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Vitor Necchi: Jornalista pela palavra

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É em posição de meditação com os pés juntos e em cima do sofá, e de uma forma tranquila, que Vitor Manoel Necchi dos Santos Alves revela como preserva as memórias da sua família e as referências de sua própria história. O professor e jornalista afirma que no início da carreira decidiu que usaria só Necchi como sobrenome e deu certo. “Hoje sou reconhecido, por onde passo, como o professor Vitor Necchi”, orgulha-se.
Os objetos antigos, que hoje decoram seu apartamento no Menino Deus, foram herdados e restaurados para preservar parte de suas raízes. A mesa de centro era do bisavô e a estatueta de uma boneca, que decora a estante da sala, esteve em cima do piano da avó, até a sua morte, aos 93 anos, em 2008. Além do prumo que passou de geração para geração. Na residência, para onde se dirige o olhar, algum objeto traz referência da família e da própria história.
Solteiro e feliz, Vitor diz que se divide entre o trabalho e o conhecimento. Ele é mestre em Comunicação Social pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, desde 2004, e graduado em Jornalismo pela Ufrgs, em 1992. É, também, professor e coordenador de projetos especiais da Faculdade de Comunicação Social (Famecos) e assessor da Pró-Reitoria de Pesquisa e Pós-Graduação da Pucrs. Leciona, desde 1994, diversas disciplinas relacionadas à mídia impressa, texto jornalístico, jornalismo literário, de opinião e cultural. Além disso, orienta alunos durante o desenvolvimento da monografia e é editor da revista ‘Norte – livros, artes e ideias’.

O ancoradouro
Por ter poucos dias de folga, e como as disciplinas na Pucrs são ligadas a texto, reportagens e produção de impressos, a carga de leitura do professor, em relação à universidade, é muito expressiva. Por isso sempre acaba tendo trabalhos para corrigir. “É uma tensão enorme, pois acabo não tendo dia livre”, suspira.
Vitor se considera caseiro, diz que gosta de estar em volta dos seus objetos de decoração, com seus livros, discos, filmes e gatos. “Gosto da ideia de casa, de ancoradouro, para mim é importante. Aquela ansiedade de estar sempre na rua já diminui muito, também deve ser os 40 anos que estão pesando”, brinca.
O professor concentra suas atividades profissionais nos turnos da tarde e da noite para poder passar as manhãs em casa. Costuma acordar cedo para organizar as matérias que precisa ler, fazer correções dos trabalhos, planejar as aulas, elaborar as pautas para a revista e conversar com os colaboradores, que são realizados nas primeiras horas do dia.
Fora a carga de trabalho, o professor gasta parte de seu tempo pesquisando e ouvindo músicas. “Eu pesquiso muito na internet, e quando encontro um disco, vou atrás daquele compositor ou intérprete.” Além disso, o jornalista também cultiva cactos e suculentas, que, conforme ele, são espécies de plantas robustas, que não necessitam de muita dedicação, se enquadrando perfeitamente em seu ritmo de vida.

Como música para os ouvidos
Vitor se diz eclético em relação às músicas que escuta, e recorda que desde pequeno sempre ouviu muito o estilo erudito. “Eu era uma criança estranha, pois ouvia Wagner”. Mas, hoje seu gosto é por ópera, jazz, MPB e “algumas bizarrices”, como ele classifica.
O filho caçula do representante comercial Antonio dos Santos Alves e da professora de música Maria Clara Rodrigues Necchi fez aulas de piano na infância com a avó. Marilia Rodrigues Necchi, que, segundo conta, tinha um piano no meio da sala, e também era professora de música. “Muitas vezes eu acordava com o som do piano e acredito que por isto gosto tanto de música erudita, porque acredito que tudo vem deste meu ambiente familiar musical.”
O garoto aprendeu a tocar violão com a primeira aluna de sua mãe, porém descobriu que não era sua vocação e deixou de lado o instrumento na adolescência. Também descobriu desde cedo a escrita. “Eu lia compulsivamente, chegou uma época na minha adolescência que eu era viciado em literatura”.
Certa vez, o jovem estava lendo um livro de contos de Edgar Poe na casa de alguns parentes, quando um de seus primos se aproximou e perguntou se o mundo iria acabar, Vitor então respondeu: ”Não sei, por quê?”. No que ele respondeu: “Não está escrito aí? Não é a bíblia?”. O livro em questão tinha uma capa dura, preta e o título estava escrito em letras douradas, por isto a confusão. Atualmente, o professor diz que lê muito menos do que gostaria. As leituras estão mais direcionadas a assuntos profissionais e ligadas ao Jornalismo.

