Geraldo Hasse: Jornalista do campo

Mesmo mudando de opinião sobre a profissão, ele não deixou de lado a paixão rural

Os versos de Renato Teixeira em 'Romaria' refletem a vida de Geraldo Hasse: "É de sonho e de pó, o destino de um só / Feito eu perdido em pensamentos / Sobre o meu cavalo / É de laço e de nó, de gibeira o jiló / Dessa vida cumprida a sol". GH, como assina, trouxe da infância no campo a paixão pela natureza. O filho de Nelson e Rosa sonhou em ser agrônomo, mas acabou tornando-se um "jornalista agrícola".

Formado em Jornalismo, único curso noturno que o interessava, pela Universidade Católica de Pelotas (UCPel), foi morar em São Paulo aos 22 anos para se aperfeiçoar e voltar ao Rio Grande do Sul preparado para comandar as redações da terra onde se graduou. O plano, no entanto, não foi perfeito: meia década depois, já trilhou caminho na profissão em Curitiba, São Paulo, Ribeirão Preto, Vitória, Florianópolis, Osório e Porto Alegre. Em meio aos altos prédios dessas cidades é nas praças e ruas arborizadas que cessa a saudade da lavoura de arroz.  

Caipira Pirapora

Filho de agricultor, da infância carrega as lembranças dos banhos nos açudes e nos rios em Cachoeira do Sul, onde nasceu. Adorava assistir às corridas de cavalos em canchas retas e, quando adulto, "botava fora de 10% a 20% do meu salário em apostas no hipódromo", brinca, ao recordar a diversão.

O irmão de Gilberto, Gelson e Paulo Roberto gostava de praticar esportes e chegou a ser jogador amador de futebol. Hoje, relembra a época quando assiste aos jogos do time do coração, Internacional, apesar de ainda não ter ido ao estádio Beira-Rio - a violência e o tempo de deslocamento o incomodam.

Após 15 anos no campo, mudou-se para Pelotas, onde teve o primeiro contato com a profissão: redator de notícias para uma rádio local. Na mesma sintonia, passou a ser programador musical e, desde então, cultiva o hábito de estar sempre ouvindo melodias. Na ocasião desta conversa, por exemplo, ao ser encontrado, estava com um fone nos ouvido, prática de quase o dia todo para ouvir a rádio FM Cultura. Músicas como clássica, milongas, choro e caipira compõem o repertório reproduzido no aparelho. "Lembro quando eu tinha sete anos e escutei sobre a morte de Getúlio Vargas", contou ele, que ainda se atualiza por meio do programa 'A Voz do Brasil'.

Do verbo ler

Além do aparelho radiofônico, Geraldo estava com um livro na mão e logo confessa: "Gosto de ler desde jornais até bulas de remédio", brinca, admitindo a impossibilidade de escolher somente uma obra literária para levar a uma ilha deserta, afinal, carregaria, no mínimo, 12. 'A história da raça humana', de Henry Thomas, e 'O fenômeno humano', de Teilhard de Chardin, são os primeiros que lembra como prediletos. Pouco antes da entrevista, estava lendo um título de jornalismo literário. "Acredito ser o máximo que um jornalista possa fazer: estar com um pé no noticioso e outro na literatura." O gênero, para ele, dá mais vida e profundidade ao que é contado.

GH tem propriedade no que está falando, se considerarmos que foram cerca de 11 livros lançados ao longo da carreira. As reportagens não o satisfazem mais, pois gosta de imergir nas narrativas. Sempre quer ir mais fundo, pois entende que, se puder virar o assunto do avesso, melhor para todos. Hoje, o que mais o fascina é escrever sobre relatos que estão presentes no cotidiano, mas que remetem a um ou dois séculos atrás.

Testemunha do desenrolar da vida

Aos 70 anos, Geraldo se define como "um jornalista", assim mesmo, com tom de trivialidade. O trabalho nacional passou a ser reconhecido em 1969, quando se tornou o substituto do correspondente de Curitiba da Veja, Elmar Bones. O que era para ser um mês, transformou-se em 10 anos. Passou, ainda, pelas redações das revistas Placar, Guia Rural e Exame - na qual foi agraciado com o 'Prêmio Esso de Reportagem Econômica', em 1979.

A conquista lhe rendeu um convite para comentar, uma vez por semana, no programa da Globo Rural, da Rede Globo, onde ficou por dois meses. "Me dava pânico um dia antes até o momento de gravar os dois minutos necessários." O maior desafio chegou quando foi convidado a dirigir a redação do Diário da Região, em  São José do Rio Preto (SP). Além de não conhecer ninguém, a informatização das informações nos veículos estava se iniciando e GH não sabia mexer nos computadores, o que tornou alguns processos mais lentos. Mobilizado pela área que escolheu, na mesma época, mesmo de longe, contribuía para a Cooperativa dos Jornalistas de Porto Alegre, a editora do Coojornal.

Com os tempos mudados e novos nomes para as atividades da profissão, adaptou-se: "Sou, hoje, um jornalista freelancer". Geraldo escreve para veículos como a revista Globo Rural, o Jornal JÁ, o portal Século Diário, além de contribuir com textos para o portal Amigos de Pelotas. Sobre as mudanças no mercado, é pontual: "Os grandes veículos são cada vez mais semelhantes entre si na subordinação da linha editorial aos interesses do marketing". O tenaz e paciente interiorano, mas teimoso, segundo ele, brinca que na infantaria da Comunicação poderia ser general, mas não quis, e então se considera major ou capitão. "Ser jornalista é ser testemunha do desenrolar da vida."

Pela primeira vez na Capital

Sem cogitar se aposentar, ainda se encontra com colegas e pessoas ligadas à cultura em Porto Alegre. Na Capital, costuma caminhar pela Redenção, principalmente quando o Brique está funcionando. Admirador dos mais variados esportes, por causa da alegria e solidariedade que proporcionam, quando está em casa, acompanha partidas diversas, do basquete ao skate, passando por tênis e vôlei, os favoritos.

Na hora de sentar à mesa, o que mais o atrai é a moqueca capixaba e a feijoada. Ainda se arriscava na cozinha com frequência, mas parou de preparar os almoços e jantas em casa desde que os filhos criaram suas asas. Além disso, a filha adolescente Tami, de 15 anos, em meio a descobertas, se arrisca ao fogão, deixando os pais longe do local. A menina é fruto do casamento que perdura há 28 anos com Cláudia Rodrigues, jornalista e terapeuta somática. Da união ainda nasceram Tao, 27 anos, estudante de Engenharia, que passa bastante tempo na casa da namorada, e Gaia, 25, estudante de Direito, que está fazendo intercâmbio na Espanha.

Além do trio, Geraldo é pai da psicóloga Mariana, 37 anos, professor de Psicologia na Universidade Federal de Uberlândia (UFU). A primogênita é fruto do primeiro casamento, com a jornalista Carmen Cagno. Morando pela primeira vez na capital gaúcha, depois de rodar o Brasil, Geraldo leva uma vida simples, mas não deixa de lado a veia jornalística. Por isso, o seu lema de vida é: "Enquanto houver luz, bola para frente".

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