Ana Cortat e Ken Fujioka abordam assédio nas agências de comunicação

Dupla apresenta resultados da pesquisa 'Hostilidade, Silêncio e Omissão'

Ana Cortat e Ken Fujioka ao lado de Carol Anchieta, a mestre de cerimônia do evento - Coletiva.net

Seguindo com as atividades da tarde, foi a vez de Ana Cortat, sócia-fundadora da Hybrid Colab, e Ken Fujioka, sócio-fundador da consultoria ADA Strategy, se apresentarem no Congresso de Estratégia Criativa. A dupla trouxe pela primeira vez ao Rio Grande do Sul os resultados da pesquisa 'Hostilidade, Silêncio e Omissão', organizada pelo Grupo de Planejamento de São Paulo, que demonstra o cenário do assédio nas agências de comunicação.

Logo no começo da apresentação, Fujioka falou que já foi um assediador, por fazer pessoas trabalharem mais do que elas deveriam, pois achava normal ficar depois do horário comercial. E isso, no entanto, faz mal para a saúde. Na sequência, Ana relembrou uma situação de assédio que ela sofreu, quando queria publicar um livro e o editor com quem se reuniu para tratar desse assunto afirmou que iria fazer sexo oral nela.

Assim que um vídeo relatou um caso grave de assédio dentro de uma agência, Ana explicou que não se sabe onde esse comportamento começou, mas muitos o reproduzem e, até todos serem parte da solução, serão parte do problema. Fujioka contou que, durante um congresso do Grupo de Planejamento de São Paulo, ele perguntou quantas mulheres sofreram algum tipo de assédio: "Quase todas levantaram as mãos".

Ana, antes de começar a apresentar os dados da pesquisa em si, explicou as diferenças entre assédio moral e sexual, destacando que este último tem relação com a hierarquia, em que alguém tira vantagem de sua posição hierárquica. Assim, Ken começa a demonstrar os números do levantamento: 90% das mulheres e 76% dos homens sofreram algum tipo de abuso no ambiente de trabalho, de acordo com o estudo realizado com 1.400 profissionais de São Paulo.

"Nove em cada 10 mulheres já sofreram assédio. Isso não é um problema específico, pois envolve todas as esferas das empresas", esclarece Ana. Ken, então, complementa: "É uma realidade agressiva". Os números mostram, inclusive, que sócios ou presidentes de agências são responsáveis por 30% dos assédios. Os estagiários ou assistentes representam 22% das pessoas que sofrem estes abusos nas empresas. Um dado curioso, dentre os apresentados pela dupla, se refere aos diretores das agências: 83% diz ter sido assediado e, com isso, é possível notar que isso é um ciclo: "Eles reproduzem o que viveram", explica Ana.

Entre os números de destaque da apresentação de Ken e Ana, 22% das mulheres contaram que foram assediadas por clientes. Piadas sexistas foram ouvidas por 89% das mulheres e 83% dos homens. Do total dos entrevistados, 86% das mulheres sofreram assédio moral, assim como 76% dos homens. Ken, então, apresentou números totais, mostrando que o mercado publicitário conta com o dobro da média nacional de assédios. Na área dos assédios sexuais, 51% das mulheres já foram vítimas, contra 9% dos homens. "Esse número é potencializado por sermos mulheres", explica Ana.

Fujioka explica que o silêncio mantém o status quo e a omissão não deixa que medidas possam ser tomadas. "O medo, seja de ser demitido, julgado ou sofrer represálias, congela", conta Ana. Entre os que sofrem algum tipo de assédio, poucos acabam denunciando: apenas 12% das mulheres e 8% dos homens levaram o problema ao RH. "E em tempos de crise econômica, as denúncias ainda diminuem", ressalta Ken.

As perguntas foram abertas para a plateia e uma jovem questionou: "Quem trabalha em empresa pequena, sem RH, como se posicionar?". Ana, então, disse que ainda não há uma forte rede de apoio, mas que as pessoas precisam encontrar alguém de confiança próximo e compartilhar o problema com ela. "Essa agência não é o único lugar em que você pode trabalhar. Olhe em volta", disse. Ela também aconselhou que quem sofre assédio deve organizar provas para ir à Justiça, como gravações, e-mails, fotos. "Essas são as recomendações dos advogados", sugere.

Para finalizar, Ana aconselha: "Tentem não se manter em situação de assédio. Olhem em volta. Deem um passo na direção oposta ao assédio. Saiam do ciclo. Acreditem em vocês mesmos". Fujioka, no encerramento de sua fala, destaca a importância do levantamento: "A pesquisa tinha como objetivo de trazer o assunto para o mercado publicitário. E ela não foi ignorada. Agora, precisamos de todo mundo".

Coletiva.net faz a cobertura da quarta edição do Congresso de Estratégia Criativa ao longo desta segunda-feira, 20, com o apoio do Grupo RBS. O evento, realizado no Teatro do Bourbon Country, é produzido pelo Grupo de Planejamento do Rio Grande do Sul.

 

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