Você é que está ouvindo música ruim

A música brasileira está ótima; talvez você é que só esteja escutando porcaria. Costumo argumentar assim quando a conversa chega a essa quase unânime conclusão de que a música popular feita no País está indigente. Não discordo obviamente que a ensurdecedora maioria do que se escuta nas rádios e na televisão, que domina as paradas de sucesso e o Spotify, que embala as festas e as corridas de táxi seja de uma pobreza franciscana. Porém, se há consenso entre essas pessoas desgostosas com o atual pop nacional de que o público em geral já teve melhor gosto - avaliação, aliás, discutível, mas tema para outro dia -, há que se considerar também que a música brasileira não se resume ao que é mais tocado e escutado. A boa produção, que passa ao largo do mainstream, é imensa, diversificada, oriunda de todo o País, de altíssimo nível - do regional ao erudito, da MPB ao rap, do instrumental até o estigmatizado funk.

Quer ver? Vou citar como exemplos três lançamentos recentes de discos - tem muito mais coisas boas, evidentemente, mas vamos ficar só nesse trio e deixar outras novidades para as próximas colunas, ok? Um dos maiores instrumentistas brasileiros da atualidade, o violonista carioca Luis Leite homenageia a música sul-americana em "Vento Sul". O terceiro álbum autoral do músico reúne 10 faixas que exibem o virtuosismo de um instrumentista que passeia do choro ao jazz e à música clássica - e que se aperfeiçoou estudando na Europa durante 10 anos, onde venceu diversos concursos internacionais. Entre os belos temas do CD destacam-se a elegante e delicada "Flor da Noite", escrita em homenagem ao mestre Guinga, a lírica e grave "Noturna", com guitarra de Fred Ferreira e voz de Lívia Nestrovski, e a chacarera estilizada "Beniño" - composta para o nascimento de Benício, primeiro filho dos violonistas Yamandu Costa e Elodie Bouny.

Já a cantora Adriana Passos, criada nas rodas de samba do Rio de Janeiro, celebra suas raízes musicais familiares em "Sal do Samba". Filha do compositor Aldo Passos, a intérprete gravou no disco algumas pérolas do avô Arnaldo Passos (1910 - 1964), parceiro Geraldo Pereira em sambas clássicos como "Escurinha", "Ministério da Economia", "Samba Bom" e "Boca Rica". Dividindo os vocais com o cantor Moyseis Marques, Adriana também registrou outro sucesso de Arnaldo, composto com Monsueto: "Mora na Filosofia", samba canção lançado em 1952. Além do autêntico samba carioca, o delicioso álbum com 13 faixas visita também ritmos como o coco, o tambor de crioula e o jongo - em músicas autorais da artista, do pai Aldo Passos e de compositores contemporâneos como Dudu Nobre ("Xodó de Mãe").

Por fim, o também carioca Alfredo Dias Gomes comemora 25 anos de carreira solo com "JAM", CD autoral de jazz rock gravado em seu estúdio no Rio ao lado dos ótimos músicos Julio Maya (guitarra) e Marco Bombom (baixo). Ex-integrante das bandas de Hermeto Pascoal e de Ivan Lins, o baterista tocou e gravou também com grandes nomes da música instrumental e do rock brasileiros. Em seu nono trabalho de carreira, Dias Gomes explora o groove da formação de trio em temas funkeados como "The Night" e "Dream Aria". Em "High Speed", o batera virtuoso escancara suas grandes influências setentistas: Billy Cobham, Mahavishnu Orchestra e The Eleventh House. O clima de jam session, abrindo espaço para improvisações e solos, envolve o ouvinte em "Experience", "Jazzy", "The End" e na faixa-título.

Então tá: vamos nos antenar, abrir os ouvidos e ir atrás da boa música brasileira, ok? Ela está por aí dando sopa.

Autor
Jornalista e crítico de cinema, integrante da Associação Brasileira de Críticos de Cinema (Abraccine). Editou de 1999 a 2017 a coluna Contracapa (artes, cultura e entretenimento), publicada no Segundo Caderno do jornal Zero Hora. Neste período, também atuou como repórter cultural do caderno de variedades de ZH. Apresentou o Programa do Roger na TVCOM entre 2011 e 2015 e é é autor do livro "Mauro Soares - A Luz no Protagonista" (2015), volume da coleção Gaúchos em Cena, publicada pelo festival Porto Alegre Em Cena. Foi corroteirista da minissérie "Tá no Sangue - Os Fagundes", veiculada pela RBS TV em 2016. Atua como repórter e crítico de cinema no Canal Brasil.

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