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Francisco Amorim: Visão social

Seja na reportagem ou na academia, o jornalista Francisco Amorim mantém a essência investigativa
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Francisco Amorim | Crédito: Marjuliê Martini

Francisco Amorim | Crédito: Marjuliê Martini

Por Karen Vidaleti

O valor da apuração como contribuição social é frequentemente lembrado por Francisco Amorim. Jornalista, mestre em Sociologia e agora doutorando, entende que todo repórter é um inquieto, movido pela vontade de saber e de compartilhar. Com 20 anos de profissão, defende a confluência entre um universo mais coletivo, do Jornalismo, e outro mais reflexivo, o científico. “Ser repórter tem uma característica muito forte de querer saber e dividir. Sou repórter e ser repórter é ser um investigador social”, acredita.

Graduado pela Ufrgs em 2000, começou a carreira no Jornal VS, no Vale do Sinos, onde permaneceu até 2005. Em Zero Hora, contribuiu com as editorias Central do Interior, Economia, Geral e Polícia, e integrou o grupo de Jornalismo Investigativo do jornal, produzindo também reportagens multimídia e webdocumentários como ‘O Caminho das Águas’, antes de afastar-se da redação em 2013 para se dedicar ao Doutorado, na Ufrgs. Hoje, integra os grupos de pesquisa Jornalismo Digital, onde estuda o emprego do jornalismo guiado por dados e do jornalismo investigativo pelas imprensas brasileira e latino-americana, e Violência e Cidadania, voltado à análise da mídia, violência e criminalidade urbana.

Muda o ambiente, altera-se o ritmo de trabalho, mas não o gosto pela apuração, um dos aspectos que considera comum a esses dois mundos. “Em algum momento, eles se separaram, mas o objeto empírico continua sendo o mesmo, a sociedade”, diz. Para ele, muitas das estratégias de conhecimento se assemelham em ambas as áreas, embora difiram na entrega final. “Um ex-editor da Zero Hora, Altair Nobre, diz que o repórter tem que iluminar a cena. O sociólogo também faz isso, mas de maneira mais profunda”, pondera.

De todas as formas

Entrevistas, análise de documentos, campana, câmera oculta e cruzamento de dados. Unir as mais variadas técnicas de investigação é algo que se acostumou a fazer na rotina de repórter. O resultado são reportagens como ‘Máfia dos Táxis’, série publicada em 2011 e retomada em 2013, que apontou uma série de irregularidades no processo de permissões de táxis, indicou falhas na fiscalização e culminou em mudanças na legislação.

A proximidade com os números remete ao pai, Paulo Amorim, que atuava na área financeira. “Ele levava trabalho para casa e uma daquelas calculadoras com rolinho de papel. Sempre gostei muito de Matemática. Para mim, todo o conhecimento carrega um pouco de emoção”, sintetiza, ao lembrar que o uso de planilhas de Excel até lhe rendeu o apelido ‘Chico das tabelas’ na redação de ZH. Foi pela capacidade em lidar com esse tipo de ferramenta que tomou para si a tarefa de analisar as informações de inspeções do alvará de incêndio da boate Kiss, de Santa Maria, em 2013. “Se o repórter é um investigador social, em Santa Maria a gente conseguiu provar isso”, enfatiza.

Outra investigação marcante refere-se ao episódio que se tornou conhecido como Caso Ilza. A aposentada Ilza Lima Duarte, 77 anos, fora encontrada morta em seu apartamento no centro de Porto Alegre, em 2008. Inicialmente, o óbito foi registrado como causa natural, no entanto, a apuração do jornalista mostrou uma falha na comunicação entre a delegacia e o Departamento Médico Legal, que apresentou certidão revelando que a morte aconteceu por estrangulamento. O inquérito foi reaberto e os acusados serão levados a júri popular. “O Jornalismo não deixou que o caso fosse esquecido e que a polícia concluísse a investigação. Tudo isso, eu me emociono, foi a partir de um grupo de senhoras, que foi buscar no Jornalismo o que não estava encontrando em outro lugar. Esse caso me ensinou uma das principais lições que o repórter tem que aprender: sempre desconfiar que está sendo enrolado e continuar checando.”

Conhecimento ao lado

Francisco crê que a capacidade de observação, análise de documentos e proximidade com especialistas fazem a diferença. “O jornalista é um generalista. Por isso, tem que se cercar de pessoas que entendam”, ao lembrar que na cobertura da Kiss contou com a ajuda de engenheiros e especialistas. E como absorver conhecimento é inerente à presença em sala de aula, também traz suas referências no Jornalismo e na Sociologia, como os teóricos Durkheim e Edgar Morin, o colombiano Gabriel García Márquez, o italiano Roberto Saviano e a mexicana Anabel Hernandez.

Mas a principal inspiração vem de pessoas com quem já dividiu o espaço de trabalho, colegas como Nilson Mariano, Humberto Trezzi e Carlos Wagner. “No meu mundo ideal, juntaria os três e daria um big repórter. Mariano com sua sensibilidade para captar as coisas e texto elegante. Trezzi pela capacidade de apuração, eficiente, rápido, Wagner que carrega essa capacidade do jornalista de convencer as pessoas a falarem”. Junto aos três, cita ainda o repórter fotográfico Antonio Paz, falecido recentemente. Com o profissional, com quem trabalhou no Grupo Sinos, diz ter aprendido os conceitos necessários para produzir uma foto jornalística. “Esses quatro caras me fizeram muito completo, porque tive aula com eles”, enfatiza.

