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Tabajara Ruas: Entre cinema e literatura

Arquiteto por formação, Tabajara Ruas deixou o desenho e direcionou a paixão pela arte para as telas de cinema e páginas de livros
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Tabajara

Por Gabriela Boesel

Ao soar o apito, ele corre para a janela ou para a calçada na frente de casa, em Uruguaiana, para ver o trem passar em direção à Argentina. Essa é a lembrança mais antiga da infância de Marcelino Tabajara Gutierrez Ruas, mais conhecido como Tabajara Ruas. Nascido na fronteira com o país hermano, o escritor e cineasta traduziu tal história em palavras e, assim, surgiu o livro ‘Perseguição e cerco a Juvêncio Gutierrez’, que figura na sua lista de 10 romances.

Arquiteto por formação, Tabajara, que viveu exilado no tempo da ditadura militar no Brasil por uma década, graduou-se na Dinamarca, país em que ficou por quatro anos. Também passou pelo Chile, Argentina, São Tomé e Príncipe, e Portugal, onde se aproximou mais fortemente da sétima arte. Mesmo com tantas idas e vindas, ele abandonou a estrada. Hoje, divide-se entre Porto Alegre e Florianópolis, pois, como explica, é em solo gaúcho que consegue colocar as ideias em prática. “É onde tem know-how profissional.” Enquanto isso, na capital catarinense, tem conforto e consegue descansar na casa que possui na Lagoa da Conceição.

Dividido entre o cinema e a literatura, ele garante que, se não fosse nem escritor, nem cineasta, atuaria na área de formação acadêmica, “afinal, Arquitetura não deixa de ser arte”. E diz mais: “Essa área também é voltada para a criatividade, é desenho”, explica. Curioso, como se autodenomina, Tabajara se diz um homem pacato e não gosta de ser chamado de senhor, mesmo nos idos dos 74 anos. Em tom de brincadeira, diz que “senhor é aquele velhinho que não consegue andar, que está mais acabado. Tu não estás vendo ninguém assim aqui na tua frente, não é?”.

No mundo da fantasia

“Desde sempre tive paixão por cinema. Na minha geração, a sétima arte era uma fantasia.” É assim que Tabajara explica a relação de amor com a profissão que abraçou quando já morava na Dinamarca. Lá, participou de equipes de filmagem e, ainda de forma tímida, foi deixando a Arquitetura de lado. Isso ocorreu de fato quando estava em Portugal, em sua última passagem pela Europa antes de retornar ao País natal.

Em terras portuguesas, fez o roteiro do filme ‘Kilas, o mau da fita’ (1980), em coprodução com o diretor luso José Fonseca e Costa. Também foi quando estava lá que lançou a primeira obra literária, ‘A Região Submersa’. “Eu queria fazer cinema e literatura. Então, me dediquei a isso”, resume.

Antes do exílio, cursou Arquitetura na Ufrgs e se graduou na Kongeligkun Academi, em Copenhage, na Dinamarca. Tabajara lembra que, na época da juventude, queria mesmo era estudar Letras, “mas isso era para meninas”, diz, “não ficava bem para um guri de Uruguaiana vir para Porto Alegre para estudar Letras. A pressão social me tirou do curso e até hoje eu lamento”, explica. Entretanto, a vocação falou mais forte e ele realizou o desejo de escrever. “Virei escritor, que não é mais uma profissão só de menina”, brinca.

Com base na publicidade

Trabalhos temporários foram o que Tabajara encontrou quando voltou ao País, já no fim da repressão militar. Sem diploma de Arquitetura validado no Brasil, foi acolhido no Correio do Povo, para o qual escreveu folhetins por um breve período. Também o fez para Zero Hora, cujo conteúdo resultou na obra ‘Os varões assinalados’.

O profissional também passou pela extinta agência MPM Propaganda, onde trabalhou como freelancer, além de ações publicitárias que fez diretamente para empresas. “Passei quase a vida toda sem estar vinculado a uma empresa. Só depois abri minha produtora”, simplifica, ao mencionar a Walper Ruas Produções, que criou em 1998 ao lado da companheira Lígia Walper, jornalista e produtora de filmes, com quem vive há 25 anos.

Companheiro nas vidas pessoal e profissional, o casal também divide a tarefa de cuidar dos filhos Lucas, 19 anos, e Tomás, de 15. Enquanto o primogênito escolheu seguir a vida de atleta como jogador profissional de rugbi, o caçula pretende seguir os passos dos pais. “O mais velho está bem encaminhado, mas o Tomás gosta de escrever e quer ir para o cinema, nessas desgraças aí”, ri da ironia do destino.

