Um quê a mais

Por Flávio Dutra

Meus sensíveis ouvidos doem quando ouço os repórteres e apresentadores gaúchos sapecarem nas perguntas aos entrevistados um "como quê é" ou um "qual quê é". Acredito que seja um legado do paulistês, importado e aculturado via programas de TV. Pior ainda quando vem com aquele "onde quê" ou o similar "aonde quê", usados para situações em que o advérbio que indica lugar não se aplica, ainda mais com apêndice do quê.

Observo também outro vício oral (nada a ver com aquilo!) dos nossos mais dedicados repórteres e qualificados âncoras: um "aí" como muleta nos finais de frase, em textos de improviso. Neste caso, nem me dói tanto, embora considere que esse vício pode ser corrigido facilmente. Basta o profissional ficar atento ao que vai falar e se policiar quando for para o ar, recomendam os especialistas. 

Não me tomem por um intransigente corretor da linguagem. Sem formação para isso, admito que cometo meus pecados gramaticais com mais frequência do que gostaria. Faço, porém, um esforço danado para contrariar aquele amigo que me acusa, o maledicente, de ter faltado às aulas de vírgulas e crases e, ainda, diz que está sendo generoso na avaliação.

Porém, isso que chamo de vícios, de tanto serem repetidos, acabam se incorporando à língua falada, empobrecendo o nosso já maltratado idioma. A mídia reverbera, dá expressão e alcance aos tais vícios.

Um exemplo de pobreza vocabular que ganhou relevância na mídia eletrônica é o "por conta de", que veio a substituir o "a nível de". Pelo menos, não está errado, mas nem por isso precisa ser repetido à exaustão para explicar o acidente no trânsito, a falta d'agua, a sinaleira que não funciona, as mudanças no clima e outras tantas incidências do dia a dia.

Ao mesmo tempo, "um conjunto de" (expressão que já esteve mais na moda) palavras não usuais foi incorporado às discurseiras das fontes nas mídias e fazem a festa dos que se consideram moderninhos. É distopia pra cá, disruptivo pra lá, mais a concertação, o ressignificar, o pertencimento, sem contar os importados coaching, digital influencer e o campeoníssimo spoiler. Coisas do Internetês. E, em qualquer circunstância, se faltar vocabulário, tacam-lhe um "fascista", que sempre se encaixa.

Já o "empoderamento" feminino elevou ao pódio um trio de respeito: feminicídio, misógino e sororidade! Reconheço que são palavras atraentes pela sonoridade, que nada tem a ver a sororidade aí de cima. O trágico episódio de Brumadinho colocou na moda por um tempo o "descomissionamento" referente a barragens desativadas e não aos funcionários exonerados dos cargos em comissão no serviço público. O termo inundou as matérias dos repórteres na cobertura do acidente sem que explicassem do que se tratava. Diferentemente dos debatedores esportivos que se esmeram para sustentar suas teses em dar vazão a chavões do tipo "copo meio cheio, meio vazio", "medido pela régua...", "fora da curva", "a banca paga e recebe" e a maior obviedade de todas, a consagrada "uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa".

O pior dos cenários é quando os que não sabem o que estão falando se entregam aos modismos, empregando fora de seu contexto palavras e expressões novas. Isso bem que mereceria outra crônica. Mas chega de aspas e quês. De minha parte, sou pela simplicidade e por tudo o que facilite a comunicação. É a minha "expertise", com o perdão pela contradição.

Autor
Flávio Dutra, porto-alegrense desde 1950, é formado em Comunicação Social pela Ufrgs, com especialização em Jornalismo Empresarial e em Comunicação Digital. Em mais de 40 anos de carreira, atuou nos principais jornais e veículos eletrônicos do Rio Grande do Sul e em campanhas politicas. Coordenou coberturas jornalísticas nacionais e internacionais, especialmente na área esportiva, da qual participou por mais de 25 anos. Presidiu a Fundação Cultural Piratini (TVE e FM Cultura), foi secretário de Comunicação do Governo do Estado, da Prefeitura de Porto Alegre, superintendente de Comunicação e Cultura da Assembleia Legislativa do RS e assessor no Senado. Autor dos livros 'Crônicas da Mesa ao Lado' e 'A Maldição de Eros e outras histórias', integrou a coletânea 'DezMiolados' e foi coautor com Indaiá Dillenburg de 'Dueto a dois é sempre melhor'.

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