Porã: vida em equilíbrio

Prestes a completar 26 anos de atuação nos rádios, o jornalista procura ter paz nas vidas pessoal e profissional

Gargalhando ao brincar que seu nome é uma identidade secreta, o dono de uma das vozes mais conhecidas pelo público pop escreveu em uma folha de papel: Iglenho Burtet Bernardes. Assim, o radialista Porã foi registrado no cartório devido a uma homenagem que a mãe, Valdecy, prestou ao único irmão homem que teve. Porém, quando entrou na rádio Ipanema, o advertiram que era preciso algo mais simples do que Iglenho para ser lembrado pelo público.

Hoje, graças aos amigos da quarta série do Colégio Israelita, é reconhecido pelo apelido que lhe deram, inspirado no livro de mesmo nome escrito por Antônio Hohlfeldt. Como tinha o cabelo parecido com o do menino índio da capa da obra, por muito tempo trocou de papel com o personagem principal: enquanto nas páginas do exemplar infantojuvenil o protagonista ressaltava para os colegas que se chamava Porã e, não, Pedro, o outro, na vida real, frisava: "Meu nome é Iglenho, não Porã!".

Nesta época, o pequeno pedia para os pais lhe presentearem com discos. O gosto pela música acabou por conquistá-lo de vez quando, aos 15 anos, gravava fitas para os colegas, além de se tornar ouvinte assíduo das rádios, principalmente, da Ipanema. O jovem admirava os locutores e imaginava como deveria ser legal trabalhar lá. Sem desgrudar os ouvidos do aparelho radiofônico, descobriu o 'Clube do Ouvinte', da extinta emissora do Grupo Bandeirantes, onde a audiência era chamada para escolher por um dia a programação musical desse programa, além de terem a chance de o apresentar. Chamado pela primeira vez, não parou mais e voltou nos anos seguintes, pois se encantou com o ambiente.

Quando chegou a hora de escolher a profissão, como quase todo adolescente dos anos 1980, queria ser músico e ter uma banda de rock. Como não concretizou o desejo, passou a pensar algo que pudesse trabalhar com música e fazer programas de rádio. Foi assim que o Jornalismo entrou na sua vida e, em 1991, ingressou na Famecos.

Nas ondas sonoras

Foi assim que o jovem Porã realizou o seu desejo: em 1992, começou a traçar sua trajetóri no rádio como estagiário de redação da rádio que tanto admirava. Após um período produzindo boletins de notícias, passou a ser locutor e, desde então, nunca mais saiu do ar. "Tem aquele filme 'Quase Famosos".  A minha história foi assim: eu era aquele guri do filme, que ficava olhando o pessoal que trabalhava lá, e pensando em como eram bons no que faziam, além de todos os artistas e bandas que eu gostava que circulavam por lá", recorda.

Porém, em 1995, quando trocou a direção da rádio e, com isso, houve uma tentativa de mudar o estilo da programação, o jornalista ignorou a ordem do superior por um dia e acabou sendo demitido no ar. Para o programa não ficar sem radialista, em seu lugar foi chamado o colega Jimie Joe, que estava atuando na redação. Em solidariedade ao colega, assim que foi chamado, informou aos ouvintes, durante a apresentação do programa, que estava deixando a Ipanema. O locutor ainda passou o número do telefone da Band para que as pessoas reclamassem.

Após a confusão, começou a integrar o time da antiga Felusp, que depois se tornou a extinta Pop Rock. Após retornar para o veículo que o lançou, ficou por mais quatro anos até receber uma proposta da Atlântida. Contudo, quando Porã aceitou o convite, mal sabia que um ano depois faria parte do que, na sua visão, foi um fenômeno radiofônico: o programa Pretinho Básico - o comparando com o movimento 'Beatlemania'.

Por 10 anos foi apresentador e participou da formação original do 'PB', como era conhecida a atração. Lá, precisou se tornar o que não era até então: o cara que conta piadas ruins. Para ele, o grande segredo era a espontaneidade e intimidade entre os integrantes. Alexandre Fetter, Cagê Lisboa, Marcos Piangers, Maurício Amaral, Éverton Cunha, o Mr. Pi, e Luciano Potter faziam parte da rotina diária de Porã: quando não estavam no ar, de segunda a sexta-feira, viajavam nos finais de semana devido aos convites para participarem de eventos. Como passavam muito tempo juntos, admite que, quando estava longe dos colegas, preferia não pensar neles e no trabalho.

