Janine Lucht: Com visão e paixão

Jornalista e pesquisadora, Janine Lucht equilibra os dias entre a docência, a gestão de curso na ESPM-Sul e a vida em família

 

Por Karen Vidaleti

A aparência calma não é capaz de esconder o espírito inquieto da jornalista Janine Lucht. Professora e pesquisadora, é com simplicidade, equilíbrio, planejamento e sorrisos largos que a diretora do curso de Jornalismo da ESPM-Sul leva a vida. Natural de Santa Maria, tem na atualização e na aprendizagem duas constantes em sua trajetória, que deixam claro o encanto pelo Jornalismo e pela docência.

Das brincadeiras de recorte com revistas ao olhar atento para o noticiário impresso ou televisivo, a produção jornalística esteve desde cedo presente no dia a dia de Janine. Apesar de o curto convívio se ater à parte da infância, lembra que o avô materno era jornalista provisionado, com atuação no jornal A Razão, um dos mais antigos do Rio Grande do Sul e extinto no início deste ano. Com a profissão já inserida no histórico familiar e o envolvimento com a Comunicação, fluiu ao natural a opção pela graduação. "Percebo o quanto é complicado quando a família não aprova a escolha (da profissão). Essa é uma dificuldade que não tive, porque meus pais sempre me deram todo o apoio", recorda.

Ainda experimentou a rotina radiofônica, pela Rádio Santamariense, antes de conquistar o diploma pela UFSM, em 1999. Um anúncio no jornal foi o ponto de partida para encarar uma nova fase na carreira, deixar a cidade natal rumo à capital gaúcha e dar continuidade aos estudos. Poucos dias após a formatura, já estava em Porto Alegre para cursar o MBA em Comunicação da ESPM. "Aquilo me deu uma visão que eu não tinha antes. Me abriu a cabeça", resume a experiência, que também marcou o começo de uma relação com a instituição de ensino com a qual contribui atualmente.

Após uma passagem pela Assembleia Legislativa, a abertura de concurso para a Fundação Piratini a fez voltar ao rádio, pela FM Cultura, e, em seguida, a levou à televisão, pela TVE. Fala com carinho sobre os dias de repórter, marcados pela corrida atrás da notícia, um período que durou até 2005, quando se mudou para São Paulo. Lá, também não abandonou os estudos. Após um mestrado pela PUCRS, completou o doutorado em Comunicação pela Universidade Metodista de São Paulo e entrou definitivamente para o universo docente. Em solo paulistano, tornou-se professora da ESPM. Foi, assim, "cavando algum espaço para a produção de conteúdo", ainda no curso de Publicidade.

De volta ao Sul

Quando a instituição acertou a implantação da graduação de Jornalismo em Porto Alegre, em 2011, Janine foi convidada a estruturar o processo. "Precisei buscar pessoas que tivessem as características necessárias para a sala de aula e para o curso que estávamos criando. Comecei a formar uma equipe e tive a oportunidade de descobrir muitos talentos, alguns profissionais que nunca haviam lecionado e que se revelaram grandes professores", comenta, orgulhosa, ao falar do curso que já angariou mais de 40 prêmios, obteve o primeiro lugar do Brasil no CPC (conceito preliminar de curso) e nota máxima no Enade.

No cotidiano acadêmico, o aprendizado segue presente e a relação com os alunos costuma ser de troca, seja em relação a conhecimento ou a experiências. "A academia tem essa característica de antecipar o que acontece no mercado. Estamos sempre revisitando conteúdos e buscando novidades, porque essa é uma área muito dinâmica", compreende ela, que realiza agora um pós-doutorado pela Universidade de São Paulo (USP). Janine reconhece a importância da instituição de ensino nessa etapa da vida do estudante, e é com delicadeza e atenção que lida com esse contexto. "Essa fase, dos 17 anos, é a mais difícil. É uma época de descobertas, de decisões. Costumo dizer: fica tranquilo, porque, depois, tudo fica mais fácil", diz, ao contar que esse convívio também a fez crescer na direção do curso.

Para a sala de aula, traz como referências de carreira nomes como o do jornalista Paulo Roberto Araújo (falecido em 2016), professor de Radiojornalismo na UFSM; o jornalista e pesquisador José Marques de Melo, a quem teve como orientador em sua tese de doutorado; e da também pesquisadora Anamaria Fadul. "Posso dizer que tive bons professores e esses são alguns modelos, pessoas em que se vê o prazer nos olhos", define.

