Um assunto que nunca sai de pauta, e nem deve

Quantas atitudes machistas em casa, na rua e no trabalho você tem presenciado? Quantas mulheres você conhece que tem a mesma função de um homem e tem o salário menor? Quantas matérias sobre abuso sexual e moral você tem visto nos últimos tempos? Quantas manchetes sobre violência contra a mulher você lê por dia? Para citar algumas notícias dos últimos tempos: temos o produtor de Hollywood que abusava e estuprava atrizes em início de carreira; o ministro do TSE que disse que o rosto da mulher ficou roxo porque  ela escorregou num Listerine e bateu o rosto na banheira; um dos bancos filiados à Street State Corp, que criou e ganhou vários prêmios em Cannes com 'Fearless Girl', terá de pagar indenização à 300 funcionárias por desigualdade na remuneração; e por aí vai. E ainda temos um professor de universidade federal pedindo apoio em rede social depois de uma aluna tê-lo denunciado por abuso.

Todos esses assuntos que agora aparecem aos borbotões na mídia, há muito tempo acontecem, só não eram muito noticiados, provavelmente, por não haver tantas denúncias como existem agora. E, se os deuses quiserem, as mulheres terão cada vez mais coragem para colocar a boca no trombone. Mas por quê estou falando sobre isso, você deve estar pensando. Porque na maioria das vezes, a gente vê essas manchetes e acha que esse tipo de coisa só existe longe, na comunidade, na periferia, e com uma parte da população que não tem muito acesso a educação. Quero te mostrar que está muito mais perto do que você imagina. Sim, este assunto nunca vai sair de pauta. E nem deve.

E vou começar usando o exemplo do tal professor de Comunicação de uma universidade federal que ficou sabendo de um processo administrativo contra ele por ter abusado de uma aluna. Ele pediu apoio nas redes sociais de quem o conhecia e pelo Lattes que ele possui. Como diz a campanha que as alunas lançaram após esse episódio: Lattes não é caráter. Tive uma disciplina  com esse tal professor e não cheguei a presenciar nenhum abuso físico por parte dele, mas o que acontecia de abuso moral, não dá pra contar nos dedos de tantos que foram. Olhando um pouco pra trás e entendendo um pouco mais de quais são os limites que não  devem e não podem ser ultrapassados, posso dizer que fui abusada por professores na primeira faculdade. Muitas vezes fiquei sem graça por comentários, travestidos de elogios, na frente dos colegas, telefonema à noite para um dos laboratórios quando estava  fazendo uma prova sozinha, até o ponto de dizer no dia da minha formatura que "agora posso dar em cima já que agora tu és minha colega". Admiro a coragem dessas gurias (eu não tinha nem metade com 18 anos) que não deixam passar e que se movimentam para que outras não passem por esta mesma situação.

"Ah, mas isso acontece na faculdade porque os professores têm autoridade e tal". Será mesmo? Aproveita e dá uma olhada aí na agência ou na redação quantas mulheres têm na equipe. Talvez em algumas áreas do Jornalismo, da assessoria de imprensa e de RP, elas sejam maioria. Mas será que tem os salários equivalentes aos dos homens na mesma posição? Será que são respeitadas da mesma forma? Na Publicidade, as mulheres acabam sendo direcionadas para certas áreas, principalmente, para o Atendimento. Deem uma olhada na Criação e no Planejamento. Quantas mulheres têm por lá? E por que não tem mais? Seria por falta de interesse delas ou por falta de oportunidade mesmo? Numa próxima reunião, preste mais atenção quando uma mulher for falar,quantas vezes ela será interrompida por um homem. Vai dizer que você nunca percebeu quando uma colega insiste numa ideia incrível, ninguém dá bola, e quando um colega homem fala a mesma coisa e é imediatamente ovacionado?

Se olharmos para os veículos de comunicação, algumas áreas foram extremamente masculinizadas, principalmente, no esporte e na polícia. Gurias, quem já foi fazer uma pauta de qualquer área que seja, mas acontece muito nas de Economia e Política, que a fonte fica explicando mil vezes a mesma coisa achando que tu ainda não entendeu? E tu diz que já entendeu e a pessoa explica  mais uma última vez.  Ou quando vai cobrir um jogo de futebol  tem que ficar escutando 'elogios' da torcida, 'gracinhas' dos jogadores dos times e cochichos dos colegas de trabalho.

"Mas, Cris, já melhorou bastante!" Sim, ainda bem que estamos evoluindo, mas ainda falta um longo caminho para que as mulheres sejam respeitadas da mesma forma que os homens. E, com toda certeza, só tem 'melhorado' porque mulheres corajosas colocam a boca no mundo e denunciam essas atitudes, porque quando escutam alguma M**** dessas, respondem a altura, porque não ficam  mais caladas ao serem cantadas, encoxadas e otras cositas más. Mas ainda tem tantas outras que não conseguem ou não tiveram a oportunidade de fazer isso. E também é por elas que precisamos continuar de cabeças erguidas, colocando o dedo na ferida e mostrando ao mundo a falta de respeito, as desigualdades e as violências pelas  quais passamos. Se não formos nós a reivindicarmos por um mundo mais igual, ninguém fará pela gente. Juntas somos mais fortes. Sim, é clichê, mas é a mais pura verdade!

Autor
Jornalista, formada pela Universidade Federal de Santa Catarina, especialista em Marketing e mestre em Comunicação - e futura relações públicas. Há 15 anos, atua em assessoria de imprensa, comunicação corporativa, produção de conteúdo e relacionamento. Possui experiência no atendimento de clientes, públicos e privados, das áreas de educação, moda, gastronomia, entretenimento, música, varejo, construção civil, setor moveleiro, automobilístico e instituições financeiras. Tem passagens pela Secretaria de Educação do Rio Grande do Sul, e, na área cultural, fez a divulgação de mais de 30 shows nacionais e internacionais na capital gaúcha. Atualmente, é Gerente de Atendimento na CDN Sul e integra a diretoria da ABRP RS/SC.

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