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Valéria Ochôa: Pelas pessoas

Confrontar padrões e construir valores são tarefas que a jornalista Valéria Ochôa acostumou-se a manter ao longo dos dias
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Valéria Ochôa 1

Valéria Ochôa

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Por Márcia Christofoli

Sensível à pluralidade e atenta às demandas sociais, Valéria Ochôa escolheu exercitar os fundamentos da cidadania em todos os momentos do dia. Jornalista há 26 anos, construiu a própria história, profissional e pessoal, tendo como referência os valores familiares, a racionalidade e os direitos das pessoas. Há duas décadas, integra a equipe do Sindicato dos Professores do Ensino Privado do Rio Grande do Sul (Sinpro/RS) e, desde 1999, está à frente da assessoria de comunicação da entidade.

Nos tempos de estudante, as Ciências Humanas eram onde realmente encontrava afinidade. A escolha pela profissão, portanto, não poderia ficar distante. Foi assim que se graduou em Comunicação Social – Jornalismo, pela Unisinos, em 1990. “Sempre gostei muito de ler roteiros, literatura, do próprio jornalismo, a gente ouvia muito rádio. Meu pai acompanhava radiojornalismo e também estava sempre ligado aos telejornais. Isso tudo foi me conduzindo para esta área”, acredita.

Com o diploma em mãos, encontrou no Jornal do Comércio a primeira experiência como profissional. Na sucursal de Novo Hamburgo, produziu reportagens para a editoria de cidades, acompanhando especialmente o setor calçadista, principal motor econômico da região. Ainda encarou uma jornada dupla, conciliando o trabalho no jornal do Vale do Sinos com a rotina no Diário de Canoas, onde colaborava com matérias que contemplavam das editorias de Polícia a Política. Adicionando alguns quilômetros ao percurso diário, uma terceira cidade entrava no roteiro: a capital gaúcha, onde já residia na época. “Saía de Porto Alegre cedo, ia a Novo Hamburgo, voltava até Canoas e depois para a Capital. Foi um ano assim”, simplifica, talvez, com a mesma energia.

São Paulo também foi a casa de Valéria por um tempo. Casada, iniciou mestrado na Universidade de São Paulo (USP), entretanto, o curso precisou ser interrompido em função de uma gravidez delicada. “Foram nove meses sem poder fazer muitos movimentos e passei três ou quatro meses praticamente deitada”, relata. O esforço foi recompensado com o nascimento de Luiza, atualmente com 21 anos. Na volta a Porto Alegre, a carreira ainda passaria pela redação de Zero Hora, antes de chegar ao Sinpro, em junho de 1996.

No sindicato, Valéria acompanha a história do jornal Extra Classe, que completou duas décadas neste ano, desde a sua terceira edição. Chegou à entidade para produzir conteúdo para o veículo e, cerca de três anos depois, assumiu a coordenação da assessoria de comunicação do órgão. “Quem vê de fora, não tem a noção do que o Sinpro realmente é, um sindicato muito especial, com uma atuação muito grande e intensa. Precisamos dar conta do planejamento de todos os projetos, da fundação (Ecarta) e de todos os veículos de comunicação”, resume. A experiência da USP também não seria a última de Valéria na sala de aula. Em 2005, concluiu a pós-graduação em Marketing pela ESPM.

Ouvir para gerir

Passar de repórter a gestora também não foi tarefa fácil. Embora já estivesse ambientada à equipe, reconhece que ampliar os horizontes da produção de conteúdo para as questões de orçamento, veiculação e planejamento representou uma etapa importante na carreira. “Procuro ouvir e perceber as limitações e potencialidades de cada um”, diz, ao definir a gestora em si. Além do jornal, estão sob sua coordenação as estratégias de comunicação relacionadas à revista, ao site e às redes sociais da entidade. O movimento não para por aí, já que os projetos vão se somando. “Neste ano, lançamos o livro dos 20 anos do Extra Classe. Renovamos o projeto gráfico, lançamos a Extra Classe TV – hospedada no portal do sindicato e com canal próprio no YouTube – e também o aplicativo do Sinpro. Tem que ter bastante energia”, enfatiza.

Manter a credibilidade do jornal durante tanto tempo é, para ela, um de seus principais desafios junto ao departamento de comunicação, composto por cinco jornalistas e um agente comercial, com o apoio de uma rede de profissionais freelance. “Fazemos uma produção de conteúdo de relevância não só para os professores do ensino privado, mas para toda a sociedade, e durante um período muito grande. É um trabalho árduo garantir o padrão de qualidade de conteúdo e manter a equipe unida”, assegura. Como gestora, admite que sente certa saudade da vida de repórter. “Gosto do desafio de escrever uma reportagem, de ir atrás, apurar, gastar sola de sapato”, esclarece.

A jornalista guarda carinho especial pela Fundação Ecarta – fundada em 2003 e lançada dois anos depois pelo Sinpro -, da qual também é diretora. “Fizemos a fundação nascer, trabalhando desde o estatuto e ela já tem 10 anos. Isso foi muito importante”, sintetiza. Os projetos de comunicação e a contribuição deles para o universo cultural também são destacados por ela, assim como as conquistas do Extra Classe. “A cada prêmio de Jornalismo, a gente fica mais feliz. São 10 edições anuais contra 365 dos diários”, lembra, satisfeita.

