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Paulo Gasparotto: Pra lá de social

Com mais de 50 anos de colunismo social, Paulo Gasparotto não gosta de remoer o passado e tem certeza de que nunca deixará de trabalhar
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Paulo gasparotto-CORTADA_jul16Por Gabriela Boesel

Com disposição e energia, Paulo Gasparotto não aparenta, nem de longe, a idade que tem. Aos 79 anos, muito bem vividos, diga-se de passagem, como ele mesmo conta, o colunista social se mostra um homem atarefado e em constante movimentação. Durante esta entrevista, atendeu a dois telefonemas e olhou para o relógio pelo menos quatro vezes, demonstrando que mais um compromisso o esperava após a conversa.

Jornalista pelo diploma Castello Branco, como brinca, ao fazer referência ao ex-presidente do Brasil no período da ditadura militar, Gasparotto não se graduou em Jornalismo, mas sempre trabalhou na área. E mais: sempre como colunista social. Convidado pelo jornalista falecido Tarso de Castro, iniciou sua carreira na Revista Globo, da editora de mesmo nome, e, com 28 anos, deu o primeiro passo para o que se tornaria sua carreira de mais de 50 anos.

Apaixonado por leitura, atribui a esse fascínio o interesse pela escrita, função que exerce até hoje como colunista do jornal O Sul, onde está há 15 anos. Na trajetória, conviveu com personalidades como a também colunista social Gilda Marinho e o poeta Mário Quintana, de quem fala com muito carinho. Ao longo do meio século de trabalho, viveu histórias sem fim, mas é categórico ao dizer que não gosta de remoer o que já passou. “O momento vale pelo momento. Vivo o presente e procuro não rever o passado, embora não tenha recalque nenhum. Fiz quase tudo o que eu quis, como quis, com quase todos que eu quis.”

Com um pé fora da área

Já como colunista de Zero Hora, em 1969, chegou a cursar Direito, mas não finalizou. Conta que foi influenciado por um antigo amigo e, sem ter muita convicção, de qual carreira seguir, ingressou no curso. “Talvez tivesse sido uma boa opção”, analisa, pensativo. Com um pé na advocacia, o profissional não se constrange em dizer que, mesmo gostando muito da função do que faz, trocaria facilmente de profissão. “Acho fascinante a ideia de mudar de área. Isso não me abalaria. Só tenho certeza de que nunca vou deixar de trabalhar”, esclarece.

Leiloeiro e avaliador profissional, o colunista tem planos de se envolver na política, mas garante que nunca deixará de escrever. “Posso até sair de um veículo jornalístico, mas terei sempre meu Facebook, onde poderei seguir com minhas contribuições”, declara.

Ele segue sustentando uma coluna social, mas defende que, hoje, esse tipo de texto já perdeu sua essência. “Coluna social não existe mais. Aliás, existe, porque todo mundo faz isso através das redes sociais”, reflete, e adiciona que observar, analisar e criticar o que não está certo é o que mais o atrai no trabalho. Função que lhe proporciona outra paixão, a de vivenciar a cidade e suas movimentações, visto que se diz um bairrista incondicional. “Já morei em diversos bairros e sou apaixonado pela cidade”, faz questão de registrar. Inclusive, presidiu a Associação dos Amigos do Parque Farroupilha mesmo antes de morar na região, com o objetivo de estar sempre envolvido com o bairro.

Entre idas e vindas

Colunista de Zero Hora por 35 anos, conta que começou escrevendo sobre artes, antiguidade e decoração. Substituiu o colunista social da época e, logo, assumiu como titular. Ficou no diário do Grupo RBS até 1979 quando, a convite da família Caldas Júnior, passou a atuar no jornal Correio do Povo, onde ficou por dois anos. Convidado pelo então presidente da RBS, Maurício Sirotsky Sobrinho, deixou o impresso do atual Grupo Record para retornar à antiga casa.

