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Amir Domingues: Um profissional autodidata

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Com os olhos brilhantes e apaixonados de quem encontrou um grande amor onde menos esperava, o jornalista Amir Macedo Domingues revela que começou no jornalismo por necessidade. Em uma época na qual não existia ainda a Faculdade de Comunicação Social, aprendeu com as experiências da vida a ser um comunicador, tornando-se um dos mais respeitados em sua profissão. Aos 25 anos era funcionário público, trabalhava como escrivão na Secretaria de Segurança. Casado e com um filho pequeno, precisava aumentar sua renda – e decidiu participar do concurso que a Rádio Gaúcha estava promovendo para escolher um redator e locutor de notícias. Amir já havia tido uma experiência na área aos 17 anos. Seu pai era militar e estava servindo em Cruz Alta, quando surgiu um trabalho como locutor da rede de alto-falantes da Rádio Teste. “Foi em 1945, logo depois da guerra. Muitas rádios não haviam conseguido a permissão para voltar a funcionar e a emissora possuía este serviço, no qual eu era locutor”, explica. A experiência do passado contaminou-o com a magia do rádio e o tornou um assíduo ouvinte, mas Amir nunca pensou que, anos mais tarde, fosse seguir esta carreira. Fez o teste na Gaúcha, passou e foi contratado. No mesmo período, ingressou no jornal Clarim, do PTB, no qual trabalhou até 1955 na editoria de polícia. “Eu não estava ali por razões políticas”, explica. Em 1957, Amir entrou para o que considera sua segunda casa, a Rádio Guaíba, onde hoje apresenta o programa Agora, que está no ar desde 1975.

Passou também pelas redações dos jornais A Hora, Folha da Tarde, onde trabalhou até o encerramento das atividades do veículo, em 1985, e Correio do Povo, no qual, atualmente, exerce a função de editorialista. De 80 a 85 apresentou o programa Espaço Aberto, na TV Guaíba, fazendo entrevistas memoráveis com personalidades de expressão como Tancredo Neves, Paulo Brossard e Jarbas Passarinho. O reconhecimento pelo bom trabalho veio com os diversos prêmios que recebeu durante a carreira, dentre eles, sete da Associação Riograndense de Imprensa (ARI).

“Um deles ganhei por uma entrevista radiofônica com o ex-presidente João Figueiredo, que fazia silêncio para a imprensa há dois anos, desde a sua saída da presidência”, recorda. A entrevista foi reproduzida em diversas rádios do Brasil e alguns jornais do exterior. “Foi difícil fazer com que ele aceitasse falar, mas como diz aquele velho ditado, ‘água mole em pedra dura, tanto bate até que fura’”, conta, com um olhar divertido.

O profissional dinâmico

Por mais de 30 anos, trabalhou em três locais diferentes. Nesse período, teve que ajustar seus horários para atender com profissionalismo todas as suas atribuições e, ao mesmo tempo, dar atenção à esposa Euriclea, com quem está casado há 52 anos, e ajudar na criação dos quatro filhos: Breno, Celso, Décio e Flávia. “Claro que, nesta época de muito trabalho, a família era um pouco sacrificada e minha esposa tinha trabalho redobrado. Mas foi necessário e também muito bom. Não me arrependo de nada que fiz e, se tivesse que começar tudo de novo, faria igual novamente”, afirma.

Em 50 anos de carreira, o jornalista atuou em diversas áreas da comunicação. “A única coisa que não fiz foi coluna social, mas porque não me deram oportunidade”, fala cheio de disposição. E, nestas cinco décadas, não são poucas as histórias que tem para contar de grandes coberturas jornalísticas, como a da inauguração de Brasília, da Legalidade em 1961, do seqüestro de um avião da Panair por rebeldes do Aragarça, da Copa do Mundo de 62, e das eleições americanas que levaram Jimmy Carter à Casa Branca.

Para ele, um profissional acostumado a encarar a notícia de frente, o “jornalismo aventura”, no qual se vai a campo sem saber o que encontrará, está praticamente desaparecendo por causa do desenvolvimento das tecnologias da comunicação. “Elas fazem com que os veículos de comunicação percam o interesse de mandar seus representantes para fazer a cobertura dos fatos. A Internet está aí para provar isso. Mas, ao mesmo tempo em que tira o sentido do jornalismo aventura, ela oferece a instantaneidade”, destaca, sem tirar o valor que as inovações têm.