Cozinha Vitoriana
Nos momentos de folga, Vitor gosta de cozinhar, de inventar pratos, de visitar amigos e ir ao cinema. Os filmes de Ingmar Bergman, Bernardo Bertolucci e de cineatas franceses estão na sua preferência, além de documentários, de Eduardo Coutinho e de João Moreira Salles, que ele tenta acompanhar.
Na culinária, os pratos salgados são os que mais ganham espaço. Cozinha desde um “prosaico arroz de china-pobre (carreteiro)”, até um “arroz de china remediada metida”, que, além da carne e linguiça, recebe um incremento de vinho tinto e nata. “Gosto muito de inventar pratos na cozinha. Uma vez estava na praia, e vi que tinhamos molho shoyo, mel, cravo, cachaça e frango, então criei um prato com estes ingreditentes, e hoje é um dos clássicos da ‘Cozinha Vitoriana’”, brinca.

Como mania, Vitor guarda fotos antigas da família. “São pastas e álbuns com muitas fotos antigas”, afirma. Quando criança, queria fazer uma árvore genealógica, mas descobriu com o tempo que gosta mesmo é de registrar e preservar, por meio de imagens, a memória da família. 

Na casa em que viveu desde o nascimento, em 17 de julho de 1970, até decidir ir morar sozinho, aos 24 anos, no bairro Partenon, ficaram registradas em tacos de parquet soltos, espalhados pela casa, as histórias vividas e suas raízes. “Eram peças que minha avó usava para pintar. Eu escrevia minha história e de minha família na superfície de madeira e espalhava os tacos pela casa. No guarda-roupa do meu avô, na gaveta da minha avó e no porão”. Na cabeça do menino Vitor, soviéticos e norte-americanos destruiriam o mundo, então, quando algum sobrevivente fosse revolver os escombros, poderia resgatar sua história registrada nos tacos. “A casa é a minha grande referência da infância, com os livros que herdei da família, o pátio grande e o acervo de imagens antigas que eu preservo até hoje”.

