Você se incomoda quando fecham um teatro?

Nesta semana, a convite do programa '90 Minutos', comentei na rádio Band sobre um suposto encolhimento da expressão artística em Porto Alegre, simbolizado por uma série de aparelhos culturais da cidade fechados ou em funcionamento parcial e/ou precário. Comentei com os comunicadores e amigos André Machado e Fernanda Zaffari sobre a pauta anteriormente publicada no jornal Metro e abordada na Band TV. Essas matérias elencavam locais como a Usina do Gasômetro e o Teatro de Câmara Túlio Piva, ambos fechados, e a Fundação Iberê Camargo, atualmente abrindo para o público apenas dois dias por semana. O gancho, provavelmente, foi a notícia da não renovação do contrato de aluguel da direção do Shopping DC com o grupo que administra o Teatro Novo DC, obrigando a companhia criada pelo dramaturgo e diretor Ronald Radde (1945 - 2016) a sair da casa que ocupou nos últimos 18 anos.

São casos e circunstâncias diferentes. Ainda que tenham como pano de fundo comum a crise econômica, esses teatros e centros culturais devem seu estado atual às respectivas políticas e administrações, sejam elas públicas ou privadas. Só o desinteresse do poder público em levar a arte e a cultura a sério - isto é, como dimensões da vida que promovem o aperfeiçoamento da cidadania, o desenvolvimento do nível intelectual geral e inclusive o crescimento econômico - explicam que o Teatro de Câmara Túlio Piva esteja fechado desde 2014 para obras que sequer têm data de início. Já a Usina do Gasômetro - que deve passar também por uma ampla reforma de cerca de dois anos, mas cujos trabalhos igualmente ainda não começaram - parece sensibilizar mais a gestão municipal, ciente talvez de sua importância na revitalização da orla do Guaíba.

Por falar na bela região costeira porto-alegrense, a Fundação Iberê Camargo é um caso de grave equívoco de planejamento e gestão: em menos de 10 anos, o arrojado prédio desenhado pelo arquiteto português Álvaro Siza, cujo projeto foi premiado na Bienal de Arquitetura de Veneza, passou de referência museológica internacional e cartão postal da cidade a espaço cultural aberto ao público somente sábados e domingos, que demitiu boa parte de sua equipe e quase teve de fechar as portas no ano passado por falta de verba. Empreendimento oriundo da iniciativa privada, a Fundação Iberê Camargo dependia quase que integralmente do aporte de um único grande patrocinador, que diminuiu drasticamente sua contribuição por conta da crise - olha ela aí de novo. Atualmente, a instituição busca recuperar sua credibilidade e marcar sua relevância no cenário cultural da Capital graças a uma variada, intensa e jovem programação de atividades, que vão além das artes visuais e inclui cinema, música, debates e até festas.

E, assim, podemos enumerar uma fiada de centros culturais, teatros, museus, instituições, festivais e eventos que encerraram suas atividades ou vêm sofrendo com a precariedade aqui no Estado. Há uma particularidade nesse panorama de apequenamento, no entanto, que me chama a atenção em especial: a relativa apatia com que aceitamos esse estado de coisas. Sem precisarmos olhar para fora do Brasil, é fato que a crise - mais uma vez - golpeou forte o setor cultural em todo o País. Minha impressão, entretanto, é que, aqui, aceitamos com resignação e mesmo naturalidade a desarticulação e enfraquecimento das instituições artístico-culturais gaúchas. Arrisco opinar que isso não se dá com a mesma passividade em São Paulo, no Rio de Janeiro, em Belo Horizonte ou em Recife, por exemplo. Não sou ingênuo a ponto de idealizar essas cidades, nem quero assumir um tom autodepreciativo por puro prazer masoquista provinciano. Entendo que o desprestígio à cultura e ao conhecimento tem virado um estranho esporte nacional cada vez mais popular e que cada lugar e região têm suas idiossincrasias culturais e econômicas - da mesma forma como ponderei no começo deste texto que cada caso de espaço de arte fechado é um caso distinto. Todavia, algo me diz que chiamos menos do que os pernambucanos quando uma manifestação artística popular é impedida de ganhar as ruas, que os paulistanos não aceitariam tão cordatamente a mirrada quantidade de centros culturais que possuímos em nossa cidade, que a iminência de encerramento de atividades do MAR ou do Theatro Municipal do Rio de Janeiro, por exemplo, provocaria uma indignação nos cariocas que duvido fosse encontrar similar por aqui.

Pode ser exagero ou miopia da minha parte. Mas não consigo deixar de pensar que, tanto quanto a crise onipresente e a má gestão, a apatia e mesmo o desinteresse da sociedade são extremamente daninhas à cultura gaúcha. É hora de a população em geral - e não só as elites econômicas e intelectuais - tomar consciência da importância da arte e da cultura, compreendendo-as como um bem público. E que, então, venham a protestar com veemência quando notarem que esse patrimônio comum está ameaçado.

Autor
Jornalista e crítico de cinema, integrante da Associação Brasileira de Críticos de Cinema (Abraccine). Editou de 1999 a 2017 a coluna Contracapa (artes, cultura e entretenimento), publicada no Segundo Caderno do jornal Zero Hora. Neste período, também atuou como repórter cultural do caderno de variedades de ZH. Apresentou o Programa do Roger na TVCOM entre 2011 e 2015 e é é autor do livro "Mauro Soares - A Luz no Protagonista" (2015), volume da coleção Gaúchos em Cena, publicada pelo festival Porto Alegre Em Cena. Foi corroteirista da minissérie "Tá no Sangue - Os Fagundes", veiculada pela RBS TV em 2016. Atua como repórter e crítico de cinema no Canal Brasil.

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