Pato Moure: Entre o Guaíba e o Tibre

A paixão pelo futebol proporcionou ao comunicador virar personagem famoso ao longo das três décadas em que viveu na Itália

Roberto Moure já nasceu 'Pato', apelido que herdou do pai devido ao movimento que executava quando jogava futebol. O esporte, aliás, fez parte da história da família. Levou o menino apaixonado a correr atrás da bola, durante a infância e adolescência, e, depois, dos atletas, já adulto, com o microfone em mãos. Hoje, o comunicador, que faz parte da equipe da rádio Grenal, confunde-se ao trocar palavras em português por italianas, justamente, por ser aficionado pelos gramados.

Sem saber o vocabulário básico italiano, em 1980, Pato recebeu uma proposta do amigo de adolescência e então consagrado jogador colorado Paulo Roberto Falcão, que o chamou para acompanhá-lo na experiência na Itália. Assim, tornou-se o primeiro assessor de imprensa de jogadores, informação confirmada, posteriormente, pelo profissional Rodrigo Paiva, que atuou na área na Seleção Brasileira. Neste mercado, ainda trabalhou para os ex-jogadores Emerson Rosa, que passou pelo Grêmio e pela Seleção Brasileira, e o mineiro Mancini, que atuou no Atlético Mineiro, além de times estrangeiros como Roma, Internazionale e Milan. 

Com sorte e amor pelo que fazia, desembarcou em terras italianas no momento da criação de emissoras televisivas comerciais que buscavam pessoas carismáticas. Foi assim que o Roberto brasileiro virou o Pato italiano apaixonado pela equipe da Roma. Apesar da dificuldade em se comunicar com o povo local, foi aprendendo, aos poucos, o idioma por meio de muitas conversas com nativos, além de leituras.

Pato Moure passou pelos canais nacionais 'Italia 1' e 'Rete 4', além de atuar na produção, reportagem e apresentação da 'RAI', bem como em emissoras locais em Napoli, Bari, Milão e em cidades próximas à capital italiana. No rádio, comandou desde o início e deu popularidade ao programa 'Dimensione Suono'. "Eu tinha a ironia do Lauro Quadros e o enfrentamento às câmeras do Paulo Sant'Anna, e os imitava porque eram bons", contou, ao mencionar como conquistou o público que o viu, ainda, no cinema e no teatro.

Sem nunca ter cantado profissionalmente, foi convidado por um produtor, que chamou de louco na época, para gravar uma paródia da música 'Chi chi chi, co co co', de Pippo Franco, em homenagem à vitória da Roma depois de tempos sem conquistar o campeonato nacional. O sucesso foi tanto que virou hit e ficou durante semanas nos primeiros lugares das paradas italianas. "Até hoje, volta e meio os meninos (que trabalham na Grenal) colocam a música no ar para brincar comigo", falou, divertido.

Da saudade ao amor

A falta que Porto Alegre fazia quando chegou ao país europeu foi, aos poucos, compensada pela trajetória. O que era para ser passageiro durou 30 anos, que contemplam realização profissional e o nascimento de um filho. Matteo, 28 anos, é fruto do casamento de sete anos com a atriz italiana de fotonovelas Cristina Belfiore.

Acostumado com as culturas da Itália e da Europa como um todo, hoje, de volta à cidade natal, sente falta da facilidade de deslocamento por meio de trens, o que lhe proporcionou conhecer muitos países. Compensa a saudade cozinhando massa carbonara e espaguete com mariscos, embora confesse que os daqui não são tão grandes como os de lá.

Dos lugares que mais gostou, diz que é difícil identificar apenas um, pois considera tudo muito bonito. "Mas Roma ficou impregnada dentro de mim e tenho um grande carinho pela equipe, principalmente, por causa do torcedor que me trata muito bem."

Paixões da vida

Quando retornou para Porto Alegre, tinha em mente se aposentar e ficar ao lado do filho que, na época, treinava no Internacional, depois de ter passado pelas categorias de base da Roma. Mas um convite auspicioso de Paulo Sérgio Pinto o fez voltar ao rádio gaúcho. Após dois anos, acreditou no projeto de uma emissora que fala 24h por dia sobre futebol e, hoje, diz que não irá parar de trabalhar enquanto tiver saúde.

