Cezar Freitas: O engenheiro de ideias

O jornalista, que lida com facilidade com números e estatísticas, contabiliza 27 anos na Comunicação, sendo 23 deles no Jornalismo

Cezar de Augusto Almeida Freitas poderia ter seguido a carreira de engenheiro mecânico e dedicado parte de sua vida aos números, cálculos e estatísticas. Destinou dois anos de estudos ao campo - para a qual o nome alongado até seria vantajoso -, mas a área carecia de gente, de calor humano? Foi por este motivo - aliado a uma coincidência do destino - que ele foi parar na Comunicação Social.  Há quase três décadas, Cezar uniu o útil ao agradável e, hoje, o jornalista é uma espécie de engenheiro de ideias. "Minha preponderância sempre foi organizar informações", diz. A visão objetiva dos engenheiros, segundo ele, permeia a vida dos jornalistas e a busca pela precisão também é algo comum entre as duas profissões.


Hoje gerente de Jornalismo da Rádio Gaúcha, do Grupo RBS, jamais se arrependeu da escolha e afirma que teria sido um bom engenheiro, mas do jeito moderno. "Hoje, os engenheiros são voltados a resolver os problemas das pessoas. Antes, era para construir e resolver seus próprios problemas técnicos. Eu descobri há um tempo que sou jornalista porque gosto de pessoas. A razão que me faz trabalhar todos dias é porque eu gosto de pessoas. Gosto de contribuir com informações para que a sociedade funcione melhor."


Cezar já contabiliza 27 anos na Comunicação, sendo 23 deles no Jornalismo, na área eletrônica: rádio, TV e web. A única experiência com jornal impresso, segundo ele, foi numa noite bastante triste, em 1994, quando um colega de faculdade morreu. Marco Antonio Mallmann, que fundou a Folha de Candelária em 1986, estava fechando a edição semanal do jornal quando sofreu uma queda do prédio em que estava. Com a notícia do falecimento do amigo, Cezar foi para a cidade e, lá chegando, percebeu que devido à fatalidade o jornal não iria para a rua. Como forma de homenagear Marco, Cezar terminou aquela edição interrompida tragicamente. "E foi a única vez que trabalhei em um jornal", lembra.


Engenheiro ou astronauta?


Na década de 70, depois de ver o homem chegar à lua, o jovem, que nasceu em Santa Maria , no dia 24 de dezembro de 1962, até astronauta pensou em ser. Porém , seu grande desejo naquela época era tornar-se engenheiro. Por isso, prestou vestibular para Engenharia Mecânica e, aprovado, cursou dois anos da faculdade na Universidade Federal de Santa Maria (USFM). No final do primeiro semestre, decidiu diversificar sua formação, pois o curso "tratava muito de números, cálculos e materiais, mas tratava pouco de gente". Apesar de gostar desta área, passar o dia falando de Física e Matemática não era algo que lhe agradava.


A busca pela humanização nas Ciências Exatas o levou até a disciplina de Estudos dos Problemas Brasileiros (EPB) e, por falta de horário, acabou entrando em uma turma de Comunicação Social. Enxergou ali muito mais do que a oportunidade que procurava: sua vida tomaria um novo rumo. Prestou vestibular para Jornalismo e, por dois anos, tocou os dois cursos. Cezar sempre gostou de cinema e de escrever e, em certo momento, percebeu que aquilo que considerava um hobby era, na verdade, o que realmente gostava de fazer. Nascia, assim, a paixão pelo Jornalismo.


Facilitador de talentos


Os primeiros passos na comunicação foram dados no ramo publicitário, onde atuou como redator e diretor de comerciais free-lancer durante quatro anos. Cinco meses antes de receber o canudo, em fevereiro de 1986, recebeu um convite para trabalhar como editor regional da RBS TV de Santa Maria. Em setembro do mesmo ano, mudou-se para Porto Alegre para atuar na edição do programa RBS Notícias.


No período em que permaneceu na RBS TV, de setembro de 1986 a setembro de 1996, foi editor de quase todos os programas da emissora, além de ter sido chefe de Redação e editor-geral de Esportes. Também destaca a experiência multimídia e, na época, inovadora de coordenar as editorias de Esporte de rádio e televisão.


