José Barrionuevo: Histórias de política

Sua vida poderia ter sido muito diferente se, aos 16 anos, José Barrionuevo não tivesse desistido de ser padre e voltado de São Paulo, …

Sua vida poderia ter sido muito diferente se, aos 16 anos, José Barrionuevo não tivesse desistido de ser padre e voltado de São Paulo, em Agudos, onde cursava o seminário de preparação desde os nove anos de idade. Desistiu, para abraçar o sonho de tornar-se um jornalista, desejo que nasceu ainda na cidade paulista: a inquietude da adolescência fez com que o menino de 13 anos criasse o Jornal Pioneiro, com reportagens, ensaios e crônicas. O interesse pela política também surgiu entre as paredes do seminário e, segundo ele, em partes pelo tipo de aprendizado que lhe era oferecido. "Tínhamos aula de retórica, oratória e atividades de representação. Éramos obrigados a fazer discurso, além de participar da banda e da orquestra, nas quais eu tocava bombardino e flauta doce. O ensino era muito bom e eu gostava muito. Hoje em dia, não se vê mais isso", destaca com saudosismo. Ser padre era mais uma exigência da família, que era muito religiosa, do que uma vocação. E ele percebeu a tempo. Voltou para sua cidade natal, Erechim, a fim de concluir o segundo grau e, simultaneamente, começou a trabalhar como colaborador do Jornal A Voz da Serra e da Rádio Erechim. Com 18 anos, decidiu vir para Porto Alegre, prestou vestibular na PUC e ingressou no curso de Jornalismo e também no Centro de Preparação de Oficiais da Reserva - CPOR. "Tive que vencer uma série de desafios que uma pessoa da capital não tem. Tive que vencer aqui, pois era um completo desconhecido querendo entrar no jornalismo". E o jovem estudante conseguiu ultrapassar as barreiras que foram aparecendo ao longo do seu percurso. Teve que trancar a faculdade de Jornalismo porque decidiu prolongar o estágio no quartel por quatro anos. Foi em Santa Cruz do Sul, onde começou a cursar Letras, mas não se formou. Voltou e retomou as atividades, ingressando em fevereiro de 74 na Folha da tarde. "Toda a vez que eu pensava em deixar o Jornalismo para atuar em outra área, surgia uma nova proposta", recorda. Assim, Barrionuevo passou também pelo Correio do Povo, Rádio Guaíba, TV Guaíba, na qual apresentou os programas Távola Redonda e Espaço Aberto, e foi supervisor de imprensa da Assembléia Legislativa. Foi um dos fundadores da Rádio Pampa de Jornalismo, com Luis Figueredo, Rogério Mendelski e Adroaldo Streck, e participou de uma experiência rápida no jornal Estado do Rio Grande, diário que circulou apenas um mês, no começo dos anos 80. "Foi mal planejado. Com certeza, se tivesse dado certo, o Correio do Povo não teria retornado, pois o jornal ocuparia aquele espaço". Barrionuevo também trabalhou na TVE, apresentando o programa Questão de Ordem, no qual levou alguns chutes de Paulo Maluf. "Combinei com ele que o programa duraria um tempo, e como vi que estava rendendo, continuei. Ele estava num momento difícil e sob fogo cruzado e começou a me cutucar por baixo da mesa para eu terminar o programa. No outro dia saiu nos jornais: Maluf chuta jornalista para encerrar programa", conta com uma gargalhada. No currículo do jornalista também tem a criação da revista de política nacional Parlamento ou, como gosta de brincar, Pra lamento. "Meu caro amigo Marcelo Rech é quem usa esta expressão. A revista era ótima e de boa qualidade. Ela fracassou quando deveria ter tido sua base deslocada para Brasília", explica. Em janeiro de 1993, Barrionuevo deixou o Correio do Povo para ingressar na Zero Hora, onde assumiu o cargo de coordenador das editorias de Política do Grupo RBS. "Não funcionou na prática como imaginávamos. Eu entendi isso e fui recuando, pois com a responsabilidade da coluna política era impossível oferecer uma dedicação maior ao rádio e a televisão, na qual sempre tive uma participação discreta". Barrionuevo também participou da implantação do Jornal Pioneiro, em Caxias do Sul, quando a RBS adquiriu o veículo. "Fiz 168 viagens para lá. Ia às 6h e voltava às 12h30min, de segunda a quinta-feira. Na quarta, sempre levava alguém da Zero Hora para palestrar. O jornal estava dando prejuízo e tínhamos que sintetizá-lo e reduzi-lo. Nos primeiros dias, não era raro as pessoas ligarem para dizer que faltava uma parte do jornal". Não são poucas as histórias que tem para contar destas três décadas de jornalismo político. Dentre elas estão diversas