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Ricardo Soletti: Propaganda por acaso

Redator na essência, Ricardo Soletti se divide entre o trabalho na agência, a vida em família e o blog Alambrado Colorado
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Ricardo Soletti_nov16_pqnaPor Karen Vidaleti

Ele admite que a intensidade com que se expressa, por vezes, já lhe rendeu fama negativa no mercado, mas garante que ali também habita um coração que vibra tanto com a conquista de um amigo quanto com os jogos do Colorado. Com 22 anos de mercado, Ricardo André Soletti reconhece que a entrada para a Publicidade não foi uma decisão muito pensada. Sua permanência na área, no entanto, não foi por acaso.

Com um pai e um irmão dentistas, uma psicóloga e uma fisioterapeuta entre as irmãs, até tentou manter a tradição da escolha por profissões da saúde. Foi por isso que insistiu no vestibular para Medicina mesmo aprovado e cursando Publicidade na Unisinos, até admitir para si que não tinha identificação com a área médica. “Meu pai me levava para o consultório com ele, me fazia vestir o jaleco. Eu o ajudava nas consultas, sabia exatamente o que ele usaria, os passos que daria. Me incomoda seguir sempre a mesma função.”

Por um tempo ainda conciliou as aulas da graduação com as do curso pré-vestibular para Medicina. A certeza de que a Publicidade era a opção certa veio mais tarde, reforçada nas primeiras oportunidades com o trabalho em agência. Em fevereiro de 1994, com o apoio da publicitária e escritora Paula Taitelbaum, conseguiu um estágio na Quality. “A Paula era irmã de uma ex-namorada e um dia me ligou dizendo que eu tinha que ir conversar com o diretor de Criação, que era o Humberto Vieira. Ele já foi perguntando se eu queria ser redator ou diretor de Arte. Pensei: nem entrei em uma agência e o cara já quer que eu seja diretor, não, diretor é demais. Escolhi ser redator”, resume.

A experiência, que deveria durar apenas um mês, foi prorrogada por outros três, com direito a benefícios como vale-transporte e uma máquina de escrever nova. E não demorou para conquistar uma vaga efetiva. De lá, seguiu para a SLM, onde permaneceu por quatro anos, antes de ir para Matriz e, posteriormente, para a Upper. Em 2001, chegou à Escala e, em um período de 11 anos, passou de quinta dupla a diretor de Criação e Prospecção. Outro movimento na carreira ocorreu em abril de 2012, quando chegou à Competence, então como diretor de Criação de unidade, e, desde junho de 2015, responde por toda a área na agência, ao lado de Marcelo Pires.

O dia mais feliz

Nas mais de duas décadas de mercado, é claro que alguns momentos se tornam especiais. Um deles foi a passagem de estagiário para redator efetivo na Quality. Quando ouviu de Humberto Vieira que a agência estava encerrando seu estágio, pensou que tivesse cometido erro grave, mas em seguida ouviu “nós vamos te contratar”. “Quando entrei na Criação, toda a agência estava lá dentro. Foi uma alegria! Cheguei em casa e disse para os meus pais que fui efetivado. Digo que esse foi o dia mais feliz da minha vida publicitária”, assegura.

Ter o trabalho reconhecido através dos títulos de Profissional e Redator do Ano, no Prêmio Colunistas e no Salão da Propaganda, ambos em 2007, também é motivo de orgulho, além de provar para os pais que existe vida fora da área médica. “Ser redator do ano sempre foi um sonho para mim. Não houve um dia em que eu fosse dormir e não pensasse no discurso que faria se fosse redator do ano. Levei meus pais para participarem do jantar e pude fazer um discurso e agradecer a todos que me apoiaram”, recorda. Coroando um ano especial, ainda recebeu a notícia de que seria pai.

Os três meses de trabalho em São Paulo, como diretor de Criação de Prospecção da Escala, também são lembrados pela riqueza de aprendizados. Nessa etapa, acredita ter amadurecido e crescido em autonomia e decisão ao lidar com uma equipe totalmente nova. “Sou bem chorão para despedidas e, no dia que saí – meio escondido –, vi que o pessoal estava nas janelas dando tchau. Foi muito difícil pelo lado pessoal, por ficar distante da minha filha, mas muito feliz pelo lado profissional, pelo crescimento.”

Com essa pasta?

Entre as referências, está o sócio-diretor da Matriz, Roberto Philomena, de quem diz ter recebido um dos ensinamentos que leva como dogma na vida: para ideia boa sair, tem que doer. Foi assim que aprendeu que é preciso ter quantidade para comparar e medir a qualidade da ideia. “Philomena é o Washington Olivetto do nosso mercado. É o cara que abriu caminhos e é uma super-referência de redação e de ética. É um cara por quem eu torço até hoje”, enfatiza.

Outro nome bastante citado é Eduardo Axelrud. Para Soletti, uma inspiração em criatividade e também “patrocinador de muitas ideias malucas”. “Axel foi pai, irmão, professor. Um cara que sempre deixou as duplas crescerem, que nunca competiu com a gente. Sempre muito correto”, pontua. Para concretizar o desejo de trabalhar na Escala, ao lado de Axel, recebeu a ajuda de outra referência, Luis Giudice, com quem fez dupla na SLM. “Eu tinha quatro anos de mercado e ele já era o Giudice, e mostrei minha pasta. Olhou e disse: ‘mas com essa pasta aqui, Ricardo, o Axel não vai te contratar nem para servir cafezinho. Deixa que amanhã, no sábado, vou re-layoutar esses anúncios para ti’”, conta.