Ao analisar a trajetória de mais de meio século, Gasparotto chega a duas conclusões. A primeira é que a imprensa proporciona a alegria da convivência e da experiência. E a segunda é que, para aparecer em uma coluna social, é preciso ter talento, beleza e inteligência. “O dinheiro ajuda, mas não é tudo”, pontua.

Dentre as inúmeras histórias vividas nesta atividade, Gasparotto gosta de lembrar dos bailes, mas esclarece que “festas são coisas normais, não acho que seja muito importante”. Aliás, sobre os inúmeros eventos dos quais participou e ainda participa por força da profissão, frisa que sempre os encarou como trabalho. “Me considero um prestador de serviço e nunca fico muito tempo em lugar algum. Fico o necessário para fazer o meu trabalho”, explica.

Nada pragmático

Com princípios voltados à ecologia e aos animais, o colunista de O Sul se diz adepto às causas sociais e defende que as pessoas têm que aceitar a diversidade. “Não sou pragmático de maneira nenhuma. Sou comigo, com mais ninguém”, declara.

Leitor assíduo desde os quatro anos de idade, conta que aos 12 já lia literatura de adultos. Confessa que lê de tudo, “até anúncio de vendas”, diz, aos risos, e acrescenta que tudo lhe é interessante. “A leitura dá uma satisfação incrível.” E, como não poderia ser diferente, o hobby favorito é ler. No cinema, vê de tudo, exceto ficção científica, “dessas mais modernas”, como se refere. Sobre assistir TV, diz que até liga o aparelho, mas não é seu “esporte preferido”.

A aparência saudável e a animação são facilmente explicadas pelo gosto que tem pelo esporte. Caminhadas, exercícios aeróbicos e levantamento de peso estão entre as prioridades no que se refere aos cuidados com a saúde. Mesmo sem frequentar academia, faz questão de se exercitar no Parque da Redenção – afinal, a proximidade com o local é um fator que facilita –, e na própria casa. O encanto pelo esporte também vem do pai, que foi jogador do Sport Club Internacional. Embora tenha crescido nesse meio, confessa que sempre foi gremista. Por não ter muita paciência, hoje se limita a acompanhar alguns jogos, sem demonstrar nenhuma paixão exagerada.

Sozinho, mas não solitário

Sem filhos e solteiro, Gasparotto é convicto ao dizer que não se sente solitário. O filho único de Eugenio e Esther aprendeu a desfrutar da própria companhia e diz que, mesmo que se iniciasse uma relação, não dividiria o teto com ninguém. A contradição fica por conta de Celita Cardoso, com quem mora há 44 anos. “Ela é uma irmã”, explica, ao mencionar a secretária do lar. Para ela, seu Paulo, como chama o colunista, é uma pessoa incrível. “Um pouco mal-humorado, mas um ótimo companheiro”, se limita a dizer, meio constrangida.

Sobre relacionamentos amorosos, conta que, aos 17 anos, teve uma relação heterossexual estável, que durou seis anos. “Moramos juntos e hoje ela é uma grande amiga”, diz, sem pestanejar, mas também sem entrar em detalhes. Depois, conta que teve relações ocasionais, “mas nada para sempre”.

Nascido em Porto Alegre, no bairro Menino Deus, fala que não trocaria a Capital por nenhum outro lugar, exceto África do Sul, país pelo qual se encantou, pois “é muito bonito e com uma temperatura maravilhosa”. Aliás, viajar é uma das atividades que mais acha prazerosa, embora confesse que já não se aventura tanto como antigamente. “Hoje, acho um pouco chato por causa da massificação, que torna tudo mais difícil”, lamenta.

Com uma disposição que é de se admirar, Paulo Gasparotto se autodefine como um entusiasta da vida. Guiado pelos questionamentos ‘Quem sou? De onde vim? Para onde vou?’, o colunista enxerga o mistério da existência como algo simplesmente fascinante e que “é uma coisa que faz a gente pensar”. À pergunta sobre o que leva dos 50 anos de Jornalismo, a resposta é óbvia e intrigante ao mesmo tempo: “Levo 50 anos de Jornalismo”.