Quando percebeu que era a hora de alçar novos voos, passou por um dos momentos mais difíceis da carreira: despedir-se dos colegas e ouvintes. Em especial, um momento o marcou naquele dia: durante um dos intervalos, encontrou o Potter no corredor e, naquele instante, olharam-se olho no olho, como se agradecendo pelos momentos que viveram ali: "Então demos um longo e silencioso abraço, e choramos", revelou ele ao falar que foi, talvez, uma das coisas mais bonitas que viveu durante a trajetória profissional.

Grandes desafios

Quando estava prestes a completar duas décadas de atuação no mercado, começou a enxergar uma mudança na Comunicação. Foi então que percebeu a necessidade de voltar a estudar, tanto para ter embasamento, quanto para entender este processo. Na época, ele que prestou vestibular para Economia e cursou um semestre em Antropologia, conversando com o professor da Unisinos Gustavo Borba, foi-lhe sugerido que fizesse mestrado em Design Estratégico. Apesar de não ser da área, aceitou e gostou muito desta interdisciplinaridade. "O Design abriu minha cabeça, pois tudo está conectado", avaliou, ao lembrar da aproximação com a universidade.

Paralela à apresentação do 'Pretinho Básico', passou a lecionar a cadeira de Rádio e Mídias Sociais para o curso de Jornalismo da Unisinos. Ele, que já havia dado aulas de formação para radialistas em um curso do Senac, no início dos anos 2000, confessa que não se sente um professor. "Sou alguém do mercado que leva aos alunos uma perspectiva do que os espera lá fora", comentou.  Diante do tempo que passou dentro dos campi da instituição de ensino, acabou abrindo os olhos para a Unisinos FM - o que logo lhe despertou interesse.

O desafio de transformar uma rádio educativa, havia cerca de vinte anos no ar, em um veículo notado pelo público geral, foi o que lhe fez dizer tchau para os colegas da Atlântida. Além do olá para uma nova posição de quem sempre foi operacional: gestor de programação, atuando em áreas mais administrativas e estratégicas. Hoje, com cerca de um ano na rádio Unisinos, a única coisa certa na sua rotina é a necessidade de estar no ar das 10h às 13h, de segunda a sexta-feira, além de lecionar nas quartas-feiras de noite. Foi nesta nova fase da carreira que, recentemente, recebeu o maior elogio como profissional: o guitarrista do Papas da Língua, Léo Henkin, citou no ar a importância de ter um profissional com a bagagem dele à frente da programação de conteúdo da emissora.

Na beira do mar

Completando em agosto de 2018 26 anos de carreira, as referências foram fundamentais para moldarem o comunicador. No rádio, foi o amigo Mauro Borba, que antes escutava e depois se tornou colega. No âmbito social, Porã se recorda de um professor de Antropologia, Laurício Neumann, pois o fez repensar e mudar a perspectiva de como enxergava o mundo. Porém, salienta, emocionado: "Minha maior referência de vida é minha mãe". Após perder o pai, Carlos Alberto, aos 17 anos, foi a professora de Estudos Sociais que criou sozinha ele e os irmãos Carlos, e os gêmeos Claudine e Robson - todos mais jovens. Além de gratidão à matriarca, reconhece também que ela cozinha um prato que é simples, mas que só ela faz tão bem: arroz branco, com tomate picado por cima, ovo com gema mole, com muita batata frita.

Ao lado de Valdecy e dos irmãos, e criado na beira do mar de Pinhal, onde veraneava de dezembro a março, conta que a infância foi o período mais lindo da vida. Por isso, a música alusiva à praia que veraneava, escrita por Duca Leindecker, o faz voltar ao passado. "E agora o pinhal não tem mais a gente lá", recita ele, destacando como uma das suas músicas favoritas. Quando estava em Porto Alegre, nos bairros Rio Branco e Jardim Botânico, era o futebol que o tirava de casa. Aliado a isso, destaca a grande amizade que traz deste tempo. "Tive um baita parceiro, o Alemão Alex, que foi o cara que esteve sempre comigo, desde atravessar a rua para ir ao colégio até hoje", relata.