Gerar identificação é algo que Soletti valoriza na propaganda. Por isso, entre os trabalhos que cita como os mais marcantes estão campanhas como ‘Crescer, todo mundo cresce. Difícil é evoluir’ para o Colégio Anchieta, a ação que marcou os 40 anos de Zero Hora ao contar histórias reais de leitores, e a ‘anticampanha desenvolvida para a Prefeitura de Curitiba, que expôs o desrespeito aos direitos dos deficientes. “As campanhas que mexem com as pessoas, que tiram elas do seu estado normal, seja para o bem ou para o mal, são as campanhas que mais me agradaram fazer.”

Marcas de infância

Natural de Porto Alegre, Soletti é o terceiro filho de Raul e Maria, na família que se completa com os irmãos Carlos, Mara e Daniela. A rua Coronel Feijó, no bairro Higienópolis, foi cenário e também o ponto de partida de muitas das lembranças de infância. Quando sobrava algum dinheiro, era através dela que ele, a mãe e os irmãos chegavam até a Avenida Assis Brasil, de onde pegavam o táxi – o então popular modelo fusca  – até o centro da cidade. Todo esse percurso para um programa simples, mas que ficou na memória: “A gente ia andar de escada rolante e comer cachorro-quente das Americanas”, diverte-se ao lembrar.

O pai trabalhava no consultório o dia inteiro, retornando para casa à noite e ao meio-dia para o almoço e uma tradicional sesta. “E ai de quem fizesse barulho naquele período”, comenta. Acompanhar os jogos do Internacional junto do pai pelo rádio, em uma época em que as partidas ainda eram pouco televisionadas, é outra atividade marcante daquele tempo, assim como o dia em que a família foi ao cinema assistir ao filme ‘E.T., o extraterrestre’, de Steven Spielberg, pela primeira vez.

Na escola, diz que era considerado sempre o “palhaço” da turma. Certa vez, quando os professores pediram aos estudantes que levassem um animal para a aula, o escolhido de Soletti foi a galinha Genivalda. O episódio, que já seria curioso, tornou-se ainda mais indiscreto quando a ave pôs um ovo e começou a cacarejar, interrompendo o discurso de boa tarde da irmã Mariana. A capacidade de contar histórias era outro aspecto pelo qual se destacava, a ponto de os alunos de outra turma questionarem: “Podem nos emprestar o Dedé (como era chamado, por conta do segundo nome) para contar umas histórias?”.

Recalques da vida

Hoje, o dia a dia fora da agência é dividido entre a família, a filha, Maria Clara, de 7 anos, e o blog Alambrado Colorado, que compartilha com outros cinco colegas. Desde que se separou, há cerca de um ano, o tempo com a pequena tem sido mais planejado. “Falhei em tentar ensinar ela a andar de bicicleta e nadar, mas tento sempre fazer uma coisa diferente. Dia desses fomos ao (Fundação) Iberê Camargo – não sei se ela entendeu, mas acho importante”, pondera. Outro programa que a dupla também tem feito junto são as idas a livrarias. E quando o assunto é estilo literário, são as obras de romance policial que ganham espaço na cabeceira. Entre as leituras mais recentes estão ‘Inferno’, de Dan Brown, e a biografia ‘Pablo Escobar – o meu pai’, de Juan Pablo Escobar. “Adoro sentir o cheiro de livro”, confessa.

Ainda que admita “não saber fritar um ovo”, assistir ao Masterchef é outra forma de passar o tempo. “Gosto de ver o cuidado com a comida e acho que o processo é parecido com a propaganda”, explica, acrescentando que, quando tem pouco tempo para concluir um texto, sente-se como um cozinheiro do programa. “A devoção ao prato, o processo preciso, a execução, a aprovação. É um filho, quase uma gestação”, analisa. “Dois recalques que tenho na vida são não saber cozinhar e não tocar nenhum instrumento”, enfatiza ao contar que é capaz de incluir em uma playlist Cyndi Lauper, Leandro e Leonardo, Frank Sinatra e Queen. Já o funk e o hip hop são os estilos que não cabem na lista. “Apesar de admirar algumas letras, não consigo gostar”, assume.

Soletti é assim: o cara que curte ficar sem fazer nada, só ‘zapeando’, sentado no sofá, mas também aquele que gosta de correr e já cumpriu uma meia maratona de 21 quilômetros. Oito ou 80, como ele diz. “Sou uma mulher em constante TPM. Nunca sabem se vou rir ou se vou chutar o balde, mas, no fim das contas, sou um louco com coração. A minha sorte é que as pessoas acabam gostando de mim”, reflete. Para o futuro, quer ver a filha crescer e deixar um legado é o que almeja. “Acho que, na verdade, a profissão é só um meio de fazer amigos. Sou muito feliz vendo as pessoas crescerem. Isso acaba sendo muito valioso para mim”, completa.