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Alexandre Elmi: Obcecado por informação

Professor da Famecos, Alexandre Claser Elmi não deixa de se sentir jornalista mesmo dentro da sala de aula
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Por Cinthia Dias

Em frente a um computador dentro da redação do Editorial J, núcleo de experiência para alunos da Famecos, Alexandre Claser Elmi, concentrado, lê as últimas notícias antes de conceder a entrevista. Os olhos verdes, atrás da armação bordô dos óculos, acompanham cada movimento que faz com o mouse. A necessidade de consumir informação é constante: no carro, liga o rádio; no computador, abre as páginas de Zero Hora, Correio do Povo, UOL, G1 e Globo; em casa, assiste à televisão. “É bem viciante e complicado”, caracteriza o hábito de se manter atualizado e, sarcasticamente, completa que “é um transtorno obsessivo compulsivo”. O que Elmi não imaginava é que aquele gosto pela leitura de jornais, ainda na infância, lhe renderia, anos mais tarde, uma relação cheia de paixão pelo Jornalismo.

Nascido em São Paulo, morou até os oito anos na terra da garoa. Na cidade, seus pais se conheceram, casaram e tiveram três filhos: Evandro, ele, Alexandre, e Ângela. Em 1978, quando o núcleo familiar teve de se mudar para o Rio Grande do Sul, em função do trabalho do pai, o italiano Gianni Elmi, pode reforçar os laços com a terra natal da mãe, Jussara Claser Elmi. “Foi um retorno que acabou fortalecendo a minha ligação com o Estado”, afirma, e conta que, mesmo distante, a família cultivava as tradições gaúchas. Eles moraram, inicialmente, em Canoas, onde o patriarca trabalhou em uma fábrica de caixas de papelão.

Entretanto, as mudanças não parariam por ali. Três anos depois, Gianni e a esposa decidiram morar com os filhos na catarinense Criciúma. A decisão aconteceu ao mesmo tempo em que Elmi entrou para o Colégio Militar em Porto Alegre e uma decisão foi tomada: “Parece estranho dizer que com 12 anos fiz uma opção, mas foi assim mesmo. Uma decisão tomada e que, talvez, eu não devesse porque era muito novo”, pondera. Foi o momento mais marcante da infância: estudar e morar longe dos pais. “Foi sofrido passar uma fase da minha vida – delicada e complicada como é a adolescência – longe”, reconhece sem pesar.

Ainda que o período de estudos tenha sido “puxado”, como ele diz, a oportunidade possibilitou passar em todos os concursos que realizou depois da formatura. Dentre eles, o vestibular da Ufrgs para Economia e a prova para oficial da Marinha Mercante, no Rio de Janeiro. “Tive que decidir e, até hoje, lembro que consultei pouco meus pais. Abracei praticamente sozinho a decisão”, conta, ao recordar que, aos 19 anos, acabou optando pelo curso que lhe daria uma profissão em um curto espaço de tempo, a Marinha.

Náufrago da própria aventura

Durante o curso, que tinha duração de quatro anos, Elmi fez duas viagens longas, quando consertou maquinários do navio e mexeu com Engenharia. Isso despertou os primeiros sinais de que aquilo não era para ele. “Era um mecânico de navio, no fundo era isso, e eu não me vi bem fazendo aquilo”, relata. A gota d’água foi a viagem ao Espírito Santo, bem no período de uma greve dos portuários na cidade. Havia uma fila muito grande de navios para atracar e o seu teve de permanecer ancorado em uma baía por quatro semanas. “Naquele momento, me senti preso. Não tinha cometido crime algum, mas estava confinado.” O resultado é que retornou para casa com o diploma e a desistência.

Assim, aos 21 anos, recém-chegado na casa dos pais, fez um balanço e, finalmente, decidiu ser jornalista. Gianni e Jussara até tentaram convencer o filho a fazer Direito ou outro curso “com melhor remuneração”, como acreditavam, mas não houve jeito. Em 1992, ele foi aprovado, e em primeiro lugar, na Federal gaúcha. “Têm coisas que a gente não esquece”, lembra com um sorriso tímido no rosto. Com isso, passou a morar na Casa do Estudante, na Capital. Um ano depois da aprovação, o universitário conseguiu o primeiro estágio, na Federação das Associações Comerciais e de Serviços do Rio Grande do Sul (Federasul), onde atuou na assessoria de imprensa. De lá, foi contratado por Zero Hora como auxiliar de Pesquisa, no setor que hoje denomina de Google. “Óbvio que isso não existia em 1994. O Google era uma sala imensa com livros, recortes e enciclopédias”, brinca.

