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Paulo Germano: Missão a cumprir

De guitarrista a colunista, Paulo Germano deu um giro de 180 graus e mudou completamente o seu destino
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Paulo Germano | Divulgação

Paulo Germano | Divulgação

Por Gabriela Boesel

Quem vê o jornalista Paulo Germano hoje não imagina que, na adolescência, usava calça colada, camiseta curta, cinto de spike e uma cabeleira black power. O jovem aspirante aos palcos e fã número um dos Beatles vislumbrava um futuro de sucesso e se via claramente sendo ovacionado pelo público. Alimentava o sonho de ter uma banda e ser melhor que o Rolling Stones. A realidade hoje é bem diferente, o sonho mudou, a vida o transformou, mas os holofotes não deixaram de iluminá-lo.

Colunista de Zero Hora desde março deste ano, Paulo Germano, 34 anos, buscou no Jornalismo a chance de se envolver com a música, e identificou na profissão a oportunidade de contribuir com a sociedade. Uma mudança de paradigma que foi crucial para o futuro que hoje o recompensa com a visibilidade que tanto buscava quando jovem. “Antes, eu tinha um projeto de vida. Quando eu comecei a entender mais o Jornalismo, aquele projeto de vida mudou. Eu vi que tinha outra missão a cumprir, que era muito maior.”

Inseguro e exigente, confessa que não é autossuficiente e que precisa da aprovação dos outros para se sentir mais tranquilo. Revela que a relação com o ofício é sofrida e que escrever, para ele, é torturante. “Se a primeira frase não ficar perfeita, eu não vou para a próxima e isso é um inferno”, reconhece. Por se exigir assim, o impacto no leitor, seja ele positivo ou não, é a maior recompensa ao trabalho árduo que diz enfrentar na redação.

A busca pelo aplauso

Querer brilhar não se resume à vontade pura e simples de ser famoso. Para Paulo Germano, o aplauso tem um significado maior, é a afirmação de um bom trabalho que ele mesmo não consegue aprovar. Pelo espaço que ocupa hoje, agradece a mentores que, como ele diz, “acreditaram em mim como eu não acreditava”. José Antonio Vieira da Cunha, sócio-diretor da agência Moove, e Rosane de Oliveira e Dione Kuhn, de Zero Hora, são três dos exemplos que cita e agradece pelas chances oportunizadas na carreira.

Ao jornalista que comanda a agência de publicidade, o colunista se refere como alguém que o ajudou quando mais precisava. Na época como diretor do portal Coletiva.net, onde Paulo Germano estagiava, Vieira conseguiu encaminhar o futuro profissional para a primeira oportunidade em Zero Hora.  “O Vieira fez de tudo para me ajudar. No fim do meu estágio, ele marcou um perfil e me disse que seria a entrevista da minha vida”, relembra. O perfilado: Marcelo Rech, à época diretor de Redação do jornal do Grupo RBS. Do outro lado, Vieira havia pedido ao entrevistado para ficar de olho no entrevistador. Não deu outra: “Na primeira oportunidade, o Rech me chamou para ocupar uma vaga de freelancer.”

Foi uma passagem rápida, de um ano (2006 a 2007), pois o contrato não foi renovado. O motivo foi a falta de amadurecimento. Diagnosticado pelo então editor Altair Nobre – que hoje é editor-chefe da Revista Press AD –, o problema foi explicado com um exemplo que o fez entender e não se ressentir. “Ele me disse que tinha certeza de que eu voltaria. Disse que aquele não era um momento bom pra mim, pois eu ainda tinha muito o que crescer e citou, inclusive, Luis Fernando Verissimo, que escreveu o primeiro livro com 37 anos. Isso me tranquilizou.”

A separação não durou muito. Cinco meses depois, após uma breve passagem pela assessoria de comunicação da Ospa, voltou para trabalhar no site www.zerohora.com, que estava sendo construído.

Da música para o Jornalismo

A música é fator relevante e constante na vida de Paulo Germano. Afinal, foi ela que o levou a optar por estudar Jornalismo na Famecos, da PUC, pois, se não seguisse carreira na banda, desejava, ao menos, escrever sobre rock. Na volta para ZH, agora como contratado, começou pela editoria de Geral, mas nunca deixou de mirar o Segundo Caderno, onde queria atuar para realizar seu sonho de falar sobre música. Conseguiu. Em 2009, passou a assinar a coluna semanal Remix, que abordava a cultura alternativa e a cena roqueira da cidade. De alguma forma, chegou onde queria chegar, como ele mesmo reconhece.

A euforia, no entanto, não durou muito. O assunto já não o conquistava como antes e a frustração com o trabalho apareceu. Foi aí que descobriu que o Jornalismo tinha outra proposta. “Comecei a sentir que eu tinha uma missão que eu não havia percebido antes”, recorda e acrescenta: “Pode soar idealista, entretanto, penso que a nossa profissão não tem nenhum sentido se não for para contribuir positivamente para a sociedade. Clichê e piegas, mas, sem isso, não honramos o pilar da nossa profissão.”