Uma vida em família

Caçula da família composta por oito irmãos, Valéria é filha do eletricista Eurico e da dona de casa Ana (ambos falecidos). Os pais, segundo define, foram pessoas muito agregadoras e inclusivas, que contribuíram com ensinamentos que preserva até hoje. Da pequena Iraí, na região Norte do Estado, subir em árvores e os banhos de rio fazem partes de uma infância feliz e tranquila. “Lembro de me sentir protegida, amada. Sempre tive a casa quentinha”, afirma. Ainda hoje, se diz muito próxima à cidade natal, que ainda abriga a antiga casa dos pais, preservada pela família e que se tornou quase um refúgio. “A gente não tem uma vida social em Iraí. Então, quando vamos, ficamos muito em casa, que é como uma reserva florestal”, relata.

De Iraí, saiu aos 14 anos para viver com uma irmã, Vani, em Brasília. Lá, concluiu o Ensino Médio, antes de retornar ao Rio Grande do Sul. Com a independência adquirida através da educação proporcionada pelos pais, a capital gaúcha, onde já viviam cinco de seus irmãos, foi o lugar escolhido para dividir apartamento com uma amiga, aos 16 anos. “Em cidade do interior, a gente cresce com os pais incentivando a estudar. Desde pequena, a expectativa era sair de casa, conhecer o mundo, mas, sempre, com muito foco no estudo”, frisa.

Também morou na Casa do Estudante de São Leopoldo, enquanto graduanda da Unisinos. Três anos depois, quando recebeu o diploma, ganhou mais um passe para a independência, o próprio apartamento em Porto Alegre. “Foi o presente de formatura do meu pai. Ele me deu como uma base para caminhar sozinha”, explica. No espaço, chegou a dividir despesas com uma amiga e um irmão, e também empreendeu. Ao lado de outros dois colegas, abriu uma pequena empresa de produção de vídeo e fotografia. “Era uma tentativa de entrar no mercado de produção audiovisual. A gente fazia muito festa de aniversário. Durante um tempo, até deu certo”, comenta, ao contar que conciliava o trabalho com a atuação na reportagem do Jornal do Comércio.

Duas paixões, muito orgulho

Divorciada, é com as filhas Luiza, de 21 anos, e Manoela, 8, que divide a casa, os dias e as pequenas alegrias da vida. Com elas, aproveita os passeios, as pequenas viagens e se dedica ao que considera mais revelante, o convívio diário e “o afeto com responsabilidade”. Luiza cursa o 8º semestre de Direito, na Uniritter, enquanto Manoela vive intensamente a infância. Se a gestação da primeira foi delicada, a segunda chegou de surpresa. Hoje, ambas são só orgulho para a mãe. A união e a valorização da família constituem valores que herdou dos pais e, agora, transmite às meninas.“Somos muito unidas”, reforça.

Manter a personalidade questionadora sempre viva é algo que busca ensinar às filhas no dia a dia. “Olhar o outro como pessoa, com respeito, independentemente de opinião. Questionar as hierarquias, a classe social. Questionar conceitos e preconceitos em torno de raças, gêneros. Isso é muito importante e acho que já estou conseguindo, porque a Luiza é muito ativista nesta área de gênero”, explica. Os direitos das pessoas, reforça Valéria, devem ser preservados sempre. “Claro que a gente também comete deslizes, mas tem que estar sempre atento para não excluir, não segregar”, ressalta.

Essência viva

Os raros momentos de folga são dedicados aos livros, shows, sessões de cinema ou filmes em casa, sempre junto da família ou dos amigos. Na Literatura, acompanha bastante os autores contemporâneos. Entre as leituras deste ano, além das revistas semanais, já passaram pela cabeceira ‘O Quarto Poder – Uma outra história’, de Paulo Henrique Amorim, e ‘O Brasil’, de Mino Carta. No cinema, o gênero favorito é o drama, revela ao indicar o filme ‘Ele está de volta’, disponível na Netflix. Já na gastronomia, ela não faz distinções e, nesse ponto, é enfática: “Gosto de comer de tudo”. As massas e comidas simples, no entanto, têm lugar especial no cardápio, principalmente se for na companhia de amigos. “Gostamos muito de nos reunir em torno de uma mesa”, relata, ao recordar a ascendência italiana.

Com energia de sobra, é alguém que quer o bem comum, que se preocupa em contemplar todas as pessoas e defende uma sociedade onde todos tenham oportunidades iguais. Embora não pense em afastar-se da profissão tão cedo, alimenta o desejo de viajar mais. “Um dos meus sonhos que nunca realizei é ser uma cidadã do mundo. Tive que optar e optei pela minha família”, frisa, acrescentando que, apesar disso, visitar lugares como o Oriente Médio e a África segue nos planos.

Mesmo que projetar o futuro seja impossível, Valéria tem uma convicção: a essência sempre se manterá a mesma. “Tenho duas grandes referências de vida, que são a minha família e meu trabalho. Sou uma pessoa muito agitada e estou sempre fazendo mais de uma coisa ao mesmo tempo. Posso mudar de ambiente, mas não me vejo muito diferente do que sou hoje”, reflete.

*Com colaboração de Karen Vidaleti