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Aline Kusiak: O nosso tempo é agora

Com mais de 30 anos de carreira, Aline Kusiak é “publicitária por formação e mãe da Paula por vocação”
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Por Cinthia Dias

Em uma grande sala do quinto andar do prédio da Secretaria de Comunicação Social (GCS) da Prefeitura de Porto Alegre, na movimentada Jerônimo Coelho, em pleno Centro da Capital, se encontra Aline Kusiak. Com semblante sério, fica atenta às demandas das mais de 25 secretarias municipais, à caixa de entrada do e-mail e ao celular. Como ela mesma diz, as pessoas que não a conhecem ou não convivem diariamente com ela podem achá-la antipática. Talvez isso se deva pela voz firme, pela certeza que transmite ao falar ou pelas opiniões decididas com as quais se dirige aos colegas. “Acredito que esta seja a minha defesa”, aponta, sem ressentimento, pela primeira impressão que costuma passar. Apesar disso, garante que sua maior virtude é ser solidária e prestativa com aqueles a quem ama. “Se tu precisares de mim, pode ter certeza que estarei lá”, afirma, convicta.

Entre o encantamento pelas brocas, molares e sisos, e a curiosidade pelas campanhas e planos de mídia, venceu o curso de Publicidade e Propaganda da Famecos,  no início da década de 1980. Sua inquietude lhe rendeu uma oportunidade na antiga agência Publicis Norton, enquanto estudava no segundo semestre da graduação. Na época, lhe foi ofertada uma vaga de estágio pelos professores Lúcio Pacheco e Lúcia Bastos, que ministravam as disciplinas de Atendimento e Planejamento, respectivamente, e atuavam na empresa como diretor e gerente de Atendimento. Nela, teve a possibilidade de passar por todos os departamentos da organização, onde fez montagem de arte e escolha de fotografias. “Devo meu início profissional a eles”, reconhece.

Realizada pela trajetória de mais de 30 anos na Propaganda, a filha do militar e meteorologista Zygmundo Kusiak e da dona de casa Zuleika Zimmermann, ambos falecidos, esteve dos dois lados do balcão. Quando conquistou o diploma, em 1984, ingressou como auxiliar de Mídia na Publivar e, tempos mais tarde, na Símbolo, onde era responsável pelo tráfego – ligação entre departamentos para que prazos fossem cumpridos. Com o aprendizado, percebeu que é necessário se colocar no lugar do outro, pois somente assim a rotina profissional flui. “Se tu enxergas o todo, é muito melhor”, acredita. Ao recordar essas experiências, menciona que as dinâmicas de trabalho evoluíram muito. Para tanto, exemplifica com a época em que fechava anúncios e estes eram confiados ao motorista do ônibus na rodoviária para que entregasse ao cliente no Interior. “Era outro mundo”, pontua.

Namoros profissionais

Em seu portfólio também consta a representação para o sistema Globo de Rádios do Rio de Janeiro e São Paulo em Porto Alegre, bem como passagens pela Rede Bandeirantes, como gerente comercial da Rádio Bandeirantes AM, e pelo Grupo RBS. Neste último, atuou por 15 anos como contato das Rádios Itapema e Gaúcha, e gerente comercial da Rede Atlântida, RBS e da extinta TVCom. Nesse período, conquistou muitos prêmios de venda e aprendeu conhecimentos que levou como experiência para outras empresas.

Das organizações que atuou, destaca que a filiada da Globo foi a que mais lhe deu visão de mercado e permitiu que ela se consolidasse profissionalmente. “Não tenho uma vírgula para falar. Foi muito gratificante”, disse, e explica que isto se deve ao dinamismo, modernidade e estabelecimento de metas e objetivos na carreira. Atuou, ainda, como gerente de Mídia no Grupo Competence – hoje G5 –, onde liberava 64 anúncios todas as sextas-feiras, e como professora-convidada do curso de Publicidade e Propaganda da Famecos, da PUC. Ela caracteriza o tempo que passou em sala de aula, ministrando disciplina de Atendimento, como rejuvenescedor.

Em relação ao local preferido, afirma que todas as oportunidades que teve foram importantes para sua construção pessoal e profissional, e comparou que, assim como as relações amorosas, as atividades podem enjoar e não dar certo. “Sempre digo que é igual a namoro. Tem momentos que existe sintonia, em outros, não. Faz parte do processo”, justifica.

Simplicidade de corpo e alma

Nascida no Rio de Janeiro (RJ), filha de carioca com gaúcha, veio para Porto Alegre aos cinco anos, ao lado dos irmãos Cláudia, Virginia e Lúcio. A caçula traz poucas lembranças de uma infância cheia de mudanças em função do trabalho do pai, que resultou no nascimento de dois filhos no RJ, um em Buenos Aires e outro em Curitiba. Em contrapartida, tem viva na memória a dedicação da mãe com o irmão portador de Síndrome de Down, falecido há 10 anos, que não tinha nenhum outro problema de saúde. “Era levado demais e fujão”, recorda. A vinda para o Rio Grande do Sul se deu em razão de Zuleika, que sentiu necessidade de ficar próxima da família.

