a mágica Rua da Praia.
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Navegávamos Avenida Independência acima, entre risadas cúmplices
e tolas brincadeiras, examinando os coloridos cartazes de produtos farmaceuticos estranhos ao nosso ingênuo universo juvenil. Belos reclames de xaropes, poções e elixires, que prometiam curar todas as dores e males do mundo, incluindo dores lombares, calvície, prisão de ventre, enxaquecas, bronquites e rouquidões.
Algumas daquelas marcas passariam a povoar em definitivo nosso universo afetivo: Biotônico Fontoura, Emulsão de Scott, Phimatosan, Rhum Creosotado, Pílulas de Vida do Doutor Ross. E até mesmo um misterioso Saúde da Mulher nº Um (Excesso) e nº Dois (Escassez)
 - que não sabíamos para o que servia.
E sim, haviam os domingos festivos, quando subíamos até a Praça Julio de Castilhos para apreciar o desfile dos bondes Prado, repletos
de senhores de terno e gravata, a caminho das corridas de cavalos
no Hipódromo Moinhos de Vento. A linha Prado usava um modelo
de bonde antigo, mais curto, apelidado de gaiola. Sacolejava o tempo todo, rangindo as rodas de aço nas curvas dos trilhos da Mostardeiro. Mas nada que retirasse a animação dos alegres turfistas, que pulavam do bonde em movimento diante do Hipódromo, na ânsia de chegar aos guichês antes de soar a sirene do primeiro páreo.
Terminadas as corridas, os bondes gaiolas enfilerados no fim da linha, chegava então o melhor do dia. Algo que os atuais comentaristas de esporte apontariam como um precursor do moderno fairplay.
Já embarcados nos bondes, os ganhadores faziam a festa, fazendo troça dos perdedores que caminhavam pelas calçadas, sem dinheiro para a passagem de volta. E alguns - mais por maldade do que por compaixão - lhes jogavam moedas e fichas da Carris, apontando o próximo bonde. Naquele ponto, os motorneiros reduziam os gaiolas à marcha lenta, para não estragar a festa de seus alegres passageiros.
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E enquanto os cavalinhos do Prado proporcionavam alegrias a poucos e tristeza a muitos, os rapazes da minha idade se divertiam no centro da cidade, no paraíso chamado rua da Praia. Praticávamos um esporte mais ingênio e menos arriscado: postados no meio-fio das calçadas, diante da Cecilia Louro, Casa Krahe ou da Sloper, para admirar as moças passarem de braços dados, fingindo não ouvir os inocentes galanteios. Mas semre acontecia que um ou outro mais ousado emitia um discreto fiu-fiu. (Mas éramos meninos bem comportados que conheciam seus limites).
Não demorava muito, era hora da matinée no Carlos Gomes, Rex, Roxy ou no elegante Imperial, na Praça da Alfândega. Subíamos as escadarias de mármore até alcançar as benditas poltronas estofadas, já abastecidos de balas azedinhas compradas com os últimos trocados na bomboniére do saguão de entrada. Quando a tarde caía, era hora de voltar para casa, enquanto os mais velhos, que desfrutavam do privilégio chegar em casa depois das 8, tomavam outro rumo.
Eles desciam as escadarias da Galeria Chaves até os restaurantes do Mercado Público, sempre abertos nos domingos à noite. Eram refúgios certos dos esfaimados, onde se jantava quando o centro se esvaziava: Gambrinus, Treviso e Guaraxaim. Parada obrigatória de jornalistas com plantão noturno e dos que se recusavam a dormir cedo. Todos em busca da onipresente canja de galinha.
Mas mesmo os aventureiros da noite de domingo precisavam ficar de olho no relógio, pois que o último bonde para casa saía do abrigo da Praça Quinze, pontualmente à uma hora. Perder este bonde significava ter que gastar metade da mesada pegando um dos "carro de praça", velhos Chevrolets de placa vermelha, que ficavam à espera dos notívagos. Um amigo daqueles velhos tempos ainda rememora:
" Lembro que tomávamos a canja às colheradas, bebericando o último chopp, antes de sair em disparada até a Praça Quinze. E lá íamos nós, heróis noturnos do bonde Independencia, que disparava, entre fagulhas e ranger de ferros pelas ruas adormecidas de uma Porto Alegre que não existe mais?".
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eram nossa passagem mágica para o lado mais glamouroso de Porto Alegre: a rua da Praia, onde damas e moças desfilavam de chapéu e luvas, enquanto conferiam a última moda de Paris nas vitrinas da Cecilia Louro, Casa Krahe e da Sloper.
Era também ali que circulavam cavalheiros, que tiravam o chapéu ao saudar amigos, antes da pausa para uma empadinha de camarão na Confeitaria Pelotense ou para um Fernet Branca no Café Central.
Enquanto isto, as senhoras admiravam os relógios Omega e as Parker 51 na Casa Masson, ou as alianças de brilhantes e os pomposos anéis de formatura na Joalheria Scarpini. E, quando se aproximavam as cinco horas da tarde, se dirigiam para as confeitarias Schramm e Jahn, para o chá com torta de nozes e bombas de chocolate.

Autor
José Antônio Moraes de Oliveira é formado em Jornalismo e Filosofia. Atuou em jornal em A Hora, Jornal do Comércio e Correio do Povo. Trocou o jornalismo por publicidade, redigindo anúncios na MPM Propaganda. Diretor de contas internacionais, morou por anos na ponte aérea Porto Alegre/ São Paulo/ Rio/Miami/New York. Foi diretor de Comunicação do Grupo Iochpe e co-fundador do Cenp (Conselho Executivo das Normas-Padrão). Atualmente, reside na Serra gaúcha.

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