O concurso de ouro

Kikitos em Gramado, Passistas em Recife, Candangos em Brasília, e festivais na Espanha e na Itália foram conquistados com o longa ‘Netto perde sua alma’. O primeiro da lista de quatro filmes só saiu do papel e da imaginação do cineasta depois de vencer um concurso de roteiros, em 1998. Com a premiação no valor de R$ 1 milhão, a produção ganhou forma. “Quando vimos que ganhamos, caímos na realidade de que tínhamos que fazer um filme de batalhas, cavalos, explosões, cabeças cortadas”, lembra.

Mesmo com todas as dificuldades técnicas, encarou o desafio, porque, segundo ele, quem quer, faz. Por outro lado, confessa que só aceitou produzir a obra porque teve o aporte do concurso. Contou com a parceria de profissionais da publicidade, desde diretores de Arte até figurinista. “Nós tínhamos os profissionais do ramo, só faltava alguém que dirigisse”, explica.

Depois do primeiro desafio, Tabajara estava definitivamente inserido no mundo do cinema. Com roteiros escritos para São Paulo e Rio de Janeiro, além de conteúdo produzido em coautoria com outros cineastas, ele também contabiliza no seu portfólio as produções ‘Brizola – Tempos de Luta’, ‘Netto e o domador de cavalos’ e ‘Senhores da Guerra’, lançado neste ano.

Um cidadão pacato

Apesar da correria e da disposição que a profissão exige, o autor se define como um cidadão pacato. Como um bom cineasta, aprecia ir ao cinema e garante que assiste de tudo. “Para mim, o que diferencia é o talento, que pode estar tanto na sequência do Piratas do Caribe, quanto em algum filme do Irã”, defende.

Para ele, os efeitos especiais são a sensação do momento e todos os gêneros estão usufruindo da tecnologia para as grandes produções. “Isso é uma tendência, mas não me atrai. É legal, mas é só diversão”, analisa. Acredita que os filmes só atingem os telespectadores quando apresentam o drama humano. “Cinema não precisa ser realista, mas essa tendência tecnológica cansa.”

Na seara da Literatura, não é diferente. No topo da lista de gênero preferido está a ficção. Diz que já leu ensaios sobre filosofia e conteúdo voltado para produção cinematográfica, mas confessa que sempre volta para a ficção. Entre os autores que mais gosta, estão clássicos brasileiros como Guimarães Rosa, Graciliano Ramos e Erico Verissimo. O norte-americano William Faulkner também ganha destaque. “A literatura é muito vasta e variada. Às vezes, o autor favorito é o que tu estás lendo no momento. Na verdade, eu gosto de todos os que me deram prazer”, declara.

Nos momentos de folga, assiste futebol. Colorado de coração, a paixão pelo esporte vem da adolescência, quando, ainda em Uruguaiana, se dedicava profissionalmente ao campo. Desde que o filho Lucas passou a integrar a equipe do Charrua, o cineasta também passou a acompanhar o rúgbi mais de perto.

Agnóstico declarado, acha que religião fez um grande mal para o mundo, pois “é uma coisa do medo”, como tenta explicar. Criado em uma família tradicionalmente católica, acredita que a prática religiosa criou deformidades no mundo, embora pregue a bondade. “É o mesmo discurso dos políticos que dizem uma coisa e fazem outra”, compara. Crê na vida e defende que não se pode negar o mistério da existência, que, segundo ele, não tem explicação.

Abolir o futuro

Aposentadoria não é um assunto do qual costuma falar, afinal, trabalha no que gosta e não pensa em parar. A paixão que nasceu nas décadas de 1950 e 1960 é notável na fala do escritor, que cresceu assistindo a produções norte-americanas e europeias nas matinés de domingo. “Aqueles filmes de faroeste povoaram a imaginação daquele garoto”, recorda, “e a vocação de contar histórias se juntou às narrativas escritas e audiovisuais.”

Sobre o que vem pela frente, é objetivo: “Pretendo abolir o futuro. Não pensar nele”. Quer, ainda, escrever dois ou três livros, além de três filmes que já estão esquematizados, inclusive com contratos assinados. “Tenho muito tempo de vida e, se não for atropelado por um caminhão, planejo uma série de coisas para fazer”, diz, aos risos.