Sozinha, sim!

Estava aqui pensando sobre o que escrever nesta semana e aí me ocorreu a frase de um amigo quando me encontrou na pista de dança no sábado: "Tu estás aqui sozinha?". Como aconteceu nas últimas vezes que me fizeram essa pergunta, ela me soou estranha e me incomodou muito, principalmente, por ter sido dita de uma forma super natural. Será que ele fez a mesma pergunta quando encontrou os amigos sozinhos na festa? Eu estava ali em um ambiente no qual me sinto bem, rodeada de gente conhecida e por que isso parece estranho para as pessoas? Mas não é de hoje que isso acontece, não é mesmo?   

Passei a lembrar de quando comecei a ser questionada se iria sozinha mesmo para algum lugar. Acho que eu era adolescente, deveria ter uns 15, 16 anos e resolvia ir para as festas sem combinar com ninguém. Sim, naquela época, no interior de Santa Catarina, a gente podia ir para a balada com essa idade. Em alguns dias me dava 'a louca' e eu resolvia ir para a festa (devidamente autorizadas pelos meus pais, claro) porque sabia que, de alguma forma, sempre tinha alguém conhecido por lá. Lógico que eles sempre me perguntavam: "Tu vais sozinha mesmo?". E lá ia eu curtir uma festinha de leve e encontrar os amigos.

Depois que sai de casa para estudar, lá pelos 18 anos, praticamente emendei um namoro longo no outro e, por muito tempo, sempre tive companhia para ir aqui, lá e acolá. E há quase três anos, passei a me ter mais como companhia. Voltei a ir sozinha para as festas, a almoçar nos finais de semana sozinha, a beber meu vinho sozinha, a viajar sozinha e por aí vai. Lembro que quando fui para Minas Gerais lá por maio do ano passado, muita gente perguntava: "Vais sozinha?". Vou. "Vais encontrar alguém lá?". Não. "Vais por que, então?". Vou por mim. E assim o fiz. Fui lá me reencontrar. Andei por toda cidade sem ninguém me perturbar. Tomei café, almocei e jantei sozinha. Fui a Inhotim sozinha e acho que ainda não tive outro momento tão incrível e de autoconhecimento como aquelas horas caminhando por lá: eu, meus pensamentos, medos e incertezas. Voltei outra pessoa.

Fazer todas essas atividades na própria companhia não é para afrontar alguém, como alguns pensam. Essa afronta acaba acontecendo porque as pessoas não estão acostumadas a verem uma mulher andar para lá e para cá na própria companhia. Tenho várias amigas que viajam sozinhas e compartilham das experiências de olhares tortos e um infinito de perguntas por parte de motoristas de táxi, aplicativos, garçons e afins que insistem em saber se tu não estás esperando ninguém mesmo para jantar e por aí vai.

Lamento informar a quem se incomoda com isso que continuaremos a andar lépidas, faceiras e sozinhas por aí, apesar de toda insegurança. Se você acha que existe violência sendo homem, tente imaginar o que pode ser isso para uma mulher. E não nos perturbem quando nos vir sentadas numa mesa de bar ou de restaurantes sozinhas. Não estamos abandonadas ou deprimidas por não termos com que dividir aqueles momentos. Estamos apenas, e simplesmente, aproveitando a vida no nossa melhor companhia: nós mesmas. Sozinha, sim! E felizes!

Autor
Jornalista, formada pela Universidade Federal de Santa Catarina, especialista em Marketing e mestre em Comunicação - e futura relações públicas. Há 15 anos, atua em assessoria de imprensa, comunicação corporativa, produção de conteúdo e relacionamento. Possui experiência no atendimento de clientes, públicos e privados, das áreas de educação, moda, gastronomia, entretenimento, música, varejo, construção civil, setor moveleiro, automobilístico e instituições financeiras. Tem passagens pela Secretaria de Educação do Rio Grande do Sul, e, na área cultural, fez a divulgação de mais de 30 shows nacionais e internacionais na capital gaúcha. Atualmente, é Gerente de Atendimento na CDN Sul e integra a diretoria da ABRP RS/SC.

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