Paralelamente ao trabalho no RBS, em 1987, começou a dar aula para a disciplina de Televisão na Famecos da PUC. Cezar vê o jornalista como um cronista da vida, e era exatamente essa a ideia que procurava passar aos seus alunos. A chance de compartilhar experiências estava presente dos dois lados do balcão: "Era uma coisa maravilhosa, pois me ajudava a manter a inquietude dos bancos escolares - coisa que a gente esquece um pouquinho quando entra numa redação e se preocupa com os problemas do dia-a-dia", relata.


Muitos dos talentos que hoje integram o quadro de colaboradores do Grupo RBS passaram pela sala de aula de Cezar e, segundo ele, a possibilidade de ver o crescimento de gente talentosa é algo gratificante. Durante nove anos, as duas atividades, na PUC e na RBS, fizeram parte de sua rotina. Para o futuro, Cezar planeja voltar a ministrar aulas e, também, dedicar-se à atividade de pesquisador da área da comunicação.


Em 1996, foi para Ribeirão Preto, em São Paulo , trabalhar como chefe de Redação da EPTV (Emissoras Pioneiras de Televisão) e, mais tarde, como gerente de Produto.  "Esta foi uma mudança muito importante, pois me deu a oportunidade de conhecer outra cultura, já que a cultura do Rio Grande do Sul é muito forte. Pude exercitar uma relação com uma cultura muito diferente e menos apegada aos valores que nós temos aqui, mas muito rica pelo fato de São Paulo ser um país à parte e atrair pessoas de todos os cantos", conta.  


De volta aos Pampas


Quando retornou ao Rio Grande do Sul, em 2001, como gerente de Jornalismo da TVCom, a meta de Cezar era reformular a emissora. "Foi um momento difícil para a TVCom, pois não sabia exatamente para que lado ela iria andar. Mas encontramos uma alternativa muito legal e que, hoje, guia a emissora. Nós a posicionamos como a emissora do "está acontecendo"", relembra.  Em 2004, assumiu também a gerência de Jornalismo da RBS TV e, em 2007, esteve à frente da direção de conteúdo do Canal Rural, que iniciava um projeto de expansão. Durante um ano, sua base operacional esteve dividida entre Porto Alegre, São Paulo (a maior parte do tempo) e "algum outro canto do Brasil", como define. "Foi uma experiência maravilhosa, pois pude ver de perto esse mosaico da cultura brasileira e só entendendo o público a gente vai poder prestar um bom serviço", diz.


No ano passado, com a reformulação estrutural do Grupo RBS, Cezar recebeu um novo desafio: gerenciar o Jornalismo da Rádio Gaúcha, que, para ele, "é mais que uma rádio, é uma instituição fantástica". Justo, um pouco exigente e meticuloso, como gestor, sua postura é fornecer subsídios para que os colegas possam exercer suas funções. Por isso, considera-se um facilitador de talentos. 


Pela sua "origem engenheira", como diz, preocupa-se constantemente com processos e linguagens. Sempre busca entender como as notícias se dão em outras mídias, como rádio, jornal e internet.  Com um tênue sotaque paulista, ele explica: "Mas a Engenharia não se afastou de mim, não! Pra você ver: quando a redação da RBS TV foi informatizada, em 1992, o projeto arquitetônico, de fluxo de trabalho, fui eu que fiz, com os conhecimentos que tinha do meu tempo de engenheiro e que fazia plantas para ganhar dinheiro." E em 2006, foi novamente responsável pela reformulação do layout do departamento.


Um casamento multimídia


Do primeiro casamento, com a professora Sônia, tem uma filha: Luiza, de 14 anos. Há quatro anos, casou novamente, com a também jornalista Marta Gleich, responsável pelo conteúdo on-line do Grupo RBS. O casal brinca dizendo que levou ao pé da letra o conceito multimídia da empresa e resolveu aplicá-lo, também, na vida pessoal. Com bagagens profissionais das áreas impressa, televisiva, radiofônica e on-line, os dois compartilham afinidades e visões diferentes sobre a vida, o que, segundo Cezar, só enriquece o relacionamento. "É uma experiência multimídia muito interessante e produtiva, sob o ponto de vista afetivo, já que Marta é uma grande companheira, e ainda pelo fato de sermos muito inquietos", relata.


