Flávio Alcaraz Gomes: Guerrilheiro desde o berço

Às vésperas de completar 78 anos, continua atento e ativo em seus espaços na mídia gaúcha

 Ele vem de uma família fortemente ligada ao Jornalismo gaúcho, pois tem ascendentes nas origens da Empresa Jornalística Caldas Júnior. Isso porque a irmã de seu avô era casada com o dono da companhia. Com a morte de Caldas Júnior, a viúva Dolores Alcaraz Gomes herdou a empresa, que estava numa situação muito difícil. Foi quando o "velho Alcaraz" - como Flávio se refere ao avô Joaquim - resolveu ajudar a irmã viúva. Alcaraz era mecânico e proprietário de um importante estaleiro, próximo ao jornal, que levava o sobrenome da família. "Ele também trabalhava no Correio do Povo, era o encarregado das oficinas e comprou uma Marinoni, a mais moderna rotativa de 1927", fala Flávio. Impressiona ver como ele conta com riqueza de detalhes uma história que data exatamente do ano de seu nascimento.
"Meu avô transformou o jornal, que era um órgão literário, numa indústria. Assim começou o sucesso do Correio do Povo", orgulha-se. Seu pai também foi, a partir de 1937, da direção da companhia, tendo atuado como chefe de publicidade, na Folha da Tarde, e diretor de circulação, no Correio do Povo. Não é à toa que, aos 15 anos, Flávio já soubesse exatamente a carreira que queria seguir. "Desde menino, eu freqüentava a redação, admirava os repórteres e esperava a saída da Folha, às 16h. Nesse horário, já tinha gente esperando o jornal. Formava fila", lembra.
Mesmo com a certeza de que seu futuro era o Jornalismo, Flávio cursou a faculdade de Direito, logo que terminou o colégio. "Naquela época, o filho da família pequeno-burguesa tinha que ser advogado, médico ou engenheiro. Eu me formei advogado, meu irmão, engenheiro e minha irmã, professora", explica. Ele tentou atuar na profissão: "Trabalhei com Heitor Pires, um grande advogado daqui, mas vi que as causas se arrastavam por dois, três anos, ao passo que as reportagens que eu escrevia tinham uma resposta instantânea".
Um dia encaixa
Sim, apesar de ter feito Direito, Flávio continuava freqüentando a redação dos jornais e escrevendo, esporadicamente, matérias. Foi logo que entrou na faculdade que sua primeira reportagem foi publicada, em 1944, pelo Correio do Povo: "Gaúchos que desprezam a morte e amam a glória". Contava a história dos 1.200 voluntários das revoluções do Rio Grande do Sul, que constituíam um batalhão suicida. Ele também foi revisor da Folha. "Quando faltava um revisor, pegava o bonde Gasômetro, ali no Bom Fim, e vinha para a atividade. Isso se chamava carancho. Mas dava para garantir uns oito mil réis", recorda.
Flávio diz que só passou a se dedicar integralmente ao Jornalismo depois de muita insistência: "Eu tentava, tentava, mas não me aceitavam. Até que um dia, eu encaixei", brinca. A verdade é que seus textos sempre foram muito bem recebidos na redação dos jornais. Ele conheceu a Europa durante o curso de Direito, quando realizou uma excursão com os colegas; depois, já formado, voltou ao Velho Continente para estudar, no início da década de 1950. Suas viagens - de navio -rendiam reportagens, umas três por semana, sempre publicadas com grande destaque por Folha da Tarde e Correio do Povo.
"Enquanto os meus amigos iam conhecer a noite, eu ficava no quarto do hotel, escrevendo minhas impressões. Naquela época, ir para a Europa era uma façanha. Havia uma enorme curiosidade, ainda mais porque a guerra tinha recém-terminado. Foi aí que eu me projetei no Jornalismo", esclarece.