Das raízes

A relação com a leitura foi construída desde menino, através dos livros, gibis e enciclopédias. Enquanto os desenhos animados na TV eram o passatempo de muitas crianças, não raro Francisco mudava de canal. “Minha mãe acha que a culpa de eu ser jornalista é dela, porque desde pequeno tinha uma predileção não por desenhos, mas por documentários”, reflete.

Porto-alegrense, o filho único de Paulo e Nair Amorim cresceu em Canoas, próximo à família materna. Viver em uma casa sem muro deixou lembranças especiais, como reunir a turma da rua para jogar bola. Com o pai trabalhando na área financeira e a mãe como dona de casa que mais tarde voltou a trabalhar, foi com esforço que, juntos, garantiram ao filho os estudos em ensino privado. “A não existência de um irmão, talvez, tenha me tornado ainda mais sociável. O tempo todo acessava informações sem preconceito – coisa que jornalista não pode ter – e acho que isso me tornou um pouco mais plural”, avalia.

No Colégio Maria Auxiliadora de Canoas, participou do grêmio estudantil e se envolveu com a rádio da escola, no entanto, admite que demorou a perceber que entraria para a Comunicação. As assessorias de comunicação do Governo do Estado, da Prefeitura de Porto Alegre e do Procon estadual foram experiências que considera essenciais para o começo da profissão.

O gosto pelos documentários segue intocado, tanto que o fato de canais como Discovery, National Geographic e History já arrancou comentários da namorada, a também jornalista Marjuliê Martini. “Ela já me disse: eu gosto, mas estou meio cansada de assistir”, admite. Como muitos casais na comunicação, foram apresentados pela profissão – ele, repórter; ela, assessora no Ministério Público do Rio Grande do Sul – e se aproximaram “com um pouco de conversa de bar”, como ele diz. Juntos há cerca de dois anos, hoje dividem o apartamento, viagens e projetos jornalísticos. “É uma relação muito pautada na cumplicidade”, define.

Experienciar é a ordem

Se a leitura é uma opção para o lazer, o apreço pela informação sempre prevalece. Ele garante que é mais fácil encontrá-lo lendo teorias como ‘O Método – A vida da vida’, de Edgar Morin, do que o literário ‘Crime e Castigo’, de Fiódor Dostoiévski, embora tenha relido a obra recentemente. Nas viagens curte mesmo é explorar o lugar, conhecendo de perto a diversidade própria da cidade. “Até posso tirar a selfie no Cristo Redentor, mas também quero tomar cerveja que o carioca toma”, exemplifica. Foi assim na visita a Buenos Aires, quando percorreu o Caminito, compartilhou café e conversas com os moradores, conheceu por dentro as residências mais distantes das casinhas coloridas que compõem o cartão-postal e de perto a realidade de quem vive ali.

A interação com as pessoas, seja onde for, também é algo que valoriza, assim como o ócio criativo. “Sou um cara de hábitos muito simples. Acho que tem que fazer as coisas com prazer”, garante, acrescentando que pode passar o dia bebendo cerveja com amigos na praia só pela satisfação do momento. “O que vale da vida é experienciar. Tento levar a vida mais ou menos assim, mesmo quando as coisas dão erradas.”

Outro elemento que mantém presente desde a infância é o esporte. No futebol, joga como goleiro; no vôlei, integra um time criado dentro de Zero Hora, em 2012; e tem ainda o basquete e os treinos na academia. Conta que herdou dos pais o fascínio por caminhar, o que se tornou um hobby. “Vai parecer bobagem, mas sigo um pouco esse ideário grego de ‘mente sã, corpo são’. Se eu passo uma semana sem conseguir me dedicar a uma leitura ou a um exercício, as duas coisas me incomodam”, assume.

Contribuir e retribuir

Aos 40 anos, acredita que, com a docência, abriu uma nova frente de trabalho, que só faz sentido se aliada à reportagem. Com a crença de que repórter nunca deixa de ser repórter, os planos incluem dedicação mais intensa à academia, seja na sala de aula, através da pesquisa ou de projetos de investigação, mas também o retorno à reportagem. “Todo profissional que consiga alcançar algum objetivo tem que repassar um pouco o seu conhecimento. Eu recebi conhecimento de pessoas como o Trezzi e o Antonio Paz. É algo que precisa ser retribuído”, compreende.

Distante de perspectivas negativas, observa que as possibilidades nunca foram tão favoráveis ao Jornalismo, que, atualmente, dispõe de ferramentas para que se produza conteúdo sem a necessidade de manter a estrutura de grandes corporações, o que favorece iniciativas como pequenas empresas e coletivos jornalísticos. “O que está sucumbindo é um modelo industrial, que a gente brincava chamando de fábrica de salsicha. Estamos entrando – fazendo uma analogia com a gastronomia – em um período mais gourmet, em que as pessoas querem informações de qualidade e credibilidade. O Jornalismo nunca esteve tão vivo”, analisa.

Com a certeza de que o papel do jornalista nunca esteve tão evidente, se diz contra a onda de pessimismo que atinge muitas pessoas na profissão. Por isso, buscar respostas de impacto social e caminhos para o futuro do repórter é um objetivo que propôs para si, na reportagem e na docência. “Sou otimista, mas sou pragmático”, admite. Para ele, as mudanças impactam o modelo econômico, mas não o papel do profissional. “A gente vai ter que ser menos operário e mais engenheiro da informação”, ratifica.