Com a mulher, Cezar vive em uma casa na zona sul, em frente ao Clube dos Jangadeiros, onde costumam velejar. Ter um barco e viajar pelo mundo era um dos desejos do jornalista da sua época de engenheiro, mas foi Marta quem ajudou a recuperar o anseio. Atualmente, é no Guaíba, a bordo do "Madeleine", que o casal se refugia do agito da metrópole. Os planos de dar a volta ao mundo, é claro, foram adiados. Por enquanto, se contenta com viagens em família pelo Brasil e pela América do Sul. Um dos lugares que ele ainda gostaria de conhecer é a região do Nepal.


Já ele tratou de colocar Marta para correr, literalmente. Porém, diz estar com certo peso na consciência, pois, com o treino pesado, Marta lesionou o joelho. "Mas ela já está se preparando para voltar às pistas. Até porque meu grande prazer, além de correr, é correr com ela, pois é um bom momento de conversarmos e passearmos pela cidade." Antes da lesão, os dois costumavam sair de casa, sem rumo, pelo menos três vezes por semana para percorrer as ruas da Capital.


O fato de "gostar de gente", como ele diz, se reflete também nos esportes, e a prática de alguns deles, como futebol, basquete e vôlei, vem desde a infância. O pai, representante comercial, transmitiu essa paixão aos quatro filhos. Hoje, além das corridas, o jornalista joga futebol com colegas de trabalho. "Sou um ala veloz e apoiador: forte na defesa e rápido no ataque, mas modesto", brinca. E ainda pratica basquete com os enteados Guilherme, 14 anos, e Gustavo, 10 anos, e, também, com a filha Luiza. "Esporte coletivo é um negócio muito legal, pois nem sempre ganha o melhor. Vence quem tem um mix de competência e, claro, se a circunstância também favorece. O que vale é a soma de talentos. Nem sempre o time que tem os melhores jogadores ganha, porque, nem sempre, os melhores jogadores sabem trabalhar em equipe."


Eclético, mas com olhos e ouvidos exigentes, diz gostar de "ouvir bom áudio e ver bom cinema". Conta que sua casa é o melhor lugar para ouvir músicas, e entre os gêneros preferidos estão Rock"n Roll, Jazz e MPB. Quando o assunto é leitura, afirma gostar muito de biografias e de obras que tratam da Segunda Guerra Mundial, "talvez por ter tido um tio veterano de guerra", explica.


Companheiro de viagem


Como uma de suas qualidades, cita o fato de gostar muito de ouvir e, como um dos defeitos, ser um pouco imediatista. "Talvez, por isso, eu faça planejamentos que tenham etapas claras. Porque, assim, eu posso considerar cada etapa como uma tarefa feita. Mesmo que isso dure seis meses, eu estarei vendo as coisas acontecer de semana em semana."


Basta falar em culinária que, prontamente, o jornalista indica sua habilidade: assador. "Adoro fazer churrasco e reunir a família. Mas gosto de todo o processo: início, meio e fim. Um dos meus maiores prazeres é estar na churrasqueira lá de casa, com as crianças por perto, batendo papo. A única coisa que eles têm que fazer é dizer "como estava bom o teu churrasco", pois, do resto, me encarrego", garante.


Aproveitar o passeio e ser um bom companheiro de viagem. Esta é a filosofia de vida de Cezar, que baseia-se num pensamento budista: "o mundo nos dá aquilo que nós damos para ele. Passamos pouco tempo neste planeta e temos que dar importância para as coisas que existem aqui. Como não sei se estarei vivo amanhã, tenho que estar preparado, ter aproveitado o máximo possível e ter sido um bom parceiro de viagem para as pessoas que encontrei pelo caminho", explica.

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