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Joabel Pereira: O rádio na veia

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São 40 anos de experiência. Depois de passar por rádio, TV, jornal e assessorias de comunicação, o bom filho está de volta à velha casa para fazer o que mais gosta, sua verdadeira paixão: atuar em rádio. Desde o início de 2006, ele está de volta à Rádio Guaíba, onde apresenta o programa Agora, transmitido de segunda a sexta-feira, das 9h10 às 11h. “Voltar pra Guaíba depois de tantos anos, eu já não imaginava. Foi um momento fantástico da minha vida”, descreve, satisfeito com a surpresa que o destino lhe preparou. Profissional realizado, ele chama a atenção dos menos experientes: “Sem paixão, não tem jornalismo”.


Joabel José Pereira nasceu no interior de Lagoa Vermelha, hoje Sananduva, em 10 de janeiro de 1949. Alfabetizou-se aos cinco anos lendo o Correio do Povo. A mãe, professora, sempre incentivou a leitura. “Eu lia muito quando pequeno”, faz questão de registrar. O primeiro contato com o rádio foi na época de estudante, quando apresentava todos os domingos pela manhã o programa ‘A Voz do Estudante’, na Rádio Cacique, em Lagoa Vermelha. “Naquela época havia as aulas de leitura, então aplicavam na gente os testes de leitura. O menino que lia melhor apresentava o programa”, lembra Joabel. Ele estava na quarta série do ginásio, e foi assim que em 1963 começava a trilhar seu futuro profissional.


De tudo um pouco


A primeira experiência profissional de verdade foi em 1967, na Rádio Medianeira, em Santa Maria, cidade para onde se mudou para estudar Agronomia. Joabel demonstra orgulho ao contar que começou, aos 19 anos, fazendo esporte amador, e descreve a emissora como “fantástica” para a época. Conta que era comparada à Rádio Guaíba por seguir o estilo ‘clean’, sem jingles e spots, com locução dupla. E por isso era chamada de “A Guaibinha de Santa Maria”. Lá, Joabel trabalhava das 6h às 7h30 e das 19h30 à meia-noite. Durante o dia, jura, estudava.


Depois da Rádio Medianeira – para abreviar os detalhes, que não são poucos –, ele passou por todas as emissoras de Santa Maria: Rádio Guarathan, Rádio Imembuí e Rádio Santa Mariense. Recebia muitas e variadas propostas de emprego e foi acumulando funções. Até que numa determinada época, entre 1974 e 1976, trabalhava simultaneamente em cinco lugares: na Rádio Guarathan, no jornal A Razão, numa agência de propaganda e ainda fazia o serviço de relações-públicas em uma empresa de Santa Maria e era correspondente de esporte da Central do Interior para a Caldas Junior e seus jornais, Correio do Povo, Folha da Tarde e Folha da Manhã.


“No Interior, é assim: começam a te dar oportunidade e você vai abraçando e fazendo”, relembra com satisfação. Foi então que, em função da dificuldade de conciliar os horários da faculdade com o trabalho, Joabel parou de estudar – já que a agronomia não era mesmo o seu forte – e mergulhou no trabalho. É jornalista da época em que não era necessário o diploma para a obtenção do registro. “Sou jornalista dos antigos ainda”, explica Joabel. Quem exerceu a profissão até 1979 teve direito ao registro sem precisar apresentar diplomar de curso superior.


Ida e volta


Foi em 1978 que surgiu o convite para trabalhar como editor de Interior da Folha da Tarde. Joabel, que já era casado, veio então para Porto Alegre, deixando a esposa, grávida do primeiro filho, em Santa Maria. Ele ainda conquistou uma vaga para fazer o esporte para a edição de domingo do Correio do Povo, mas a passagem pela Capital durou apenas alguns meses. Não resistiu à distância e à exigência de ir todo santo final de semana visitar a família. Voltou para o Interior, para trabalhar em uma rádio de Restinga Seca e acompanhar os primeiros passos da pequena Karen. “Estava aqui, na cidade grande, e daí eu pensei: quer saber de uma coisa? ‘Tô’ com filho nascendo, filho pequeno… voltei. Dei uma de bugre mesmo. Desisti e voltei”, diz Joabel, divertindo-se com suas próprias histórias de interiorano.


O que não podia esperar era que a experiência em Restinga Seca seria mais rápida ainda. Durou pouco mais de uma semana, pois foi convidado para trabalhar no esporte da Rádio Guaíba, tudo o que mais queria. “Era uma equipe fantástica. Era um padrão de qualidade e de profissionalismo que se refletia na audiência. Uma loucura!”, define o profissional. “Daí eu pensei: é muita oportunidade, eu não posso perder”, refletiu. Resultado: retornou a Porto Alegre em maio de 1979, e desta vez  veio decidido a ficar, tanto que trouxe junto a família.