coberturas internacionais e de eleições, a realização do primeiro boletim ao vivo de repórter na Rádio Guaíba e do memorável debate entre Simon e Brizola, em 1980, no programa Espaço Aberto, da TV Guaíba. "Naquela época era proibido fazer debates políticos. E eu fiz. O momento era tenso e pairava no ar a pergunta ?quem traiu quem?, pois os dois haviam feito um acordo em Nova York", conta. Muitos jornais exibiram no dia seguinte a foto do momento em que Brizola virou-se de costas para Simon, momento que efetivamente marca a ruptura no MDB: "Surgia ali, primeiramente, o PTB, que depois virou PDT. Simon, habilmente, preservou o MDB com ele e a liderança. Seguramente, se tivesse ficado com Brizola, já teria sido expulso do partido, como tantos outros de valor". O eterno repórter Nem editor, nem colunista. Durante sua carreira, Barrionuevo se considerou "apenas um jornalista apaixonado. Ninguém foi mais repórter do que eu, podem ter sido mais brilhantes, mais inteligentes, mas ninguém viveu tão intensamente 30 anos de reportagem como eu. Trabalhei como poucos no jornalismo, com muita paixão, intensidade e dedicação. Posso afirmar que, todos os dias, os últimos telefonemas da redação da Zero Hora eram os meus". O amor pelo jornalismo não interferiu na vontade de encerrar um ciclo. Depois de 30 anos atuando no jornalismo político, decidiu pendurar as ?chuteiras? como colunista e partir para outra: ser consultor de imagem. Como em todos os empreendimentos que encarou na vida, não teve medo de deixar a segurança e a estabilidade da Zero Hora para começar tudo novamente, mas com uma grande diferença em relação ao passado, quando veio de Erechim para Porto Alegre: uma bagagem de conhecimentos bem mais cheia. "Sempre fiz um jornalismo polêmico, forte e isso significa um desgaste natural. Mesmo que eu tenha construído uma armadura, uma casca grossa, havia o lado emocional". Para ele, fazer política sem conflitos e sem polêmicas é impossível. "Alguns políticos não compreendem que essa é a nossa missão, por isso, devem pensar duas vezes antes de entrar na função pública. Eles têm que ter discernimento para entender que não fazemos relações públicas. Quem faz colunismo político e recebe aplausos generalizados é relações públicas e não jornalista. Quando a relação com o poder público vai muito bem, é o leitor que vai mal". A experiência adquirida durante a carreira o deixa a vontade para aconselhar os interessados a ingressar na área de política no jornalismo. A leitura de bons autores políticos, segundo ele, é fundamental; andar sempre com bloco e caneta, para ir construindo uma agenda com fontes; ser humilde; preservar a dignidade; não se comprometer com partidos; preparar-se não só com o curso de comunicação social, mas, se possível, ciências políticas ou Direito, e ter postura ética e coragem para enfrentar os riscos, são requisitos para um bom profissional, segundo a cartilha de Barrionuevo. "Todos os dias sua cabeça está na guilhotina. Se você ficar muito aquém, será taxado de covarde; se passar o limite, será considerado um suicida. Tem que avançar sempre o máximo possível". Barrionuevo já teve que responder processos por expor sua opinião: só durante o governo de Olívio Dutra foram 12, dos 18 que tem registrados. Ele afirma que 90% deles tinham a clara intenção de amordaçá-lo. "O homem público deve entender que o mandato popular não é um emprego e que está sujeito a críticas. A defesa do interesse público não pode ser condenada. Quando errei, nunca me neguei a corrigir, mas nunca mudei minha opinião. Afinal, trabalhei tantos anos para ser um colunista e poder expressar o que penso. Mas não guardo mágoa ou raiva de ninguém. Raiva, na minha idade, só combinada ou fingida". Carpe Diem Aos 56 anos, ele quer aprender a viver num ritmo mais tranqüilo, sem estresse. Casado pela segunda vez com a mestre em Literatura Bernardete Flores Bestrani, tenta agora recuperar o tempo que dedicou à profissão fazendo "coisas gostosas", como viajar para Búzios, no Rio de Janeiro, curtir a companhia dos filhos Diego, 26 anos, e Aline, 24, e dedicar-se à leitura de livros - no momento, os que têm a ver com imagem. "Não pude acompanhar o crescimento de meus filhos como gostaria. Mas o que importa é a intensidade de uma relação e a nossa é muito intensa. Sempre que pude, levei um deles para viajar comigo quando eram pequenos. Queria tê-los por perto". Muito envolvido com a política, quase