  Problemas com o delegado
De volta ao Brasil, já era repórter da Folha da Tarde. Assumiu a editoria de Polícia após o afastamento de Cândido Norberto. Este havia publicado uma matéria sobre a prisão de um carroceiro, efetuada pelo próprio delegado, que estava se atrasando devido à confusão que a carroça causava no trânsito. Em represália, o delegado o proibiu de entrar na Repartição Central de Polícia. Para Flávio, o trabalho era facilitado, pois ele era oficial de gabinete do chefe da central. Há cerca de três anos, o jornalista lançou a obra ?Diários de um repórter?, seu terceiro livro, no qual conta essa história.
Foi, então, a sua vez de ter problemas com o delegado, que o processou por danos morais: "O delegado queria que eu lhe pagasse uns 200 mil reais, mas, obviamente, eu fui absolvido".
Mais tarde, nos anos 80, cumpriria um período na prisão, pela morte de uma jovem que estacionara um carro na frente de sua casa. Libertado, voltou a atuar em veículos de comunicação, a começar pela Rádio Gaúcha, do Grupo RBS. Ele não fala sobre este assunto.
Rádio e TV
Em 1952, o repórter se casou com Maria Clara ("Que é minha esposa até hoje!", faz questão de frisar), com quem teve dois filhos: Laura, que também é jornalista e hoje trabalha com o pai na TV2 Guaíba, e o juiz federal Alcides. Cinco anos depois, foi fundada a Rádio Guaíba e Flávio assumiu a direção comercial da emissora. Nessa época, ele já articulava a criação da Agert (Associação Gaúcha das Emissoras de Rádio e TV), junto com outros jornalistas e empresários, o que se concretizou em 1962, e estava cursando a faculdade de Jornalismo, na PUCRS, concluída em 63. Para a Copa do Mundo de Futebol de 1958, realizada na Suécia, Flávio contatou seus conhecidos na Suíça e conseguiu um circuito exclusivo para o Rio Grande do Sul, para a transmissão de rádio. Flávio acompanhou o evento e assegura que ele representou "a consagração da Guaíba".
Outras coberturas importantes realizadas pelo jornalista foram a Guerra do Vietnã e a construção da Transamazônica, entre outras. A Rádio Guaíba também rende histórias engraçadas. Uma delas virou lenda no Jornalismo gaúcho. Por volta de 1965, a emissora recebeu a informação de que dom Vicente Scherer teria morrido. A notícia foi dada em edição extra do Correspondente Renner, mas descobriu-se depois que se tratava de um trote e o cardeal estava, na verdade, muito bem de saúde.
Depois da "barriga", a rádio recebeu inúmeras ligações falsas de pessoas que se diziam ser o próprio cardeal. Flávio atendeu um telefonema em que o interlocutor pedia para que ninguém fosse demitido pelo erro. Indignado com a brincadeira, o jornalista respondeu "Vá à merda!" e desligou o aparelho. Porém, daquela vez era realmente o dom Vicente ao telefone? No final da década de 1970, foi fundada a TV2 Guaíba, um canal independente, com programação própria local. Flávio comanda hoje dois programas na emissora: Guerrilheiros da Notícia, de segundas a sextas-feiras, das 19h às 20h15min, e Fórum, domingos, às 19h.
"Continuo trabalhando, mais do que quando tinha 20 anos de idade", se gaba o jornalista, que completará 78 anos em 25 de maio. "Chego às 7h, saio para almoçar e faço a minha sesta, como um bom descendente de espanhol, vou para a TV, volto para casa e vou cozinhar. Só o básico, mas é suficiente para limpar a cabeça", conta Flávio, que, além de "preparar uma comidinha" também gosta muito de ler. O jornalista também assina uma coluna diária no Correio do Povo e um programa na Rádio Guaíba, o Flávio Alcaraz Gomes Repórter, com três edições, entre 7h30min e 10h. Apesar de sua forte ligação com a Caldas Júnior, ele afirma que prefere não fazer parte das decisões da empresa: "Apenas faço o meu serviço".
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