De tudo o que fez ao longo de sua carreira, deixa claro que o rádio foi a melhor coisa que lhe aconteceu e não acredita que um dia ele possa acabar. “Quando surgiu a TV as pessoas diziam que o rádio iria morrer, e não aconteceu. Há espaço para todos os meios de comunicação. Cito um exemplo que é básico: se alguma coisa fosse acabar, o livro já teria acabado. E ele não acaba. É cada vez mais essencial para o desenvolvimento intelectual de qualquer pessoa”.

Um bom conselheiro

Com as experiências do passado e bem antenado para o futuro, se sente à vontade para aconselhar os novatos da comunicação. “Todo aquele que gostar do jornalismo, tenha chegado a ele por vocação ou não, e se empenhar a fundo, atualizando-se ao máximo e mostrando garra diante da competição acirrada que existe no meio, será vencedor. Este é o desafio que é proposto a todo jovem que opta por trabalhar na área da comunicação. O segredo do sucesso é o trabalho aliado ao talento”, ressalta, e faz um alerta: “É bom saber que não se enriquece trabalhando em jornalismo. Lamentavelmente, no Brasil, o trabalho intelectual é muito mal remunerado. Isso porque o país ainda está em desenvolvimento, mas espero que um dia isto mude”.

Hoje, aposentado do funcionalismo público, e com uma rotina muito mais tranqüila do que quando começou – apresenta o programa pela manhã, faz um comentário na Rádio Guaíba e o editorial do Correio do Povo à tarde – consegue encontrar tempo para o lazer. “Gosto de ir ao teatro assistir a um bom espetáculo ou ao cinema ver um bom filme. Não interessa se nacional ou estrangeiro, drama ou comédia, o importante é que seja bom”.

Os livros são outra paixão do jornalista e ele afirma que “o Rio Grande do Sul está muito bem representado na literatura, dentro e fora do país”. Segundo Amir, a forma como se desenvolvem as narrativas dos autores gaúchos possui um toque diferente. “Aprecio muito escritores como Érico Verissimo, Luis Fernando Verissimo, Walter Galvani, Moacyr Scliar, Assis Brasil, Alcy Cheuiche e Tabajara Ruas. Poderia citar muitos outros, tamanha a riqueza literária que o Estado possui”.

Outro hobby do jornalista é viajar e, graças à profissão, pôde conhecer belíssimos lugares. “Durante 11 anos fui comentarista esportivo e tive a oportunidade de ir a boa parte do mundo. Fui para países vizinhos do Brasil, para a América e Europa. Foi muito significativo para mim”. Visitar locais diferentes é sempre uma aventura, mas Amir elegeu apenas um como seu porto seguro e, sempre que pode, dá um pulinho lá. “Quando quero descansar vou para Florianópolis, em Santa Catarina”. A companhia da família é fundamental para tornar o passeio ainda mais atrativo. “Até mesmo quando estou em casa, sempre procuro reunir o maior número de descendentes possíveis”, diz, sorrindo feliz.

A vida começa agora

Descansar é bom, mas só de vez em quando: cheio de bom humor e com muita disposição, aos 75 anos Amir nem pensa em parar. Recorda com carinho do jovem que ingressou no jornalismo por todos os motivos possíveis menos por vocação, mas que se adaptou tão rápido à profissão que parecia ter nascido para aquele ofício.

“Eu sei que um dia terei de parar, mas não penso nisto ainda. Claro que não quero ficar arrastando os pés por uma redação de jornal. No momento em que achar que isto vai acontecer ou que a memória vai falhar, eu desisto. Isto se não desistirem de mim antes disso”, brinca. Amir encontra motivação no próprio trabalho e no carinho de seus ouvintes para ser o que é. Ele acredita no jornalismo e ainda se emociona com a possibilidade que a profissão lhe oferece de acompanhar o fato no momento em que está acontecendo, vivendo-o e fazendo parte, ‘de uma certa forma’, da História.

Cinco décadas de jornalismo deram muito mais do que sucesso, realizações e prêmios. O jornalista conquistou muitos amigos, e isso para ele é um tesouro precioso. Planos e projetos, ele não faz. “O futuro somente a Deus pertence”, parafraseia com um sorriso curioso e cheio de fé de que este ‘futuro’ seja tão surpreendente do que como foi 50 anos atrás.