Os gestos maternos se refletem na relação que estabeleceu com a filha Paula, fruto da união estável de três décadas com o administrador de empresas Paulo Tupinamba. “A rebeldia da minha geração foi não debutar, nem casar”, brinca em relação a não ter casado na igreja, nem comemorado os 15 anos. A parceria e apoio são tantos que, para acompanhar a escolha da primogênita pelo vegetarianismo, a mãezona mudou os hábitos alimentares de todos da casa. “No último aniversário dela, fiz hambúrguer vegano. Os amigos adoraram”, expõe, animada.

Além disso, preocupada com a alimentação da estudante de Biologia da PUC, afirma que, pelo menos duas vezes por semana, prepara ovos no café da manhã. A refeição matutina é o único momento em que o trio consegue se encontrar com calma e conversar. Por isso, a publicitária se dedica em acordar mais cedo para preparar a mesa com frutas, pão integral e cereais. “Ao contrário da maioria, quando um de nós está de aniversário, cantamos o parabéns no café”, compara.

Residentes da Zona Sul da Capital, Aline conta que morar nessa região sempre foi seu sonho, pois entende que nessa área as pessoas são mais desencanadas com a aparência. “Lá a gente sai de chinelo e camiseta furada. Aquela da malha surradinha, mas superconfortável”, esclarece, e informa que há 14 anos, como moradora da Vila Assunção, pode realizar o desejo antigo. De uma simplicidade perceptível, defende o alto-astral da localidade.

Sem drama…

“Meu objetivo é entregar o governo da melhor forma possível. Depois de 31 de dezembro, vou tentar uma recolocação no mercado.”. É assim que define os próximos passos. Atualmente, é coordenadora de Publicidade da Prefeitura de Porto Alegre, função que exerce há 11 anos – sendo cinco na gestão de José Fogaça, de 2005 a 2010, e os últimos seis com José Fortunati.

Satisfeita com a oportunidade, lembra campanhas que deixarão saudade, como as de doenças sexualmente transmissíveis e da dengue. “Minhas campanhas preferidas são as de prevenção. Todo ano me apaixono mais um pouco por elas”, confessa, e explica que é gratificante poder levar informação e ajudar as pessoas. Recorda que a primeira ação deste gênero que realizou foi um desastre: “Não acertamos a mão”, admite.

Ao contrário do que muitos podem pensar, Aline não está chateada pelo fim deste ciclo no setor público. Desapegada, como ela mesma se considera, acredita que mais importante do que o amanhã é o hoje, e ter a possibilidade de fazer o melhor trabalho possível, independentemente do resultado das urnas. “Não tem drama, estou feliz”, afirma. Ela acredita que a graça da vida é que ela é cheia de desafios desde o momento em que nascemos, e este é só mais um que encarará.

… e sem saudosismos

A diversidade nos gostos pessoais se deve ao comportamento que os publicitários, geralmente, possuem. Teatro, cinema e espetáculos musicais de bandas de rock, pop e música popular brasileira não faltam na rotina de Aline. Dos que teve oportunidade de ir, enaltece o show do U2, comandada por Bono Vox, em Buenos Aires. Afirma, sem dúvidas, que foi o melhor da vida. “Muito melhor do que o dos Rolling Stones”, reforça. Geração rock, assiste filmes e séries policiais – em especial, CSI Miami, pois a trilha de abertura é do The Who, com a canção ‘Won’t Get Fooled Again’. Romances e “historinhas água com açúcar” não prendem sua atenção.

Apesar da febre Netflix, confessa que não é tão fã assim, e que só assistiu bastante no período pós-operatório de uma cirurgia de coluna, feita há dois meses. Também dedica as horas vagas às leituras de livros que recontem o passado e a História, cuja obra atual de cabeceira é o último exemplar da Trilogia Genghis Kan. “Estou apanhando para terminar”, brinca. Na mesma intensidade, curte se reunir com mais quatro casais de amigos . Amizade de longa data firmada fora dos ambientes de trabalho, jantares e viagens contam, hoje, com a presença dos filhos e namorados. “Gosto de tudo de bom que a vida oferece. No meio disso, a gente faz uma cirurgia, surge um problema de família ou alguém fica doente. Tu tens que saber dosar isso”, resume.

Apaixonada pela cidade do Rio de Janeiro, diz não existir vista mais bonita do que aquela proporcionada pelo sobrevoo de chegada, quando se pode ver de cima a Baía de Guanabara e o Cristo Redentor, no Corcovado. Sempre que pode, retorna à cidade natal com o marido ou com a filha, que também é encantada. Durante a estadia por lá, não deixa de caminhar pelo Arpoador, Leblon e Ipanema. “O Rio é de uma natureza pujante. Tudo misturado: mato, favela, cidade. Isso é maravilhoso”, enaltece.

Sem frescuras, defende que a vida é feita para ser vivida, pois, entre nascer e morrer, existem infinitas possibilidades. Para ela, não tem preço estar vivo e poder participar das mudanças da história. Nesse sentido, detesta saudosismo e pessoas presas ao passado. Garante que se o objetivo foi espantá-la de algum lugar, basta um chamado para uma festa de ex-funcionários ou dizer que alguma música é de sua época. “A expressão ‘nosso tempo’ me arrepia. Meu tempo é agora”, destaca.