Relações de consumo

Por Flávio Dutra

Semana passada, tratei aqui da burocracia que nos aflige também nos serviços privados. Hoje, enveredo pelas chamadas relações de consumo e, claro, tenho queixas, ou melhor, certas implicâncias.

Sou um consumidor tipicamente comum: pesquiso preços, gosto de ofertas e não tolero filas. Assim, sinto-me autorizado a dar alguns recados a partir das situações vividas no comércio em geral.

Dia desses, entrei na filial Panvel do edifício Santa Cruz, na Rua da Praia e, além de precisar tirar ficha e esperar ser chamado, apenas uma pessoa fazia o atendimento atrás dos balcões, enquanto outras quatro tratavam de arrumar as prateleiras, com especial atenção à ala dos cosméticos. Claro que preferi comprar meu produto na São João, no outro lado da rua, que não tem fichas e conta com gente suficiente para atender de imediato todos os que entram no estabelecimento.

A propósito, naquela quadra entre a General Câmara e a Uruguai existem, pelo menos, seis farmácias, algumas da mesma bandeira. Por isso, aí vai minha primeira recomendação aos empresários do ramo: a oferta de farmácias é tanta, que fichas para atendimento e desatenção com os clientes é o caminho mais curto para afugentá-los.

Outra situação que me incomoda é o hábito de empurrar remédios a mais do que o solicitado. Na São João, ocorre com frequência, assim como aqueles descontões para levar mais de uma caixa do mesmo produto. Esses procedimentos ligam o meu desconfiômetro sobre a integridade do estabelecimento.

Outra situação comum, que incomoda este veterano consumidor: o oferecimento dos cartões de lojas ou similares com anúncio de descontos na primeira compra. Naquela rede de supermercados, mal me aproximo das caixas e as Kleten, as Darieleen e as Prithiely já perguntam: "Vai pagar com Cartão Zaffari?", mesmo que seja um assíduo frequentador dos mesmos pontos, com as mesmas moças, e sempre pagando no cartão de débito, o pessoal ou o da firma.

Quando pergunto nas lojas para o que serve mesmo os cartões, além do desconto inicial, o pessoal das caixas me olha estupefato, como se estivesse cometendo um crime de lesa-comércio e me falam de prazos alongadíssimos para pagar as prestações, mesmo que eu insista que, preferencialmente, pago à vista. Aliás, as longas filas nos caixas das lojas é também uma boa maneira de irritar e perder clientes. Não dá pra entender que até na hora de receber a grana impere a burocracia.

Em se tratando de filas, nada supera os supermercados BIG, com direito a resenhas das operadoras de caixas e empacotadores - nos poucos terminais com empacotadores - sobre rusgas internas, injustiças nas escalas de trabalho, acontecimentos familiares e até desavenças matrimoniais. Já ouvi histórias que dariam, pelo menos, um curta-metragem. Menos mal que a maioria é bem atenciosa, especialmente o pessoal beirando a terceira idade que, em boa hora, está recebendo oportunidades nessas funções.

Enfim, como diria aquele colunista do prestigiado jornal, não há o que não haja nas relações de consumo.

Autor
Flávio Dutra, porto-alegrense desde 1950, é formado em Comunicação Social pela Ufrgs, com especialização em Jornalismo Empresarial e em Comunicação Digital. Em mais de 40 anos de carreira, atuou nos principais jornais e veículos eletrônicos do Rio Grande do Sul e em campanhas politicas. Coordenou coberturas jornalísticas nacionais e internacionais, especialmente na área esportiva, da qual participou por mais de 25 anos. Presidiu a Fundação Cultural Piratini (TVE e FM Cultura), foi secretário de Comunicação do Governo do Estado, da Prefeitura de Porto Alegre, superintendente de Comunicação e Cultura da Assembleia Legislativa do RS e assessor no Senado. Autor dos livros 'Crônicas da Mesa ao Lado' e 'A Maldição de Eros e outras histórias', integrou a coletânea 'DezMiolados' e foi coautor com Indaiá Dillenburg de 'Dueto a dois é sempre melhor'.

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