Em 1982, ele foi convidado pelo presidente da TVE, na época o Jorge Furtado (pai do cineasta), para fazer um novo programa de noticiário esportivo. “Desde aquela época, portanto, se fala em ampliar a TVE”, lembra Joabel, com um certo ar de ceticismo. Acumulava funções na Rádio Guaíba, no Correio do Povo e na TVE, até que em 1984, a Caldas Junior, que já estava em crise havia algum tempo, fechou as portas. “Pouco antes disso acontecer, com as dificuldades se acumulando, nossa equipe da Guaíba começou a tratar uma saída pra Pampa. Então, fomos todos pra lá. Era praticamente toda a Guaíba: o Adroaldo Streck, o Rogério Mendelski, o Barrionuevo, a Tânia Carvalho, o Lauro Hagemann, o Luiz Figueredo, o Rubinho…”, enumera os antigos colegas e amigos de trabalho.


O recomeço


Nesse período, Joabel trabalhava, simultaneamente, na TVE e na Pampa. Até que em 1987 a equipe da rádio se desfez. Então Joabel, que havia sido cedido da TVE para o Palácio Piratini, teve que se virar. Lá, ele exercia também a função de mestre de cerimônia, atividade que lhe garantiu o sustento por um bom tempo e que faz até hoje. Começou a atuar com assessoria de imprensa para políticos, empresários, entidades. “Aprendi uma coisa que me ajudou muito tempo também, que foi fazer discurso. Eu sempre gostei muito da matéria eleitoral”, comenta Joabel. Até que em 1994 foi convidado pra fazer assessoria de comunicação no Tribunal Regional Eleitoral (TRE) por um período de três meses.


Quando começou o governo Britto, em janeiro de 1995, Joabel, ainda cedido para o Palácio, teve de retornar para a TVE como editor de esporte amador. “Eu pensei: se estão achando que eu vou me sentir diminuído, incapacitado, não. Vou fazer o que eu sempre fiz, o melhor que eu puder fazer”, afirmou com convicção o jornalista. “Não demorou muito e o TRE pediu a minha cedência. Então, eu tenho aí um outro começo”, relembra. Naquele ano, a instituição criou a função de assessor de comunicação social e ele foi o primeiro assessor de comunicação de TRE. Nessa época, o governador Antonio Britto criou o Plano de Demissão Voluntária, e Joabel aproveitou a oportunidade para deixar a TVE, passando a ser efetivo no TRE.


Depois, entre 2001 e 2005, atuou no Tribunal de Justiça (TJ), a convite do então presidente eleito, José Eugênio Tedesco, com quem tinha trabalhado no TRE. “Ele mexia comigo e sempre dizia: ‘O dia em que eu for pro TJ, vou te levar’”. Quando soube da oportunidade, chegou a ficar em dúvida, pois no TRE tinha uma certa estabilidade. “Mas como eu gosto de ‘comprar bronca’ e enfrentar novos desafios, resolvi aceitar a proposta.” Assumiu a função de chefe do setor de Comunicação Social do TJ. No período em que exerceu esta função, o jornalista orgulha-se de ressaltar que conquistou muitas batalhas. “Eu gosto de lembrar que conseguimos fazer lá uma assessoria que trabalhava”, destaca. Implantou um boletim mensal, produziu programas de televisão e conseguiu fazer com que a capa do Diário da Justiça, que era usada eventualmente, passasse a ser aproveitada com material editorial em todas as edições.


Joabel faz questão de destacar que, quando deixou o TJ, a instituição tinha três programas de meia hora cada: um em TV aberta, na TV Guaíba; um de segunda a sábado, das 23h às 23h30, na TV Assembléia; e um terceiro, semanal, na TV Justiça, que era transmitido para todo o Brasil. Era o apresentador de todos os telejornais. Simultaneamente a tudo isso, o setor de Comunicação Social também produzia audiovisuais pra todo o Brasil.


A grande paixão


Durante um bom tempo, relata que vinha recebendo tentadoras propostas da Rádio Guaíba. Foi em 2006, quando souberam de sua saída do TJ, que finalmente recebeu e aceitou o convite para voltar a fazer o que gostava: rádio. “Na verdade, eu estava fora do rádio desde noventa e tantos. E daí voltei pra Rádio Guaíba, pra fazer este programa que eu estou fazendo até hoje, que é o Agora.” Mas ele não parou por aí. Ainda trabalha, junto com o amigo e colega de profissão José Barrionuevo, na ‘Barrionuevo – Gestão de Imagem’, empresa de consultoria e administração de crises. “E foi fácil me acertar com o Barrionuevo, porque ele é tão detalhista quanto eu”, brinca Joabel. Ele chega na rádio às 7h30 e fica até o final do programa. Depois de almoçar, vai para a Barrionuevo. Nos tempos livres, ainda faz os trabalhos de mestre de cerimônia.