Relações, a base do Jornalismo

Apesar de ter gostado muito da primeira experiência, a questão salarial pesou. Em 1994, o jornalista Paulo Cesar Flores, que todos conhecem por PC, o convidou para assumir a vaga de jornalista que havia surgido na Federasul. Ele retornou como braço-direito do chefe e ajudou a tocar o jornal da entidade. Foi quando começou a ser encartado em ZH que o impresso passou a ter outra dimensão. “A equipe tentava fazer algo diferente, interessante e provocativo. Reportagens mesmo não eram o foco da publicação, mas tínhamos muita vontade de fazer Jornalismo”, explica. Ainda que PC fosse um exemplo, Elmi tinha no jornalista Nico Noronha uma referência para produção textual. “Fantástico!”, é como elogia o colega com quem trabalhou na Federasul e é reconhecido pelas coberturas esportivas que realizou. Quando ocorreu a troca na presidência da entidade, PC saiu e indicou Elmi para assumir seu lugar. “Foi uma sucessão natural”, avalia.

Como era recém-formado e ainda aprendendo, o presidente da época, Mauro Knijinik, ponderou que Elmi precisava de mais experiência. Em seu lugar, colocou a jornalista Lilian Ben David, então editora de Economia e artista gráfica na Gazeta Mercantil. “Tive que engolir um sapão, que era estar na coordenação do processo e alguém vir para o meu lugar”, admite. Mas Lilian, já falecida, também marcou sua carreira, graças a uma convivência que avalia como “muito produtiva”. Para Elmi, Lilian ficou como uma referência, grande amiga e ética: antes de deixar o cargo, ela sugeriu a Knijinik que o colega assumisse novamente o departamento.

Esteve à frente da assessoria por diversas outras gestões posteriores, sendo sua última a de Paulo Afonso Feijó. “Nós tínhamos uma incompatibilidade total”, resume sem mágoa, tanto que em junho de 2002 foi demitido. Segundo Elmi, no Jornalismo é fundamental ter talento, mas o que é decisivo são as relações. “Quando saí da Federasul, já tinha um café marcado com o Altair Nobre, que era editor de Geral de ZH”, recorda.

Política, Geral, Esporte

Novamente na redação do diário, atuou como repórter freelancer para auxiliar na força-tarefa que cobriu eleições estaduais. Na época, havia a figura do que chamavam de repórter-sombra, e ele era o que acompanhava o candidato Tarso Genro. Pouco depois, foi efetivado e deu início à carreira de repórter político, que duraria cinco anos. Durante esse período, escreveu matérias sobre a crise financeira no Estado; fez especiais de final de semana; eventualmente, substituía a jornalista Rosane de Oliveira na coluna; participou de algumas sessões de CPI no Congresso Nacional, entre outros trabalhos. “Pude acompanhar depoimentos marcantes, como o do Duda Mendonça e do Marcos Valério. O que a gente está vivendo hoje nasceu, em parte, naquele momento”, relembra.

Era 2007 quando aconteceu o que Elmi avalia como a principal experiência no Grupo RBS: o convite para ser editor de Geral. A transformação significava muito mais responsabilidade e salário melhor. E foi rápida. De uma sexta para segunda-feira, o profissional estava responsável pelas coberturas e pelos cadernos de bairro, tendo que enfrentar um programa de diagramação – uma dificuldade para ele. Encarou o desafio como uma oportunidade de entender a profissão com outro olhar. “Tive de administrar questões não só jornalísticas, mas humanas”, destaca. Como editor, participou da cobertura de grandes eventos, como a tragédia provocada pela queda do avião da TAM (2007), quando uma centena de gaúchos faleceu.

Dentre as diversas reportagens que escreveu como repórter de política, em 2005, conquistou o Prêmio Ministério Público, na categoria Jornal – a única premiação da carreira – ao lado dos colegas Leandro Fontoura e Dione Kuhn. O texto tratava sobre o arquivo pessoal, que foi encontrado abandonado em Guaíba, do ex-ministro da Educação Tarso Dutra. “Nele, havia documentos sigilosos e secretos da ditadura militar, que não deveriam estar nessa situação, se deteriorando.”

Elmi também foi editor de Esportes, em 2010, ao lado do colega Sérgio Vilar. O convite aconteceu, segundo ele, para que pudesse contribuir com a experiência da editoria de Geral. Um período que foi de diversão, pois a sensação era a de que não trabalhava, já que tinha que ver e tratar de esporte o dia inteiro. “Eu recebia para fazer isso e ainda editava as páginas do Grêmio”, relata, entusiasmado com o time do coração.

