Notícias de mercado da comunicação do RS.

Home Perfil Cláudio Franco: Intenso no amor e nos negócios

Cláudio Franco: Intenso no amor e nos negócios

Publicitário, ele é o típico escorpiano: não desperdiça boas risadas e intensidade na rotina
Compartilhar
,

Lisa Roos FotografiaPor Cinthia Dias

Em uma rua bem arborizada na região do bairro Moinhos de Vento, em Porto Alegre, Cláudio Franco inicia sua agenda, diariamente, às 8h, logo após deixar a filha Laura, 15 anos, na escola. Depois de cumprir os deveres paternos, chega ao escritório, cuja decoração descolada foi escolhida a dedo por ele e pela esposa, Letícia, com quem compartilha a vida há quase 20 anos. Após ficar cinco anos fora de agência, atuando como consultor criativo, decidiu investir em um negócio próprio, com o qual pudesse se envolver mais com sua paixão: design editorial e identidade visual, através da criação de revistas, catálogos e outros materiais gráficos. “Pensava muito em empreender. Quando saí da faculdade, não se falava nisso. Hoje, se pensa muito mais, principalmente pela qualidade de vida. Percebo que trabalho mais, mas com domínio”, pondera o diretor da Desenho Design, que antes não podia buscar a filha no colégio pela rotina frenética das agências.

Totalmente apaixonado pelo trabalho que desenvolve na sala 503 do edifício Macau, onde cada detalhe foi pensado cuidadosamente para receber a intensidade profissional, exibe peças em uma pequena mesa de centro e em uma cristaleira de madeira, próxima à porta de entrada. Das paredes cinzas, contrastadas pelas vermelhas, aos quadros em preto e branco, o local é curiosamente mais organizado que o guarda-roupas do designer. Segundo ele, isso se deve à vontade de ter uma mesa grande, com bastante espaço, para dar vida aos projetos dos clientes. Com quase dois metros de extensão e suportada por dois cavaletes nas pontas, seu sonho se tornou realidade há quase um ano.

Duas décadas de experiência profissional em direção de Arte e Criação deram ao filho do seu Olmar e da dona Lurdes a certeza de que se tornou gestor nas agências onde passou não porque ambicionava isto, mas porque identificaram nele essa aptidão. Os salários eram bons, mas acabava se envolvendo menos com os processos criativos devido às demandas de gerenciamento de equipe e mais com as questões burocráticas do cargo. “Foi o pulo no momento certo, quando o mercado começou a mudar”, explica, e completa: “As coisas são como precisam acontecer e parecem que estavam escritas”.

Cartas às amizades

Natural de Marau e com uma história cigana, conforme ele define devido ao trabalho do pai, morou em diferentes localidades do Rio Grande do Sul. Como gerente concursado do Banrisul, o patriarca precisou ser transferido muitas vezes, o que possibilitou aos filhos Paulo e Cláudio que fizessem amigos e aprendessem a cultivá-los por cartas. Ainda que fosse ruim trocar de escola e recomeçar os processos de adaptação, conheceu lugares com características bem marcantes, como Bento Gonçalves, Caxias do Sul e Erechim.

Das relações que estabeleceu no mercado, recorda com carinho do diretor de Criação da agência 7.22 Comunicação, Telmo Ramos, e do sócio e diretor de Criação da Matriz, Roberto Philomena. “É tão bom ter amigos, é tão necessário. Gosto muito de mantê-los”, afirma. Muito pela importância que dá aos novos vínculos, que adorou fazer pós-graduação em Marketing na ESPM, onde teve oportunidade de conhecer profissionais de áreas completamente distintas da sua. Se encantou pela chance de oxigenação de conhecimento e experiências, ainda que, para isso, tivesse que enfrentar a disciplina de Finanças, pois é péssimo com números. “A gente acaba criando um bloqueio e era uma cadeira doida. Em um sábado, fiquei deprimido. Saí e não voltei de tão arrasado por não conseguir aprender”, admite.

Arquiteto frustrado

Péssimo com datas, não se recorda quando ingressou na PUC. Como não havia passado no vestibular para Arquitetura e Urbanismo e a universidade também não oferecia o curso de Design, Franco se aventurou na Publicidade e Propaganda. Conta que, mesmo não cursando sua primeira opção, se encontrou na Famecos, e logo ingressou no mercado de trabalho. “Sempre digo: eu sou um arquiteto frustrado”, brinca, e lembra que sua afinidade vem desde quando era criança. Na infância, as brincadeiras favoritas envolviam cola, papel, tesoura, lápis de cor e peças de montar, “que hoje se chamam Lego, mas na minha época era Hering. Era um silêncio em casa”.

A primeira experiência foi na extinta agência Símbolo, onde trabalhou ao lado da jornalista Eduarda Streb. Em seguida, atuou na McCann – quando esta tinha operação em Porto Alegre -, que lhe oportunizou um período na Europa para visitar empresas do setor. Nessa época, teve contato com a conta da Coca-Cola, que relembra com orgulho. Ele só deixou de trabalhar com a multinacional quando foi chamado para atuar na Competence, hoje G5. Entre idas e vindas, foi profissional desta agência por uma década. “Ela foi muito importante na minha carreira. Aprendi demais, devo muito a estes 10 anos. Foi lá que cresci e ‘estourei’”, reconhece.

