Um banho de cinema novo

"Cinema é cachoeira", definiu lapidarmente o mestre Humberto Mauro (1897 - 1983). A sentença poética remete inapelavelmente à ideia de Heráclito de que a vida é um fluxo perene e também ao célebre aforisma atribuído ao filósofo: "Ninguém entra em um mesmo rio uma segunda vez, pois quando isso acontece já não se é o mesmo, assim como as águas que já serão outras". Fluxo, renovação, perenidade, cachoeira: conceitos e imagens que me vêm à mente quando penso em cinema novo e Cinema Novo - movimento e filme. Pois o documentário de Eryk Rocha sobre o conjunto de filmes brasileiros que sacudiu como um terremoto o cinema mundial nos anos 1960 e 1970 acaba de chegar em DVD, em lançamento do Canal Brasil. O realizador do vencedor do prêmio Olho de Ouro no Festival de Cannes de 2016 tem intimidade de berço com a matéria: Eryk Rocha é filho do cineasta Glauber Rocha (1939 - 1981), o guru do cinema novo, com a também diretora Paulo Gaitán. (Aliás, por falar em paternidade, o baiano Glauber considerava o mineiro Humberto Mauro como o grande patriarca do cinema brasileiro.)

Apesar de ainda jovem, Eryk, 40 anos, já possui uma filmografia consistente, respeitada e admirada, na qual se destacam documentários como Rocha que Voa (2002) - seu primeiro longa, sobre as ideias do revolucionário pai -, Pachamama (2008), Jards (2012) e Campo de Jogo (2015), além do comovente filme de ficção Transeunte (2010). Em Cinema Novo, o diretor debruça-se sobre uma miríade de fontes audiovisuais para construir uma narrativa a respeito dessa orquestração criativa e intelectual que traduziu em linguagem cinematográfica uma visão de arte e de política a partir do subdesenvolvido Terceiro Mundo. São cenas de filmes clássicos e obscuros, trechos de entrevistas para TV e registros caseiros em Super-8, imagens em preto e branco e coloridas que recuperam a obra, o pensamento e o convívio mútuo de expoentes do movimento cinemanovista como Glauber Rocha, Carlos Diegues, Nelson Pereira do Santos, Leon Hirszman, Joaquim Pedro de Andrade, Ruy Guerra, Walter Lima Jr. e Paulo César Saraceni.

Como era de se esperar de Eryk, um dos mais talentosos diretores da atualidade no Brasil, Cinema Novo não é um documentário convencional: a produção lança mão o mínimo possível de legendas explicativas, deixando que os próprios filmes e as imagens de época falem por si e instruam o espectador sobre o assunto. Em sua absoluta confiança na potência do material histórico reunido, Eryk dispensa qualquer depoimento registrado hoje: seus personagens, quando não estão se expressando por meio de seus filmes, são apanhados em declarações e falas do passado, documentadas a quente enquanto suas obras vinham sendo gestadas ou exibidas nos cinemas, debatidas na imprensa e nos meios intelectuais e premiadas em festivais internacionais de prestígio como Cannes e Veneza.

Mas o que mais impressiona em Cinema Novo é sua capacidade singular de unir informação, ensaio e poesia. Diferentemente de documentários que privilegiam uma abordagem mais sensível e pessoal de um tema, sacrificando em certa medida o viés didático e jornalístico - como acontece inclusive em filmes do próprio Eryk -, Cinema Novo dá conta de conduzir o espectador pela trajetória do seu assunto, ainda que sem a pretensão de esgotá-lo ou sequer elucidá-lo em demasia. O excepcional no trabalho é que esse percurso histórico intercala-se de maneira bem equilibrada na tela com um aluvião de imagens cativantes capazes de envolver a plateia - e, a seu modo, também comunicar sobre o que foi aquele período de efervescência criadora no cinema nacional. A montagem virtuosística de Renato Vallone alterna sequências representativas de alguns títulos fundamentais do cinema novo com clipes que juntam fragmentos de filmes, agrupados por leitmotifs genéricos e às vezes derivativos: trens, praias, beijos, cidade, campo, miséria, trabalho, sertão, estrada, música etc. Um carro que surge em determinado longa acaba propiciando uma pequena suíte visual de automóveis em filmes do movimento, por exemplo; a corrida na caatinga em busca do mar no final de Deus e o Diabo na Terra do Sol (1964), obra-prima de Glauber, espelha-se na catarse da corrida no meio da rua em plena metrópole de Os Herdeiros (1970), de Cacá Diegues. O resultado é uma experiência estética extremamente gratificante, que cumpre a função tanto de informar sobre uma geração de diretores cujos filmes pretendiam casar arte, reflexão e revolução quanto de evocar o mesmo fascínio pelo cinema compartilhado entre eles.

A edição em DVD de Cinema Novo, portanto, é uma oportunidade de ouro para (re)ver um dos melhores documentário brasileiros dos últimos tempos. Afinal, como nos lembram Heráclito e Humberto Mauro, sempre podemos voltar a um filme como se fosse a primeira vez - ele nunca será igual àquele já visto, nós não seremos mais os mesmos espectadores que um dia o assistiram. 

Autor
Jornalista e crítico de cinema, integrante da Associação Brasileira de Críticos de Cinema (Abraccine). Editou de 1999 a 2017 a coluna Contracapa (artes, cultura e entretenimento), publicada no Segundo Caderno do jornal Zero Hora. Neste período, também atuou como repórter cultural do caderno de variedades de ZH. Apresentou o Programa do Roger na TVCOM entre 2011 e 2015 e é é autor do livro "Mauro Soares - A Luz no Protagonista" (2015), volume da coleção Gaúchos em Cena, publicada pelo festival Porto Alegre Em Cena. Foi corroteirista da minissérie "Tá no Sangue - Os Fagundes", veiculada pela RBS TV em 2016. Atua como repórter e crítico de cinema no Canal Brasil.

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