Ricos, podres de ricos

"A luta de classes existe, mas é a minha classe, a classe rica que está fazendo a guerra, e nós estamos ganhando."

Esta frase é a epígrafe de Ricos, podres de ricos, novo livro de Antonio D. Cattani. O autor dela? Warren Buffet, segunda pessoa mais rica do mundo, com uma fortuna de 75 bilhões de dólares.

Visualizou? Eu ajudo. Perto dessa bufunfa, as malas e caixas do Geddel são meros trocados, dinheirinho pra gente ir à feira. Pensando bem, até a grana envolvida na Lava Jato não passa de trocados.

Não vou comparar com salário mínimo. Pra que ser cruel?

Neste ponto, cabe a pergunta: Buffet ganhou tudo isso honestamente? Ele vai jurar que sim. Mais vai apresentar um monte de leis que o apoiam e dizer que acha que merece cada centavo desses 75 bilhões. Mais ainda, que acha que uma fortuna dessas não é imoral, que é boa pra sociedade, embora não explique como hoje pode-se ganhar mais dinheiro com juros e jogadas na bolsa do que produzindo alguma coisa.

Agora, é certo que, ao dizer que sua classe faz a guerra, ele admite o vale-tudo. Ou você acredita em guerra limpa, com cavalheiros que não atiram pelas costas nem chutam adversário caído?

Se você não quer ser engambelado por gente como Buffet, leia o livro do Cattani. É claro, sintético, didático - uma informação sobre a outra e argumentação pra que até eu, um analfabeto em economia, entre tantas outras coisas, entenda. Trata-se de um verdadeiro manual sobre a riqueza - tipos, origens, como a pirataria funciona, etc. - e as manobras dos ricos pra que os idiotas da classe mérdia (obrigado, João Antônio) e a ralé não pensem em crimes e sim em meritocracia. É isso mesmo: além de tudo, querem que os pobres assumam a culpa pela pobreza. É tipo culpar o baleado por não ser mais rápido que a bala.

Quando a gente vê os muito ricos falando em Estado mínimo, melhor esconder a carteira. O Estado é mamão com açúcar pra eles, basta ver que os pobres pagam mais impostos. Como se não bastasse esse privilégio proporcionado por leis escritas sob medida, eles têm todas as facilidades pra sonegar fortunas. Quando são flagrados, têm novas facilidades, como perdões legais ou a compra de funcionários baratinhos. A grana da sonegação é várias vezes maior que a paga em propina a políticos, o que tem lógica, claro, ou você pagaria propinas maiores que os lucros que teria por causa delas? O Estado parece um puxadinho dos negócios dos muito ricos e, quando tenta a mínima independência, leva cacete e muito editorial indignado na grande imprensa.

De quebra, o livro ainda tem ilustrações do Edgar Vasques.

Ricos, podres de ricos saiu graças a uma parceria da Marcavisual e da Tomo Editorial. Espero que seja best-seller e Antonio D. Cattani se torne milionário. Será um dos poucos casos de fortuna feita pelo talento.

Autor
Ernani Ssó se define como ?o escritor que veio do frio?: nasceu em Bom Jesus, em 1953. Era agosto, nevava. Passou a infância ouvindo histórias e, aos 11 anos, leu seu primeiro livro sozinho:Robinson Crusoé. Em 1973, por querer ser escritor, entrou para a Faculdade de Jornalismo, que deixou um ano depois.  Em sua estréia, escreveu para O Quadrão (1974) e QI 14,(1975), publicações de humor. Foi várias vezes premiado. Desenvolve projetos literários para adultos e crianças.

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