Nesse meio-tempo, em 2011, o ex-professor e amigo Vitor Necchi o convidou para participar de um processo de seleção para dar aula na Famecos, da PUC. “Nunca me enxerguei como professor, nem almejei isso”, garante, contando em seguida que fez a seletiva, foi contratado e iniciou lecionando três disciplinas. Em paralelo, após deixar Zero Hora, assumiu também o cargo de assessor de Comunicação na Secretaria de Desenvolvimento e Promoção do Investimento do Estado. “Até hoje sonho que estou em ZH. Nunca mais voltei, nem pisei na redação. Não me senti em condições de voltar lá ainda”, desabafa, visivelmente impactado.

Quando ingressou no mestrado, exigência para desempenhar a docência na PUC, Elmi deixou a assessoria e passou a se dedicar exclusivamente às aulas da graduação. Com os trabalhos acadêmicos, deseja consolidar a presença na academia com a tese de doutorado. Para daqui a 10 anos, não faz nenhum plano, pois acredita que esteja vivendo uma segunda fase. “A vida é tão longa e, agora, não tenho nenhuma perspectiva de morrer. O professor Tibério fala na terceira fase da vida. Acho que estou vivendo a minha segunda, como professor”, reflete, e completa que, mesmo lecionando, não deixa de se sentir jornalista.

As três paixões

Antes de se apaixonar por Ana, Elmi foi casado, por quatro anos e teve um filho, Gianluca. “Meu ruivinho, que não posso mais chamar assim, senão tomo um soco na cara”, brinca, ao recordar que o primogênito está com 16 anos. Desde a separação, o filho mora com a mãe, em Criciúma. “Ela carregou todo o esforço da criação e fez um trabalho extraordinário, porque ele é um guri querido e centrado”, avalia. Em consequência da distância, o professor o vê uma vez por mês, mas diz que conversam com frequência.

Aos 47 anos, Elmi conta que, ainda pequeno, ao ver os gols no Fantástico, da Rede Globo, se encantou por um marcado pelo jogador gremista André Catimba. “Ele fez o gol, deu aquele voo e caiu de peito no chão. Digo sempre para os gremistas que é a melhor comemoração na história do futebol. A mais trágica, mas é a melhor”, recorda com muita emoção. Gremista fanático, ele brinca que, com o passar dos anos, se curou e não frequenta mais tanto o estádio. Entretanto, garante que a paixão pelo time aumenta ao passo que a da Ana diminui. “Ela já gostou mais, mas foi vendo o nível que pode chegar a doença e foi desgostando”, comenta, sarcasticamente.

Foi entre a demissão na Federasul e o trabalho de freelancer em ZH que conheceu a também jornalista Ana Fritsch, atual esposa. Segundo ele, no começo, a relação não deu muito certo, pois não sabia muito bem o que queria da vida. Em 2001, Ana, consultora de estilo e colunista do Jornal do Comércio sobre negócios relacionados ao universo feminino, decidiu morar um período em Londres. Quando retornou, em agosto de 2002, o casal resolveu morar junto. “Foi um momento em que aproveitei a viagem dela para pensar e tomar algumas decisões”, avalia.

Depois de uma negativa em Paris, Ana cedeu ao pedido de casamento, feito em Nova Iorque, na data em que completavam 12 anos juntos. “Depois que ela disse não, botei na cabeça que não seria assim, ela ia casar comigo!”, afirma, recordando com confiança. A união aconteceu em fevereiro de 2015, em Colinas. O local da cerimônia era muito parecido com o da casa deles, no bairro Vila Nova, zona sul de Porto Alegre. Atualmente, o casal, como tem dificuldades para engravidar, aguarda na fila de adoção há dois anos. “A Justiça simplesmente não nos apresenta nenhuma perspectiva de conseguir”, resume, chateado.

Apaixonado assumido pela esposa, pelo filho e pelo Grêmio, o jornalista garante que sua maior virtude é a capacidade de se apaixonar pelas coisas. Elmi defende ideias, teses, pessoas e amigos. Apesar da intensidade, seu maior defeito caminha lado a lado com a maior qualidade: “Minha dificuldade está em não expressar meus sentimentos. Tenho amigos que reclamam que não cultivo amizades. Acima disso, sou um amigo para todas as situações, custe o que custar”, finaliza, sem titubear.