Provocar o mundo
Foi lá na casa de infância que Vitor descobriu os livros. Ainda criança, pegou uma estante que estava vazia e colocou no quarto, montando sua primeira biblioteca. Um dos primeiro livros que foi para esta estante foi a edição portuguesa do Primo Basílio, que era do bisavô, Pedro Osório Rodrigues. Também por volta dos anos 70 estavam surgindo os clássicos da literatura da Editora Abril e ele começou a colecionar. “Era o início da minha biblioteca”, diz, para em seguida afirmar: “Cheguei ao jornalismo pela palavra, pelo texto e me apaixonei pela escrita”.
Logo que ingressou na Fabico como estudante de Jornalismo, no final dos anos 80, Vitor começou a escrever para o jornal de cultura ‘Multiarte’, editado por Carlos Augusto Bisson e Rejane Martins. Depois escreveu algumas matérias para o ‘Jornal Quarta-Feira’, de Viamão, por intermédio da colega Luciana Kraemer. Aos 20 anos, o jovem, que adorava ler e escrever, começou a trabalhar no jornal Zero Hora como auxiliar de pesquisa, onde permaneceu por oito anos, desenvolvendo atividades como repórter do Segundo Caderno, chefe de reportagem e editor assistente da editoria geral. “Fiz de tudo, de cobertura de praia até cadernos especiais.”
Quando entrou no jornal, o jovem pensava que iria fazer carreira naquela redação e iria morrer ali. Ao perceber que existiam muitas experiências, possibilidades e perspectivas fora da Zero Hora, resolveu sair. “Descobri com 28 anos que o mundo nos provoca e temos que provocar o mundo, então fui trabalhar com o Daniel Hertz (falecido) e com o Pedro Osório”. Por meio ano ficou no Instituto de Estudos e Pesquisa em Comunicação (Epcom), que fazia um monitoramento do que era publicado sobre jornalismo e comunicação na imprensa, e em cima disto fazia uma crítica do que era produzido e distribuído para uma série de empresas, ONGs e entidades para todo o Brasil.
Antes de se dedicar exclusivamente à vida acadêmica, teve passagem pela Assessoria de Comunicação do Banrisul, em 1999, e da Prefeitura de Porto Alegre, em 2001, como assessor de comunicação do vice-prefeito, na época, João Verle.
Em 2001, foi convidado para dar aula na Unisinos, então decidiu se dedicar exclusivamente à universidade. Nessa época já era professor, havia um ano, na PUC. Mas sua trajetória como mestre começou cedo, aos 24 anos, em 1994. “Foi numa época em que a titulação não era tão importante e determinante como hoje”. Concorreu com doutores e mestres e conquistou uma vaga na Feevale. ”Ali soube que o que eu queria mesmo era ser professor”, declara.
Na Unisinos teve oportunidade de desenvolver diversos projetos, entre eles assumiu a coordenação de extensão do Centro de Ciência da Comunicação. Destacando uma das suas principais características, a intensidade, diz que “mergulhou” de cabeça na empreitada. Também foi dele a ideia de criar, na Unisinos, a graduação de Cinema. Com a proposta aceita, foi ele quem organizou e coordenou, em 2003, o curso de Realização Audiovisual. “Em paralelo, eu continuava trabalhando na Famecos, e em 2004 vi que se encerrava um ciclo na Unisinos”. Vitor resolveu, então, direcionar e investir mais em sua carreira na Pucrs, onde segue até hoje e acredita ter sido uma decisão acertada.

Repertórios
Atualmente, Vitor se divide entre quatro disciplinas e cinco turmas, a assessoria da diretora da Famecos, Magda Cunha, e do pró-reitor de pesquisa e pós-graduação, Prof. Dr. Jorge Luis Nicolas Audy, a comissão de organização do SET Universitário, a orientação de monografias, além da edição da Revista Norte. “A universidade para mim, assim como uma redação, sempre foi mais que uma perspectiva, foi uma idealização de espaço e por isto não me vejo longe de um campus.”
Conforme o professor, o meio acadêmico é um local robusto e completo, onde oferece muitas possibilidades. “É um espaço onde há uma busca permanente do conhecimento. O aluno exige que eu estude e aprenda cada vez mais para suprir suas necessidades.” Além disso, Vitor destaca que as relações que se estabelecem neste ambiente são fenomenais. “São 15 anos como professor e, destes, 10 são na Pucrs. Então fiz grandes amizades, o que é um ganho muito bacana da universidade. Por onde passo encontro algum aluno. Isto é gratificante”.
Vitor diz que busca estimular e ajudar seus alunos para que eles formem um bom repertório, o que significa desde indicação de filmes, livros e músicas, até o relato de suas experiências.
Satisfeito com o que faz, o professor destaca que a preocupação que tem com seus alunos é a politização dos mesmos. “Tento provocá-los, para que tenham consciência e responsabilidade com o que fazem”. O objetivo, segundo ele, é que os estudantes não se acomodem, gerando pautas mais comprometidas e sensíveis, e não burocráticas.

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