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Guilherme Baumhardt : Com convicção

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Guilherme Baumhardt, gerente de Jornalismo das rádios Bandeirantes AM e BandNews FM, é capaz de reunir em si características distintas, porém complementares. Pode ser alguém sério quando fala da responsabilidade em gerir pessoas e fazer jornalismo, divertido quando comenta os próprios gostos e peculiaridades, convicto de suas posições e até teimoso ao defender seu ponto de vista. “Sabe aquele cara extremamente argumentador? Eu sou esse mala. Que briga para que as coisas deem certo, persistente, e, por conta disso, até chato, mas, no fim das contas, um parceirão”, define-se.

Podia ter sido engenheiro mecânico, mas, avesso aos números, optou pelo Jornalismo no vestibular. Piloto de automobilismo frustrado, como se considera, teve a escolha orientada pelo gosto pela leitura, o interesse por assuntos relacionados à política e economia – comentados por ele desde menino em conversas com o pai –, mas também pela expectativa de que ainda poderia trabalhar em uma revista especializada sobre carros. A certeza de que havia feito a escolha certa teve ainda nos primeiros semestres de curso. Já a ideia de atuar em impresso, com jornalismo esportivo ou automobilístico, não se concretizou.

Teve passagem pelo jornal O Sul e oportunidades no Jornal do Comércio e na assessoria de imprensa da Justiça Federal do Estado, mas foi o rádio, o meio por toda a graduação por ele rejeitado, que o acolheu ainda estudante, em final de curso. Era 17 de janeiro de 2005 quando, como estagiário, iniciou a trajetória na Band. Desde então, foi produtor, repórter, editor-chefe, editor executivo, chefe de reportagem, coordenador de Jornalismo e, atualmente, gerente de Jornalismo e apresentador.

Lições marcantes

De estagiário a gestor, aos 31 anos, assume que cometeu algumas “bobagens”, agora transformadas em aprendizados. Em uma ocasião, ao cobrir a invasão de uma área rural e cobrado para noticiar a decisão judicial sobre o pedido de reintegração de posse, pressionou a assessoria de imprensa até obter a informação de que o pedido fora rejeitado. Foi a primeira vez que entrou no ar e precisou retornar para corrigir a informação. Por telefone, a assessora confirmara que o juiz havia pedido mais tempo para analisar o caso. “A partir de então, entendi que o furo é importante, dar a informação em primeira mão é legal, mas, mais do que isso, é preciso dar a informação precisa.”

O episódio serviu de lição para controlar a ansiedade e atribuir mais cautela a cada trabalho, especialmente na gestão de pessoas. Foi assim em um temporal no interior do Estado em que a equipe da Band apurou 12 mortes, e uma concorrente informou 13. O número foi reproduzido em um portal de notícias nacional e gerou cobranças vindas de São Paulo, de que os dados do grupo estariam defasados. “Fizemos uma nova checagem e a nossa informação estava correta. A concorrente teve que fazer a correção. Em outras palavras, teve que ‘ressuscitar’ alguém.”

Entre os momentos marcantes da trajetória, está a cobertura da queda do avião da TAM, em 2007, quando pousava em São Paulo. A tensão, a situação de crise que se formou no aeroporto Salgado Filho, de onde o voo partira, a sala em que os familiares das vítimas foram acolhidos, e uma tentativa de agressão de alguém mais exaltado ainda são preservados na memória, em especial pela característica atípica e delicada da cobertura. As coberturas internacionais – nas quais acompanhou o governador Tarso Genro a Portugal, Espanha e China, e o segundo turno do pleito que elegeu José Mujica à presidência do Uruguai, em 2009 – e eleitorais também são lembradas por ele, que enfatiza: “Eleições é como se fosse final de Copa do Mundo pra nós”.

Das raízes

Natural de São Carlos, município paulistano, faz questão de ressaltar que apenas nasceu por lá. Tinha em torno de sete meses quando os pais, o professor universitário e químico industrial Ricardo Baumhardt Neto e a farmacêutica Leane Beatriz Schreiner, decidiram retornar ao Rio Grande do Sul, que abrigava familiares e antigos amigos. A profissão do pai deu a Guilherme uma infância de idas e vindas, com temporadas vividas ainda em Campinas e nos Estados Unidos. “Sou gremista, casado com uma uruguaia, passei a maior parte da minha vida aqui, estudei jornalismo aqui, moro aqui, meus amigos e minha família estão aqui”, destaca, sintetizando a relação com o Estado.

Também é ambientada no território gaúcho, precisamente em Cachoeira do Sul, grande parte das memórias da infância. Era na chácara dos avôs paternos que costumava brincar, jogar bola, reencontrar o amigo Guto, andar de bicicleta e, ainda menino, ajudar a juntar o gado. Livre dos limites do pátio do prédio e de passatempos como videogame e televisão, típicos de quem mora em cidade grande, no município gaúcho era onde se podia ser criança, como diz. Em todas as lembranças, tinha a companhia do irmão Alex, hoje engenheiro mecânico, residente em Mato Grosso do Sul. “Sempre fomos muito parceiros, estivemos muito juntos, quando queria ou não, porque os pais obrigavam”, lembra aos risos.