Com a insegurança sempre presente, Paulo Germano diz que tem sorte de trabalhar com pessoas que mostraram que ele é melhor do que achava que era. Tanto que foi convidado para integrar a equipe de Política do jornal. Nem o estilo roqueiro impediu que Rosane de Oliveira e Dione Kuhn o chamassem. “Mesmo inseguro, aceitei, pois achei que era um chamado.” E era, pois foi na editoria que entendeu o que queria fazer da vida e o espaço que queria ocupar enquanto jornalista. “Ali me senti contribuindo de fato, de uma forma um pouco mais palpável, para a sociedade.”

Construção da marca

O envolvimento com a profissão tomou uma proporção tão intensa que a música ficou em segundo plano. Fascinado pelo trabalho, Paulo Germano deixou a banda Stratopumas, que se desfez, para se dedicar em tempo integral ao Jornalismo. Depois da Política, foi repórter investigativo no Esporte, onde revelou o esquema milionário que envolvia a antiga gestão de Paulo Odone, então presidente do Grêmio, e a torcida organizada. Isso lhe rendeu desavenças com os torcedores da Geral e a impossibilidade de frequentar o estádio, mesmo sendo gremista. Hoje confessa: “Não gosto de futebol, gosto do Grêmio. Mas isso não é essencial na minha vida”, salienta.

Foi repórter especial no Caderno Proa, e passou a ser chamado para projetos variados, que não eram de uma editoria especifica. Como já havia atuado como interino de outros colunistas como Martha Medeiros, David Coimbra e Luis Fernando Verissimo, foi traçando o caminho para o protagonismo. “Isso foi me dando uma marca”. Quando o Grupo RBS integrou as edições de final de semana, ele ganhou seu espaço semanal no Caderno DOC.

Um cara que pensa

Saber pensar por conta própria é o grande desejo de Paulo Germano. Na verdade, como ele explica, pensar já seria por conta própria, se não fosse o momento que vivemos atualmente. Ele esclarece: “As pessoas seguem cartilhas e reproduzem o pensamento dos outros. Eu não quero ser assim, quero pensar por minha conta”.

Liberal na maneira de pensar e se expressar, o filho mais velho dos publicitários Paulo Boa Nova e Ida Elisabeth Moreira também tem suas crenças tradicionais, como é o caso do casamento e da família. “Eu quero ter uma família, casar com uma mulher que vai me acompanhar até ser velho.”

Fora da redação, o vencedor dos troféus Colunista do Ano pelo Prêmio Press, Jornalista do Ano pelo Grupo RBS e Cronista do Ano pelo Prêmio ARI, todos conquistados neste ano, busca estabelecer projetos de vida e caminhos para trilhar. Costuma dizer que está começando a deixar a juventude para virar adulto, atitude que está exigindo bastante esforço de sua parte. “Não é fácil virar gente grande.”

Boêmio por natureza, revela que os ambientes que mais gosta de frequentar são a redação e a mesa de bar. Engana-se quem pensa que é uma desculpa para beber. Há cinco anos, o jornalista trocou a cerveja pela Coca-Cola Zero, após perceber que estava exagerando. “Os meus momentos de lazer estavam sempre ligados ao álcool. Me sentia refém da bebida e de outras coisas”, conta. Consciente dos seus atos, buscou ajuda antes de deixar tudo o que conquistou ir por água abaixo. “Aquilo estava me fazendo mal. Se eu não parasse, perderia meu emprego e a boa relação que tenho com minha família.” O que restou daquela fase foram o gosto pela conversa de bar e o vício em cigarro.

Amante de carne vermelha e queijo, diz que tem que se cuidar, pois sabe que este não é um hábito muito saudável. Para compensar, faz caminhadas e corre no Parque Moinhos de Vento, que fica perto de casa. “Acordar cedo para correr também é ser adulto”, pontua.

Sobre religião, prefere se definir agnóstico, embora tenha formação católica. “Invejo os ateus e os fiéis que têm convicções invioláveis. Como eles têm tanta certeza de que Deus existe ou não?”, questiona, e acrescenta que, apesar disso, é muito místico e adora ir a uma cartomante. “Se der tudo errado, ao menos é divertido”, brinca. Também admira terreiro de Umbanda e Centro Espírita, pois acha que esses lugares têm uma energia “pura, leve e doce”, e resume: “Gosto da espiritualidade, mas se Deus existe ou não, eu não faço a menor ideia”.

Convicto e, ao mesmo tempo, crítico de si mesmo, Paulo Germano é mesmo assim, um cara que pensa tanto que acaba tendo medo de pensar tudo errado. Hoje, agradece ao Altair Nobre por ter-lhe poupado há 10 anos e aproveita para deixar um recado aos futuros profissionais: ter calma, pois tudo tem seu tempo. Mesmo na mira dos holofotes, tem ciência de que tem muito o que aprender. E crescer. Sabe que é, ainda, um jovem jornalista. “Estou engatinhando.”