Um olhar

"Todo olhar tem nome e motivo."

(Clarice Lispector)

Não se podia dizer que a conferência fosse enfadonha - o palestrante era um profissional competente e o tema, promissor. No entanto, ele estava cansado da longa viagem - e os incômodos fones da tradução simultânea não ajudavam muito. Mesmo assim, tentou se concentrar no homem de terno-de-riscas no centro do palco. Era sobre os códigos da percepção extra-sensorial:

"- (...) Olhar para alguém é um código ancestral, atávico, que significa que queremos fazer contato, iniciar uma conversa. Mas o olhar instintivo também pode ser provocado por informações que estamos constantemente captando em nosso entorno."

Instintivamente, ele passeou os olhos ao redor. No moderno anfiteatro, quase lotado, todos estavam focados no palestrante. Acomodou-se na cadeira e tentou se concentrar:

"- Uma das primeiras coisas que detectamos em outra pessoa é a posição da cabeça e do corpo. Se algum deles está posicionado em nossa direção ou de forma pouco natural, é motivo para alerta - ou alarme.

Acontece quando o corpo do outro está na direção contrária,

mas sua cabeça está voltada para nós.

Isso faz com que fixemos a atenção nos olhos do outro."

O palestrante mostrava saber do que estava falando. Percepção extra-sentidos era um assunto que sempre o fascinara. Inclinou-se para ouvir melhor:

"- No entanto, certas vezes, pressentimos um olhar antes de o ver,

voltando a cabeça na direção que nosso instinto indica.

Então, este movimento faz com que a outra

pessoa mantenha o olhar em nós.

Quando os olhares se encontram, cada um supõe que

o outro o estava olhando em primeiro lugar."

***

Naquele exato momento, ele sentiu um desconforto vago, um movimento que seus olhos e ouvidos não registraram. Não foi som, ou gesto brusco de uma pessoa próxima. Era diferente, mas algo que já havia sentido antes. Ou talvez uma auto-sugestão, motivada pelo tema da palestra? Voltou a cabeça para o lado direito. Nada anormal, todos continuavam olhando para a frente, atentos ao homem no palco.

No lado esquerdo, a mesma coisa. Não... não, alguma coisa estava fora do contexto. Nem todas as cabeças estavam voltadas para o palco. Bem no fundo, uma mulher morena mantinha o olhar fixo nele. Seria uma pessoa conhecida? Ela não desviava o olhar, nem moveu a cabeça em sinal de reconhecimento. Incomodado, foi a vez dele desviar os olhos para o palco, para acompanhar o apresentador:

"- Em algumas situações, sentimos algo que não

entendemos no primeiro momento.

É uma perturbação semelhante a quando um desconhecido

esbarra em nós no metrô ou quando uma voz estranha

interrompe nossa concentração.

Mas, diferente do contato físico, é uma sensação breve,

mas intensa, de se sentir objeto de atenção.

É um fluxo de energia que nos invade e para

o qual não temos defesa nem explicação."

Como que seguindo o roteiro proposto pelo palestrante, ele ergueu a cabeça e procurou a mulher morena. Mas ela não estava lá. Teria mudado de lugar? Pensou em erguer e ir até lá, mas logo desistiu. Voltou sua atenção ao homem de terno-de-riscas:

"- O contato visual direto é o mais poderoso sinal de interação

não-verbal que temos em nosso repertório de sentidos.

É um fator crucial em situações de intimidade,

intimidação e influência social. Quando trocamos olhares, acionamos emoções ocultas, buscamos descobertas.

Mas os humanos não conseguem esconder emoções:

o olhar expressa mais sentimentos do que desejamos."

***

Que estranhíssima coincidência! Vivenciar a mesma sensação que o palestrante descrevia com precisão. Ou ele se encontrava em uma sessão de teoria aplicada? Mas não havia mais ninguém perturbado, procurando olhares furtivos pela sala. Foi quando um rapaz alto ergueu-se, juntou os livros e mudou de lugar. E no espaço onde estava, ele viu que a mulher morena estava lá, curvada sobre suas anotações.

Não mais do que um segundo depois, ela ergueu a cabeça e olhou para ele. Não fez nenhum outro movimento, não olhou ao redor, apenas dirigiu o olhar diretamente em sua direção, como se sentisse observada, como que respondesse a um chamado.

Naquele exato instante, a palestra terminou, as pessoas se ergueram para aplaudir o palestrante. Com a movimentação que se seguiu, ele perdeu de vista a mulher morena. E nunca mais a viu.

***

Autor
José Antônio Moraes de Oliveira é formado em Jornalismo e Filosofia. Atuou em jornal em A Hora, Jornal do Comércio e Correio do Povo. Trocou o jornalismo por publicidade, redigindo anúncios na MPM Propaganda. Diretor de contas internacionais, morou por anos na ponte aérea Porto Alegre/ São Paulo/ Rio/Miami/New York. Foi diretor de Comunicação do Grupo Iochpe e co-fundador do Cenp (Conselho Executivo das Normas-Padrão). Atualmente, reside na Serra gaúcha.

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