Voltamos àquele assunto que nunca sai de pauta

Alguns dias de recesso, emendado com praia, sol, mar e água de coco em Salvador, com um Globo de Ouro no meio do caminho. Sim, faço parte do grupo que ama um red carpet e uma entrega de premiação. Desde o ano passado, vimos mulheres do meio do entretenimento internacional colocarem a boca no trombone fazendo denúncias de abusos morais, físicos e estupros por parte de produtores, diretores e colegas de elenco. Tivemos casos, também, entre homens. Inclusive, pode-se se ver um afastamento mais rápido desses profissionais dos seus projetos, que foi o que aconteceu com o Kevin Spacey, do que em casos semelhantes com mulheres.

Então, voltamos aos últimos acontecimentos. Estava eu em Salvador tentando achar um link para ver o Globo de Ouro no apê que eu tinha locado e, enquanto isso, acompanhava tudo pelo Twitter. Acompanho todas essas premiações pela rede social. Melhor lugar para isso, mas acho que já falei sobre o assunto por aqui. Como fiquei um tempinho longe das redes, não estava sabendo do Time's Up, um manifesto que tem o apoio de mais de 300 atrizes, diretoras e escritoras em protesto às várias denúncias de assédio sexual que tomaram conta de Hollywood. No fim das contas, não consegui ver a premiação, não ouvi o discurso da Oprah Winfrey e nem a cutucada da Natalie Portman (maravilhosa) ao apresentar os concorrentes ao prêmio de Diretor, que eram todos homens. Apenas consegui acompanhar o desenrolar dos acontecimentos.

Muito se falou do discurso poderoso da Oprah, uma das pessoas mais influentes do entretenimento dos Estados Unidos e a primeira mulher negra a receber o prêmio honorário Cecil B. DeMille. Este é um dos trechos: "Então, eu quero que todas as garotas assistindo aqui, agora, saibam que um novo dia está por vir! E quando esse novo dia finalmente chegar, será por causa de muitas mulheres magníficas, muitas das quais estão aqui conosco nesta noite e alguns homens bastante fenomenais, lutando para garantir que se tornem os líderes que nos levem ao tempo em que ninguém nunca mais precise dizer 'eu também'."

Por mais que a gente não esteja perto do mundo hollywoodiano, que não nos sintamos representadas por ela, é importante, pelo menos para mim, que, não importa a condição social e cultural de uma mulher, ela deve ser ouvida e estimulada a denunciar qualquer tipo de assédio e violência sofrida. Por mais longe que estejamos, é bom lembrar que as mulheres do Time's Up, já levantaram mais de US$ 15 milhões para um fundo que ajuda financeiramente mulheres de baixo poder aquisitivo a se defenderem na Justiça em processos relacionados ao assédio em todo tipo de profissão, não apenas no Cinema. Não tem como dizer que o movimento não é válido.

E, a partir disso, vieram alguns desdobramentos: o cantor Seal fez um post com uma foto de Oprah e o produtor Harvey Weinstein, denunciado por dezenas de abusos sexuais, dizendo que ela já tinha escutado rumores sobre o comportamento dele e nunca fez nada; 100 mulheres francesas assinaram uma carta aberta, publicada no jornal Le Monde, alertando para o que chamam de novo "puritanismo", diante das recentes denúncias de assédio sexual na indústria do entretenimento. Elas defendem a liberdade de importunar, segundo o documento, indispensável à liberdade sexual e afirmam que a onda de acusações induz à percepção de que as mulheres são impotentes e eternas vítimas. "Como mulheres, não nos reconhecemos neste feminismo que, além de denunciar o abuso de poder, incentiva um ódio aos homens e à sexualidade."

Danuza Leão, em artigo publicado no jornal O Globo, defende a posição das francesas e que o que aconteceu no Globo de Ouro foi um grande funeral. "Apesar dos vestidos lindíssimos, acho que aquelas mulheres (que foram à cerimônia de preto) foram muito pouco paqueradas e voltaram sozinhas para casa". Além disso, ela ainda diz que é doloroso saber que uma mulher pode fazer uma acusação e tirar o emprego de um homem, que é coisa de norte-americano e que espera que essa "moda" nunca chegue no Brasil. Mas o que mais me chocou foi ela ter dito que toda mulher deveria ser assediada pelo menos três vezes por semana para ser feliz. Mark Wahlberg doou 1,5 milhões de dólares ao fundo do Time's Up depois da polêmica que envolveu a diferença de salários do ator e da atriz Michelle Williams na regravação de algumas cenas de "All the Money in the World" depois de Kevin Spacey ter sido afastado do filme. As informações são que Wahlberg teria recebido o valor doado, enquanto Williams recebeu mil dólares. Esses são alguns pontos que renderiam linhas e linhas de texto e horas de discussão sobre um assunto que nunca sai de pauta.

E o que podemos esperar de todos esses movimentos? Eu, pelo menos, espero que: os homens tenham consciência de que existem limites nos relacionamentos profissionais e pessoais com as mulheres, que aceitem que não é não e que nenhuma de nós é obrigada a nada. Que saibam que muitas de nós já perdemos o medo para denunciar e continuaremos a estimular as demais para que todas tenham coragem para tanto. Que as mulheres continuem com suas denúncias, sem se importar com o que irão falar, mas que sejam feitas com responsabilidade. Que a gente se coloque sempre no lugar da outra antes de sair fazendo comentários sobre suas atitudes. Cuidado com julgamentos antecipados. Respeito, acima de tudo!

Autor
Jornalista, formada pela Universidade Federal de Santa Catarina, especialista em Marketing e mestre em Comunicação - e futura relações públicas. Há 15 anos, atua em assessoria de imprensa, comunicação corporativa, produção de conteúdo e relacionamento. Possui experiência no atendimento de clientes, públicos e privados, das áreas de educação, moda, gastronomia, entretenimento, música, varejo, construção civil, setor moveleiro, automobilístico e instituições financeiras. Tem passagens pela Secretaria de Educação do Rio Grande do Sul, e, na área cultural, fez a divulgação de mais de 30 shows nacionais e internacionais na capital gaúcha. Atualmente, é Gerente de Atendimento na CDN Sul e integra a diretoria da ABRP RS/SC.

Comentários