Ao longo dos 20 anos de carreira, teve também a oportunidade de atuar na Martins+Andrade, Escala, Paim e Matriz, sendo estas últimas duas muito elogiadas pelo publicitário. Delas, ressalta o ambiente familiar, os valores, as contas e os profissionais com quem pôde compartilhar a experiência. Dos desejos que não concretizou, confessa só não ter tido a chance de ser contratado pela também extinta DCS. “Uma agência muito grande, criativa, com linha própria de Comunicação, elegante, peças sempre bonitas, tinha uma assinatura própria. Sinto admiração pela história dela”, justifica.

Pulo que deu certo

Quando resolveu se desligar da Matriz, decidiu que deveria se transformar junto às movimentações do próprio mercado publicitário, que na época já apresentava sinais de mudanças. Com isso, passou a trabalhar em casa com freelas de diagramação e projeto gráfico em um momento que durou, aproximadamente, cinco anos. Dos serviços que prestou, expôs o primeiro esboço da Revista Saccaro, que desenvolveu a pedido da proprietária da Entrelinhas, Milene Kraemer Leal. Além disso, criou uma revista para o Shopping Total, outra para a rede de salões de beleza Hugo Beauty; catálogos para imobiliárias e livros comemorativos.

Nesse período, Letícia engravidou e tiveram a pequena Alice, hoje com quatro anos. “Trabalhar em casa ficou complicado com a chegada da caçula”, conta. Ainda que tivesse um espaço na residência, o home office não estava mais satisfazendo as demandas, que a esta altura eram muitas. “Comecei a ter muito trabalho na área que gosto de atuar e era bem o que eu queria. Então, resolvi montar a Desenho Design, que completará um ano agora em fevereiro”, orgulha-se. No começo do ano passado, embalado pela frase de Dado Schneider, entende que enfrentou o pior ano para abrir um negócio. “O mundo mudou bem na minha vez, diz o Dado. Ano pior não podia para começar”, reflete, e explica que, mesmo com as dificuldades, 2016 rendeu-lhe bons frutos.

Para o futuro, não ambiciona que a empresa cresça demais e que tenha uma equipe enorme de colaboradores ao seu lado, sob a justificativa de que é muito centralizador. Aos 47 anos, deseja que, daqui a 10, esteja com saúde, acomodado, financeiramente bem resolvido e a sua marca tenha se consolidado. “Não quero ficar grande, quero pagar minhas contas e ser feliz. Poder pagar meu cartão de crédito”, afirma, aos risos.

Escorpião mandado

O superpai da Laura e da Alice sempre desejou ter uma família. Ao lado da esposa, formada em Direito, pôde constituir um lar que é reinado pelas três. “Sou totalmente mandado.” Com o nascimento das meninas, Letícia atuou pouco como advogada e acabou se envolvendo com os negócios da família de Franco. Como bom escorpiano, assume que a esposa é muito mais fácil de lidar do que ele, pois, para ter paciência, precisa respirar fundo e contar até 10, como fazia quando era gestor. “Me irrito com facilidade, mas sou muito amoroso.”

Em sua visão, cada uma das filhas tem uma maneira de se relacionar e de se entregar para vida. A mais velha é a que mais se parece com ele em relação às características. Muito pela semelhança, confessa que gostaria que ela optasse por Arquitetura e Urbanismo. “Não falo sobre isso, ela quem irá decidir. Mas o DNA criativo sei que ela tem”, comenta, esperançoso. A caçula nunca reclama, tudo que lhe é proposto está bom e raramente bate o pé. “Ela veio no momento certo, para trazer mais leveza para a nossa família”, derrete-se.

Com as dificuldades financeiras, explica que parte de seus lazeres teve de ser deixado de lado, como shows e sessões de cinema. Atualmente, aproveita que possui uma casa no Litoral Norte gaúcho para sair da agitação de Porto Alegre e descansar. Quando ficam, visita exposições com a Laura, que o acompanha com gosto, assiste Netflix e põe as leituras em dia. Para tristeza do seu Olmar, o colorado por herança afirma que não tem a mesma paixão pelo Internacional.

Residente do bairro Rio Branco, na Capital, conta que gosta de ir para o escritório caminhando ou pedalando. A vontade de andar de carro diminuiu no dia em que foi assaltado à mão armada. Com medo, confessa que seus hábitos mudaram: não consegue estacionar em frente ao prédio e tem deixado de sair com a família pelos altos níveis de insegurança na cidade. “Fica uma mancha. Não tem mais hora nem lugar”, lamenta. Ainda assim, garante que nada o impede de se entregar de corpo e alma: “Sou totalmente apaixonado e intenso por tudo que faço. No amor e nos negócios”.