Uma cartomante para o passado

"O passado, como já foi dito tantas vezes, é um país estrangeiro no qual as coisas eram feitas de forma diferente."

Jullian Fellowes

Acho o passado mais intratável que o futuro. O futuro, por mais imprevisível que seja - não há notícia de que um astrólogo ou cartomante tenha ganhado na mega-sena -, pode ser driblado, quando está se tornando presente, se a gente for esperto o suficiente. Claro, quase nunca somos, mas pelo menos a possibilidade existe. Ou até mesmo o acaso pode jogar a nosso favor, pra variar.

Agora, com o passado não tem choro nem vela: c'est fini, kaputt, babaus. O passado é um país estrangeiro onde as coisas eram feitas de modo diferente? Bonito isso. Mas é bom não esquecer que é onde nós éramos os nativos exóticos que hoje mal conseguimos identificar, imagina compreender. No ajuste de contas com o nativo que fomos, quase que só nos restam arrependimentos, pedidos de perdão e memória fraca. Ou os desejos de não cometer os mesmos erros e de que nossa vida - aquelas desconexões todas - faça algum sentido.

Isso é pouco e contém veneno - é o que dizem as letrinhas pequenas do rótulo. Veja, arrependimentos e pedidos de desculpas são meio como reconhecer que hoje somos outro, não aquele pateta ou canalha que flanava naquele país estrangeiro. Podemos olhar pro pateta ou canalha com surpresa, piedade, o que for, e sentir alívio pela distância que temos dele. Mas se os arrependimentos continuam nos azucrinando presente afora, não será sinal de que de alguma forma aquele país estrangeiro permanece em nós? Tipo o passado como uma espécie de ferrugem roendo o presente?

A forma mais comum de se defender do passado é a memória fraca. Regiões selvagens desse país estrangeiro são apagadas, simplesmente apagadas. Mas como não se pode apagar tudo, apelamos pra criatividade. A paisagem inóspita recebe um tratamento de jardim, as casas são pintadas de branco e as portas e janelas, de verde colonial ou azul royal. Mais: os mapas são redesenhados pra contornar as lacunas e tudo é banhado por uma luz doce, crepuscular, que dissolve as arestas dos objetos e as rugas das beldades. Não é que até aquela sucessão de incoerências cômicas e atrozes, ou apenas fúteis, parece se encaixar num enredo aceitável?

O desejo de não cometer os mesmos erros me parece louvável - eu, por exemplo, resistirei a usar calça boca de sino se ela voltar à moda. O problema desse desejo é óbvio: quantos erros podemos repetir inadvertidamente porque ficaram nas regiões apagadas ou repaginadas?

Outra coisinha: caso reconheçamos o erro, sabemos o que o motivou? Porque hoje podemos estar decididos a não usar mais calça boca de sino ou costeletas como um argentino da província, mas os velhos costumes ou crenças ou vá se saber que grilos do nativo daquele país estrangeiro podem ser o agente provocador no meio da multidão que nos levará de volta à calça boca de sino ou às costeletas. Enquanto assiste a esse entrevero, Freud fuma seu charuto com evidente satisfação.

Pra lidar com esse país estrangeiro é necessário muito mais que um guia turístico ou aprender a língua que falavam por lá. É necessário conhecê-lo em minúcia e ter coragem pra conhecê-lo em minúcia. Sim, está aí a psicanálise, mas, se ela precisa da colaboração das pessoas mais inconfiáveis no caso, nós, não seria mais negócio uma cartomante? Mas uma que lesse o passado, não o futuro, e lesse com a clareza e a facilidade com que lemos as colunas sociais ou esportivas nos jornais. Se você conhece uma, me ligue.

Penso nessas coisas porque aquele país estrangeiro está em cada linha ou entrelinha que nós, ficcionistas, escrevemos, mesmo que sejamos incapazes de apontar com o dedo o lugar certo na maioria das vezes. Mas o que me levou a escrever hoje foi o medo que tenho de encontrar pessoas que conheci nesse país estrangeiro. Veja, uma vez abri um jornal e dei com a foto de um dos meus maiores amigos. Fazia anos que não nos víamos. A matéria tratava da morte dele.

Há tempos, uma amiga que eu não via fazia uns trinta anos me ligou pra dizer que estava de passagem por Porto Alegre, podíamos tomar um café? Podíamos, claro. Meu medo não era que tivesse se transformado num caco. Sou adulto há décadas, sei que nem a ciência ou a feitiçaria explica a Tônia Carrero. Mas e se minha amiga agora gostasse de assistir programas de tevê tipo 'Os mais incríveis bolos de casamento'? Se ela acreditasse que tinha sido abduzida pelos incas venusianos? Se o herói dela tivesse se tornado o Moro? Se, como muito velho que sente aquele arrepio no fim do espinhaço, fosse espírita?

Meu terror era descobrir que agora sim ela tinha se tornado estrangeira do modo mais escalafobético. Ou descobrir que sempre foi estrangeiríssima e eu é que não tinha me dado conta ou não lembrava. Também pensei que ela podia sentir o mesmo em relação a mim.

Mas foi tudo bem. Minha amiga continuava afiada, mais até. O que, pela minha experiência, é uma gota nas cataratas do Iguaçu das estatísticas contrárias, se me permitem uma cafonice que não ficaria melhor nem naquele remoto país estrangeiro.

Autor
Ernani Ssó se define como ?o escritor que veio do frio?: nasceu em Bom Jesus, em 1953. Era agosto, nevava. Passou a infância ouvindo histórias e, aos 11 anos, leu seu primeiro livro sozinho:Robinson Crusoé. Em 1973, por querer ser escritor, entrou para a Faculdade de Jornalismo, que deixou um ano depois.  Em sua estréia, escreveu para O Quadrão (1974) e QI 14,(1975), publicações de humor. Foi várias vezes premiado. Desenvolve projetos literários para adultos e crianças.

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