não circulava, e quando era convidado para um jantar, chegava na hora da sobremesa - e o cinema, que aprecia muito, era cancelado com freqüência. A esperança agora é conseguir aproveitar mais, começando por conhecer melhor o que Porto Alegre tem a oferecer. "Os críticos respiraram aliviados quando deixei o jornalismo. Eles ficavam arrepiados quando descobriam que minha mãe tem 101 anos. Tenho uma saúde ótima e faço ginástica quatro vezes por semana com um personal trainer. Gosto de me cuidar e, no final de semana, a caminhada é obrigatória". Outras paixões do consultor de imagem são a natureza e os animais: contabilize-se aí quatro gatos e dois cachorros, um mini-galgo italiano e um yorkshire. Ir para a cozinha também é um prazer: "Antes não tinha tempo, mas agora posso cozinhar. Adoro peixes de todos os tipos e faço uma deliciosa galinha com vinho, ou coque au vin, e também uma paella". E ele ainda revela que encontra tempo para cuidar de uma horta suspensa que tem em seu apartamento. "Planto temperos de todos os tipos, da hortelã ao manjericão, e também tenho alguns pés de tomates". Mas, a vida de Barrionuevo agora não é só sombra e água fresca. Ele já começou a atuar na área de consultoria de imagem para uma multinacional e já tem outros projetos em vista, como a participação em uma eleição na capital gaúcha e duas fora do Estado. "Depois de todo este tempo fazendo jornalismo político, vi gente se elegendo, gente sendo derrotada, gente que eu não imaginava se elegendo, gente que eu imaginava se eleger perdendo. Foi um permanente exercício durante mais de duas dezenas de eleições". O jornalista acompanhou de perto a primeira derrota de Germano Rigotto para Pepe Vargas, pela prefeitura de Caxias do Sul, em 1995, e tira do episódio o que considera ser uma lição. "Não existe derrota em política. A derrota bem construída, com idéias e sabedoria, te promove. A derrota do Rigotto foi decisiva para a vitória no governo. Se tu tens capacidade e humildade de aprender com a derrota - e aqui já fala o marqueteiro Barrionuevo - constrói uma imagem sólida", afirma, e completa: "Nestas eleições vencerá quem tiver atitude". Agora na pele de consultor de imagem, ele acredita que os conhecimentos que adquiriu e as experiências o ajudarão no trabalho que está empreendendo. "Vou trabalhar mais com a imaginação e não com fatos. Não concorrerei com publicitários. Trinta anos de política me deram um conhecimento diferenciado em relação ao deles". Para 2004, Barrionuevo tem muitos planos, como escrever um livro sobre os 30 anos de profissão, continuar palestrando em cursos de formação de liderança, fazer um vídeo e uma cartilha para candidatos às eleições municipais, auxiliar na implantação de um curso de autos estudos na Assembléia Legislativa e cursar ciências políticas. "Não tenho pressa. Se não conseguir realizar todos os meus objetivos este ano, realizo em 2005", diz, com a expressão tranqüila de quem está começando uma nova fase. Mas, não são só metas que quer alcançar, existe um desejo que acredita ver realizado este ano: ver a Assembléia Legislativa retomar a posse da Casa Rosa, que era sua antiga sede. "Batalhei muito por isso e consegui convencer o Antônio Brito, Jones Vargas e Antônio Maciel a cederem o antigo prédio para o novo e tenho certeza que o deputado Vieira da Cunha, que será o novo presidente da Assembléia, vai abraçar esta idéia. Será importante, pois vai pesar sobre os deputados a responsabilidade histórica dos grandes homens públicos do Rio Grande do Sul que sentaram naquelas cadeiras. Quando eles se sentarem na cadeira que Getúlio Vargas ocupou, não mandarão mais projetos institucionais demagógicos". Barrio, como é chamado pelos amigos, acredita que a política é a arte de governar os povos, e que as soluções se darão através dela, mas desabafa: "Cansei de mediocridade". O novo campo que escolheu para atuar, segundo ele, é fértil, e nele não será necessário matar três leões por dia. Por isso, considera esta fase como uma doce descoberta. "Não sabia que este momento me traria tanta satisfação e realização. No entanto, amei cada dia que vivi antes disso. Se existisse a possibilidade de programar a minha vida, queria que ela fosse exatamente igual. Não me arrependo de nada que fiz. Hoje, não existe a possibilidade de eu voltar para o Jornalismo, mas, em minha essência, serei sempre um jornalista".

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