Enquanto não está atrás dos microfones, Pato acompanha os jogos de futebol e de vôlei, e garante que escuta bastante o veículo de radiodifusão. "Essa é a minha droga", conta, ao falar sobre o meio de comunicação que, muito mais do que lhe dar trabalho, o entretém. Mudando do AM para o FM, escuta samba de raiz e cantores como Chico Buarque e Caetano Velloso. Sua maior referência musical, contudo, está no quarteto britânico Beatles. "Chorei do início ao fim no show do Paul McCartney em Porto Alegre", revela.

A leitura da vez é a biografia do treinador italiano Pepe Guardiola, outro costume do dia a dia do comunicador. A preferência por histórias reais se dá por não gostar de ficções, embora aprecie as obras de Paulo Coelho. A predileção, inclusive, foi passada adiante: enquanto estava na Itália, escreveu um livro sobre episódios engraçados e marcantes da carreira, e que será traduzido ao português e relançado com mais narrativas.

Sócio da Plataforma de Cidreira, revela ser fanático por pescaria, atividade que o leva a um mundo abstrato, onde ele esquece dos problemas da vida. "O único momento que deixo de ser ansioso é quando estou com uma vara na mão pescando", conta ele, que também adora dirigir. Ainda, gosta de viajar e conhece quase toda a Europa. No entanto, o local que mais o marcou foi a Cidade do México, onde trabalhou no Mundial 1986 e conheceu Cancun. Nas últimas férias, na Bahia, teve o infortúnio de quebrar o braço.

Entre rádio e televisão

"Tenho muito amor pelo Jornalismo, porque ele me deu tudo o que eu tenho", comenta sobre a paixão pela profissão na qual tentou se graduar, mas não conseguiu devido à mudança de país. Quando jovem, formou-se técnico contábil na escola Protásio Alves, escolha que se deu pela ausência de Química e Física na grade curricular, e trabalhou em bancos e financeiras. Porém, parecia que a profissão estava escrita dentro dele, pois ouvia muito rádio.

Almejando conquistar espaço na imprensa, ingressou na Farroupilha, em 1972, a convite de Marne Barcelos e João Carlos Machado Filho, e lá atuou por seis meses. Mais tarde, teve a oportunidade de ir para a TV Difusora, atual Bandeirantes, agora por conta de Ary dos Santos, falecido em janeiro deste ano. Após seis anos na emissora, onde foi colega de Lauro Quadros e Tânia Carvalho, foi convidado por Ruy Carlos Ostermann para ser repórter na Gaúcha. Além de ser sua maior referência, o colega foi quem sugeriu usar o apelido Pato como nome artístico.

Irreverente e único, Pato coleciona memórias divertidas e únicas, como quando quebrou o braço, pela primeira vez, durante uma partida no estádio Beira-Rio, ao correr atrás de um jogador para entrevistá-lo e acabou tropeçando no cabo do microfone. Outro marco foi ser expulso de campo pelo árbitro Dulcídio Wanderley Boschilia, no antigo Olímpico, ao tentar conversar no ar com o goleiro da época do Grêmio, Emerson Leão. "Eu ainda perguntei para a torcida se saía ou não", relata, ao lembrar o episódio que foi afastado com a ajuda da Brigada Militar. O comunicador acumula cinco coberturas de Copa do Mundo no currículo, sendo o momento mais marcante da carreira a final de 1982, pois foi o único da imprensa a ser liberado para entrar no vestiário italiano após a vitória contra a Alemanha.

Facetas de Pato

Nascido em um dia de Carnaval, em 7 de fevereiro de 1949, conta que sua vida é uma grande festa. O filho do securitário Moacyr e da dona de casa Joana revelou ter sido muito arteiro e ter dado muito trabalho para os pais. Católico não praticante, aos 12 anos foi convidado a não ser mais coroinha pelas bagunças que fazia na igreja, como se pendurar no sino e comer todas as hóstias.

A infância no bairro Medianeira, ao lado das irmãs Nanete e Nizete, foi muito boa, quando enxergava no pai um ídolo. Das lembranças que marcaram a fase, estão o teste que fez para jogar no juvenil do Grêmio, no qual passou, além dos tempos que estudou no Colégio Cruzeiro do Sul ao lado de amigos com quem conversa e mantém amizade até hoje.

Na personalidade, Pato se diz altruísta, por ajudar os meninos que trabalham com ele. Por outro lado, é distraído, o que, certa vez, o colocou em uma saia-justa com a ex-mulher ao descartar no lixo um vestido dela por engano. Hoje, a felicidade consiste no elogio do cônsul italiano Nicola Occhipinti, que opinou certa vez no ar da Grenal: "Depois que o Pato deixou a Itália, a televisão morreu".

 

 

 

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