Em uma das salas de aula da Fabico, onde cursou a graduação, e em meio a uma aula do professor Leo Nuñez, conheceu a mulher que já o acompanha há uma década, a jornalista Janine Mogendorff. Ela, que havia entrado na faculdade semestres antes, voltava de uma viagem de intercâmbio, o que colocou os dois na mesma sala. O relacionamento começou alguns meses depois, quando a convidou para a festa de aniversário de uma amiga. “Lá se vão 10 anos de parceria, amizade, amor, ‘pancadaria’ – brigas fazem parte –, e engraçado é que lembro até hoje a primeira vez que a gente se viu, no quarto semestre da faculdade.”

As preferências

Como alguém que já deixou Porto Alegre tantas vezes, mas sempre retornou à cidade, gosta da Capital, apesar de seus problemas, que aponta. Argumenta que o ar provinciano, comparado a São Paulo, é capaz de possibilitar o encontro com amigos em um domingo no Parcão, mas, ao mesmo tempo, atrapalhar uma ida ao restaurante à noite, já que a maioria dos estabelecimentos fecha as portas relativamente cedo. Cinema e gastronomia são, aliás, dois dos hobbies de Guilherme, que não se considera um cinéfilo, mas curte frequentar restaurantes e se diz o “chef da casa”. “Tem quem pague luz, telefone, água e o que sobra gasta com algo mais supérfluo. Meu supérfluo é sair pra comer fora”, resume. A tática é escolher um bom restaurante, o que não significa necessariamente um local caro.

Pizzas, diferentes tipos de carne – incluindo, claro, o churrasco –, culinária alemã, massas, frutos do mar e feijoada estão entre os pratos que aprecia. Difícil, para ele, é citar o que não gosta, mas o título fica com o quiabo e o mocotó. Também não hesita em ir para o fogão, fazer os próprios pratos, tendo a esposa como “auxiliar”. “Faço salmão no forno e tenho três receitas de risoto, que, modéstia à parte, faço muito bem.” Mesmo que não tenha se tornado jornalista automobilístico, dirigir ainda é algo que gosta de fazer nas horas vagas. Assim, um convite para subir a Serra e degustar um galeto, por exemplo, será sempre bem-vindo.

Fã de rock inglês, diz que teve na banda Oasis o equivalente aos Beatles de sua geração. Ouve do estilo do que convencionou chamar British Rock nos anos 1990, como Blur e The Verve, aos clássicos de Beatles e Rolling Stones. O gosto musical atribui a uma herança do pai, a quem acompanhava desde os quatro anos, na audição de vinis. Na música brasileira, foi fã de cantores como Chico Buarque, Gilberto Gil, Caetano Veloso e, principalmente, Toquinho. “Quando a gente vai ficando velho, passa a ouvir algumas coisas porque te remete a um tempo que foi bacana. Odiava Kid Abelha, hoje até ouço, porque me lembro das reuniões-dançantes”, confessa. Para ler, busca as obras relacionadas à História e à política, com ligação direta ao dia a dia. A mais recente é a biografia de Getúlio Vargas.

Menos reclamações

Guilherme se diz um privilegiado por ter convivido com os quatro avôs e três bisavôs, com os quais pôde aprender lições que carrega ainda hoje. É a eles e aos pais que credita os valores recebidos e define como fundamentais em sua formação. ‘Respeite para ser respeitado’ e ‘não faça aos outros o que não gostaria que fizessem a ti’ são duas frases diversas vezes proferidas pelos familiares, que se acostumou a seguir. “Não que eu nunca tenha errado com alguém, mas, na maior parte do tempo, procuro levar isso comigo.”

Tornar-se pai e um profissional melhor são os planos para os próximos anos. Tinha 23 anos quando se tornou chefe de reportagem das rádios da Band, após a saída de Milena Schoeller do grupo. Foi assim: “Num dia tomava cerveja com a turma no boteco da Lima e Silva e, no outro, disparava pautas e cobrava por que a matéria não tinha sido fechada”, explica. Nesse período, admite ter cometido erros, que também contribuíram para que ganhasse mais maturidade. No futuro, considera que talvez tenha que escolher entre ser gestor e/ou apresentador, mas esse não é um motivo de preocupação no momento. “Não sei que rumo as coisas vão tomar, mas, com certeza, serei um jornalista melhor.”

Mais notícias boas para comunicar e menos motivos para reclamar também são desejos de quem, com frequência, usa o microfone para alertar para assuntos como as obras inconclusas pela cidade, o descontrole da inflação e o baixo crescimento da economia. “Quero que isso vire exceção, que se precise voltar menos aos mesmos assuntos, que a pauta mude um pouco. Se tiver que criticar, que seja por coisas novas.”

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