Nesta época, foi criado no Catolicismo e, até hoje, aplica muito do que foi ensinado pela religião. Mas "como bom brasileiro", brinca, e por não se apegar a dogmas, possui muito do sincretismo em sua vida - acreditando um pouco de cada crença, mas, principalmente, nas energias do positivas e do bem.

Amor, surfe e vinil

Apesar de ser separado da mãe dos filhos, Francisco, de 10 anos, e João Pedro, de 14, ele faz questão de ser presente e possui os herdeiros como prioridade de vida. São eles que ocupam parte das horas de folga e o levam à cozinha para preparar o "carreteiro do papai". Com eles, se diverte jogando bola, com o caçula que está na escolinha de futebol, e vídeogame, além de assistir às partidas do tricolor - o mais velho fez o pai voltar a torcer pelo time. Na programação do trio, ainda consta ficar na frente da telinha assistindo a animações ou séries. A predileta é a trama de suspense 'Stranger Things', que se passa nos anos 1980, década da infância de Porã, e, ao seu ver, liga a geração dele com a dos filhos.

Outra parte crucial da rotina é viver na ponte aérea Porto Alegre X Florianópolis. Há dois anos, após conhecer Ana Paula Gerent em uma festa, algo que o fez acreditar em amor à primeira vista -, está em um relacionamento com a servidora pública que reside na capital de Santa Catarina. Apaixonado  por praia e surfe, visitar a namorada, além de matar as saudades, é ainda poder estar perto do que gosta. Lá, ainda aproveita para ir na feira de vinis, outro hobby.Tem um bazar e uma coleção de discos e está sempre comprando e garimpando relíquias.

Na música confessa ter fases, mas o que mais escuta é reggae, black music, jazz e funk soul, como James Brown, além de rock. Por outro lado, decreta: se tivesse que escolher apenas um artista, seria o jamaicano Bob Marley. Ainda tenta assistir a todos os lançamentos de séries que ganham popularidade como 'La Casa de Papel', além de adorar 'House Of Cards'. Nos anos 90, era muito vidrado em cinema, mas a rotina intensa o impede de prestigiar essas produções. Dentre os chamados blockbusters, cita 'Star Wars'. Entretando, foi 'O Coração Selvagem', dirigido por David Lynch, que assistiu várias vezes e o conquistou emocionalmente.

Em relação às práticas esportivas, gostaria de jogar futebol todas as semanas, mas os seus joelhos não permitem mais. Por isso, tem realizado treinamento funcional, prática que o conquistou. Com gosto pelos esportes, também já treinou boxe, que adora assistir também, e muay thai. A lista ainda inclui basquete, apesar de jogar menos vezes do que gostaria.

Paz de espírito

Outro desejo que não conseguiu realizar é tocar bateria - pela qual anseia desde pequeno. Também pretende passar um ano estudando ou morando fora do País, em uma espécie de ano sabático -  porém, só se concretizará quando os filhos estiverem mais velhos. "Daqui a 10 anos se Deus quiser, estarei morando na beira da praia", é o que almeja, aliado a colocar a rádio Unisinos em um patamar de relevância no mercado, bem como ter um doutorado e dar continuidade aos programas radiofônicos e às aulas lecionadas. Um dia, quem sabe, segundo ele, também sonha empreender em um lugar onde tenha música, vinil e uma rádio web com comida.

Agradecido, confessa ter mais a agradecer do que a reclamar de sua vida. Ele, que acredita ser muito generoso, avalia como seu maior defeito o fato de exigir muito dos outros nas relações pessoais - pois tenta evitar aplicar isso no profissional -, além de admitir certa necessidade de controlar a ansiedade. É por isso que, aos 46 anos, entendeu que não é só matéria: é espírito e emoção, e nada de máquina.

Desta forma, equilíbrio é a palavra-chave ultimamente, para não correr o risco do profissional não atropelar o pessoal e vice-versa. Com isto se pode viver bem, pois atualmente seu lema de vida é viver em paz. "Se algo sair deste ideal, comprometendo sua serenidade, é sinal de que é preciso mudar alguma coisa", salienta. Por isso, procura resolver tudo com amor, paz e verdade em todos os aspectos da vida.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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