Com espírito jovial mesmo aos 58 anos, Joabel encara a rotina da profissão como se cada dia fosse único. “Todo dia tu tem uma situação nova: começar e terminar um programa sempre é uma situação diferente. Se foi um mau programa, tu não tem mais como recuperar… E se foi um bom programa ele acabou, não fica nada…”, reflete. E garante que ainda dá aquele “friozinho na barriga”, o que não pode ser diferente. “Esse sentimento é uma coisa permanente. E eu não sei se alguém não tem isso, eu imagino que todos os jornalistas tenham…”. Joabel entende que quem não tem este sentimento é o jornalista burocrata, o ‘profissional’ não-comprometido com a informação. “O negócio dele não é produzir alguma coisa de qualidade e, sim, preencher o espaço do jornal, da rádio… Qualquer jornalista mediano é um cara que é apaixonado”, afirma.


Mesmo aposentado, Joabel garante com convicção que vai continuar trabalhando enquanto tiver forças. E ele não se imagina em outra profissão: “Eu não sei como que a gente começa, mas sei que se eu tivesse que recomeçar 10 vezes, eu recomeçaria as 10 vezes igual, só daí já não repetindo os erros que cometi no início…”, enfatiza. “E eu tenho coisas que realizam a minha vida fantasticamente. E eu só tenho a agradecer: tenho filhos que estão bem, minha vida é tranqüila, não tenho nenhum tipo de dificuldade, seja de relacionamento, seja de sustento. Eu tenho uma boa vida”, garante Joabel. Aquela velha paixão é tanta que daqui a alguns anos ele se vê ainda fazendo rádio. “Mas eu também espero muito a mudança”, declara, ao comentar a expectativa de que o Grupo Record invista em melhorias para a Rádio Guaíba, especialmente com o ingresso da era digital neste meio eletrônico. E faz um desabafo: “Ao contrário do que muitos pensam, eu acho que a Rádio Guaíba tem muito pra ser mexida e melhorada. Este é o desafio da equipe: recuperar o estilo Guaíba, que foi uma marca de jornalismo, foi uma marca de rádio, uma marca de comportamento. Recuperar a credibilidade”.


Um cara-família


Joabel casou muito jovem. Do primeiro casamento, teve três filhos: Karen, 33, é dentista; Clarissa, 27, é fonoaudióloga; e Guilherme, 23, é fisioterapeuta. Há seis anos, ele é casado com a jornalista Fabiane Rieger, que trabalha na Procuradoria do Estado. Nas horas de lazer, gosta de ir ao cinema, fazer um passeio no Brique da Redenção aos domingos, “dar duma fugidinha aqui por perto”. “Meus dias de descanso são de descanso mesmo”, afirma convicto. “Sou um cara ‘meio doente’ com o trabalho. Por isso, os passeios que faço têm que ser pra bem longe, de maneira que eu não tenha acesso aos noticiários locais e assim possa me desligar totalmente. Não adianta, é da minha formação, eu não consigo ficar sem acompanhar…”, confessa.


Um dos hobbys do jornalista é estar na frente de uma churrasqueira, rodando espeto. “Eu gosto de fazer churrasco, de assar churrasco”, conta, agora agitado, entusiasmado, para logo acrescentar que não tem manias. É mais uma brincadeira, na verdade: “As que eu tenho, eu nego. E para as que identificam em mim, eu arrumo uma desculpa. Então, eu não tenho manias”. Sério, diz que acha que um dos seus defeitos é ser perfeccionista e intolerante com a falta de iniciativa das pessoas. “Eu não tolero que as pessoas não tenham disposição, fiquem vendo as coisas e não se mexam. Eu tenho um mantra: quem quer fazer acha um jeito; quem não quer fazer, arruma um defeito”.


Sua qualidade é a franqueza. O que rende mais um desabafo: “Se eu posso dizer que eu tenho uma qualidade é a franqueza. Eu já perdi muitas relações, perdi oportunidades profissionais e não estou arrependido nem um pouco. Agora que eu cheguei a uma fase da vida que eu posso, pelo menos, não lamentar coisas que não fiz ou que perdi. Se eu gostar de uma coisa, eu digo que gosto. Aliás, não precisa nem eu dizer: olha pra mim e já vai saber se eu ‘tô’ gostando, se eu não ‘tô’ gostando, pois eu não consigo lidar com a falsidade. A falsidade pra mim é uma coisa terrível e eu sei que eu não consigo ser falso”.


“Todos nós estamos sempre enfrentando desafios”, acrescenta o jornalista. Por isso, aos mais jovens na profissão, recomenda: “Não acredite no que está vendo. Se tu és um bom profissional, sempre vai ter uma oportunidade, sempre vai ter uma chance. Nunca tu vais ter dificuldade. Se fecha uma porta, abre outra… normalmente, abre porta, abre porta e abre porta”, garante Joabel. “Mas tem que ter interesse”, complementa. E também dá um alerta: “E se não for doente por notícia, está na profissão errada”.

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