Uma estória amarga

Em maio de 1932, os céus brasileiros receberam um visitante que parecia vindo de outro planeta. O Graf Zeppelin era uma impressionante visão da modernidade do século XX. Sobrevoou cidades e provocou encantamento nas pessoas, enquanto apregoava a excelência da aeronáutica germânica. Enquanto isso, em terras distantes, poderosos blindados avançavam sobre a pacífica Áustria. Fugindo da ameaça, a bordo do grande charuto prateado, estava um jovem de vinte e poucos anos, Paul Underberg. Era o neto e o herdeiro de Hubert Underberg, criador do mais famoso bitter da Alemanha.

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A bebida, feita à base de cascas de árvores, raízes e sementes, fora criada em 1846, baseada em antiga receita dos monges beneditinos da Bavária. Era a bebida preferida pelos camponeses, para acompanhar a cerveja e para facilitar a digestão dos pesados almoços dominicais.

A chegada de Paul Underberg à América do Sul era a última etapa de um périplo por 50 países, na busca de ingredientes e ervas exóticas. Ele percorreu o Brasil de Norte ao Sul, começando pela Amazônia. Ao chegar à Argentina, descobriu que os descendentes dos imigrantes italianos mantinham o hábito do amaro antes das refeições, o nome que se usava na Itália para designar o bitter dos alemães. De volta ao Rio de Janeiro, o alemão se sentiu em casa e decidiu não mais voltar para casa.

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A cidade que Paul encontrou em nada lembrava a tensão da Europa entre guerras. Ali conheceu Erna von Knapitsch, uma bela austríaca que viera para o Brasil nos anos 1930, quando os alemães invadiram seu país. Casaram e foram morar em uma chácara no Alto da Boa Vista. Passaram a importar Underberg da Alemanha e engarrafá-lo nos porões da chácara. Em 1939, quando eclodiu a II Guerra Mundial, a fábrica de Rheinberg, na Alemanha cancelou o fornecimento da bebida. Então, Paul 'tropicalizou' a receita com ervas que descobrira no norte do Brasil. Naquela época, o Underberg já era um 'clássico de botequim' no Rio de Janeiro, graças ao anúncio do Tonico Underberg, onde o personagem repetia um bordão:

"Um cálice por dia dá saúde e alegria."

Com o fim do conflito em 1945, a matriz na Alemanha retomou a produção do Underberg original. Mas, por aqui, Paul e Erna continuaram a comercializar uma versão própria da fórmula da fábrica de Rheinberg.

E uma outra guerra começou, quando a quarta geração da família na Alemanha exigiu que a empresa brasileira não mais usasse a denominação Underberg. Paul morreu em 1959 e como não teve filhos, prevaleceu um antigo contrato dos anos 30 que previa que ele cessasse de usar a denominação no caso de não haver herdeiros. Depois de quase 50 anos de disputas, a versão brasileira foi rebatizada de Brasilberg e a original Undenberg passou a ser importada da Alemanha.

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A receita Underberg é ciosamente mantida em segredo pela família e seus descendentes há 170 anos. Não existem registros escritos. Mas, segundo a tradição, herdada dos monges bávaros, a fórmula sempre é confiada a um padre católico, que passa de geração em geração. O padre que guarda a fórmula é chamado de Geheimnisträger, ou seja, 'guardião do segredo'. No Brasil, a receita é guardada por um monge beneditino cujo nome não é revelado. Só se sabe que o guardião é provido com uma substancial quantidade do produto durante toda sua vida terrena...

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Autor
José Antônio Moraes de Oliveira é formado em Jornalismo e Filosofia. Atuou em jornal em A Hora, Jornal do Comércio e Correio do Povo. Trocou o jornalismo por publicidade, redigindo anúncios na MPM Propaganda. Diretor de contas internacionais, morou por anos na ponte aérea Porto Alegre/ São Paulo/ Rio/Miami/New York. Foi diretor de Comunicação do Grupo Iochpe e co-fundador do Cenp (Conselho Executivo das Normas-Padrão). Atualmente, reside na Serra gaúcha.

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