O simples que conforta

Casa, quintal e rua de paralelepípedos são alguns elementos que compõem o cenário da infância de Janine, que, naquele tempo, já deixava clara a personalidade característica de quem nasceu sob o signo de Gêmeos. Era capaz de ir das agitadas brincadeiras de rua para as atividades mais tranquilas e caseiras. Filha do meio de Emilce e Juici Passini - formados, respectivamente, em Letras e Administração -, ainda recorda os almoços iniciados pontualmente ao meio-dia, reunindo toda a família, que se completa com os irmãos Julice, hoje advogada e empresária, e Josué, que se dedica à Tecnologia da Informação.

Casada com o engenheiro aeronáutico, doutor em Administração e também professor Richard Lucht, também divide o dia com os cuidados com os filhos Arthur, de nove anos, e Leonardo, cinco. E a quem imagine uma rotina atribulada, ela garante que, com planejamento, tudo se ajusta. Entre as duas escolas dos pequenos, as aulas e a diretoria de curso, além do pós-doutorado, ainda compartilha momentos de descontração em família. Embora reconheça que sua referência de infância é bastante diferente da que os filhos vivem hoje, integra-se ao mundo deles e até se arrisca em alguns games, como o de dança ?Just Dance?.

Aos poucos, o casal também transmite aos filhos um gosto comum pelas viagens. Janine desfaz o mito de que viajar com crianças não é uma boa ideia e conta que, desde cedo, acostumaram-se a partilhar a experiência com os dois. "Algumas pessoas não gostam quando tem crianças no restaurante, no avião... Eles nos acompanham mesmo quando a viagem é de ônibus, tudo com respeito, e adoram. Digo: vamos ver quem vai levar o troféu de melhor companheiro de passeio", brinca.

Além da sala de aula

Dona de um estilo musical bastante eclético, é capaz de ir do rock argentino de Fito Páez à banda norte-americana Bon Jovi. O gênero favorito, no entanto, é heavy metal. "Por muito tempo, sonhei em ir ao show do Ozzy (Osbourne) e fui", relata. Para ler, são foco de interesse, principalmente, referências da Literatura riograndense, os livros-reportagem e as biografias. ?O centauro no jardim?, de Moacyr Scliar, e muitas das produções de Erico Verissimo estão entre as obras que a marcaram. Como leituras mais recentes, indica ?Holocausto brasileiro?, de Daniela Arbex, e ?Rita Lee - uma autobiografia?.

Como não só de noticiário se faz um jornalista, o cinema é um meio de distração, assim como as séries e filmes disponíveis na Netflix. E aqui o gosto também é variado. São dois exemplos as tramas ?Narcos?, que narra a história do narcotraficante Pablo Escobar, e ?Pretty Litlle Liars?, série voltada ao público adolescente, que conheceu através do pediatra dos filhos. Dentre os achados no serviço de streaming, não raro, os filmes tornam-se indicações para os alunos. "Eles perguntam: mas que horas tu assiste à Netflix?", conta aos risos.

Ela se declara uma pessoa "não muito esportiva", mas tem no mergulho um hobby, cuja prática, atualmente, encontra-se mais restrita. Já quando o assunto é gastronomia, diverte-se ao confessar: "Sou uma pessoa ?hiperglutêmica?". Com a expressão, explica que massas - alimentos que contêm glúten - estão entre os que mais agradam ao paladar. A culinária italiana, portanto, se destaca na preferência, mas, ainda assim, aquelas oriundas de outras culturas e países, como a comida japonesa, também têm espaço no cardápio.

Passo a passo

Um desejo especial está justamente em dominar a arte de cozinhar. Por enquanto, admite que faz seus experimentos, arrisca alguns pratos, mas afirma que ainda não se sente à vontade para receber amigos. "Um dia, quero que as pessoas provem a minha comida e tenham um sentimento igual a quando se come comida de avó", vislumbra.

O dia a dia acadêmico, claro, não poderia ficar de fora quando a reflexão versa sobre o futuro. Os planos envolvem a continuidade dos trabalhos pela consolidação do curso de Jornalismo da ESPM, que já recebe o reconhecimento do mercado, como constata a partir do alto índice de empregabilidade de seus graduados. "Quero seguir estudando, produzindo, publicando... O que não quero é ficar parada. Espero ver o curso crescer e os alunos colhendo frutos no mercado", pontua.

Em um contexto em que a área de Comunicação passa por mudanças significativas e a economia nacional enfrenta um momento de instabilidade, Janine mantém a visão otimista e defende que é preciso olhar além, identificar novos nichos e, assim, explorar oportunidades. "Esse não é o momento de desistir do sonho", argumenta.

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