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Cristiane Mafacioli: Ela quer viver, não quer durar

Docente há quase 21 anos, a publicitária Cristiane Mafacioli se realiza como profissional dentro da sala de aula
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Cristiane Mafacioli |Clarissa Menna Barreto/Famecos

Cristiane Mafacioli | Clarissa Menna Barreto/Famecos

Por Cinthia Dias

Um dos funcionários da secretaria dos cursos de graduação da Famecos, da PUC, avisa, com hospitalidade, que Cristiane Mafacioli chegou à sala da diretoria. Sentada ao fundo do ambiente espaçoso e, ao mesmo tempo, acolhedor, a publicitária gentilmente se levanta e, com um timbre de voz suave, me cumprimenta. Ainda se adaptando à nova realidade de diretora da Faculdade de Comunicação da instituição, a mesa onde passará os próximos anos já apresenta alguns traços de sua personalidade. Canecas com lápis, canetas azuis e coloridas revelam suas preferências pelas artes, que herdou da mãe, Mariza. “Ela não tem formação em nível superior, mas é uma artista de mão cheia. Acredito que veio dela meu dom”, diz, com orgulho.

Na escola, na disciplina de Artes, era onde mais se realizava. A paixão pelo desenho era tamanha que, quando chegou ao primeiro ano do ensino médio, decidiu cursar Artes Plásticas. Entretanto, desistiu um tempo depois. “Eu disse para a professora: ‘pensa bem, Tuca, se eu fizer isso, vou ser o quê? Artista? Não, vou ser professora, e isto não quero’”, recorda o diálogo que teve com a docente. Na época, trocou para Publicidade e Propaganda para aproveitar o gosto pela estética, identidade visual e imagem em uma dimensão mais intensa mercadologicamente. Hoje, Cris avalia que seu discurso para a professora foi imaturo, pois Tuca não deixava de ser artista ao atuar em sala de aula. Para aliviar a culpa, há alguns anos, enviou um e-mail se desculpando: “Digo com orgulho que sou professora e ela é minha maior referência”, declara.

Quando ingressou na Famecos, em 1990, não imaginava que diria isto. O caminho até a docência não foi planejado – como a gravidez no meio do curso, que a inviabilizou de estagiar como os demais colegas. Ao longo da formação publicitária, descobriu que a profissão vai muito além do ser criativo, e compreendeu que, acima de tudo, é um negócio envolvido em um mercado sério, que é publicitar marcas, produtos, imagem de empresas e pessoas. Em 1994, formada, porém sem experiência, aproveitou uma oportunidade ao lado do ex-marido em Balneário Camboriú, em Santa Catarina. Na cidade, teve a chance de trabalhar como diretora de Arte em uma agência pequena, onde também atuou como produtora gráfica, Atendimento e Planejamento de Mídia. “Um pouco de tudo na ausência dos colegas por um motivo ou outro”, resume.

O sonho do casal desmoronou com a chegada do Plano Collor, um conjunto de reformas econômicas para estabilização da inflação, criado pelo então presidente Fernando Collor, em 1994. Com estagnação na compra e venda de imóveis, os principais clientes da empresa, que eram construtoras, cortaram os investimentos em publicidade. O encerramento das atividades da agência resultou no retorno para próximo de seus pais em Cruz Alta, no interior do Rio Grande do Sul. “Nesses momentos mais difíceis a gente acaba retornando para família.”

Ponte rodoviária

Com três anos de namoro à distância, desperdício de tempo é algo que não é cogitado pela publicitária. Mesmo morando na Capital ao lado do atual marido, o especialista em Tecnologia da Informação Paulo, os momentos entre eles são poucos devido às rotinas agitadas de ambos. O vínculo de 14 anos foi constituído em um período em que a dupla estava mais preparada e havia superado as dificuldades da maternidade e da paternidade na juventude. “Como viemos de histórias anteriores, quando nos encontramos foi em uma fase mais madura da vida. As vivências fizeram com que construíssemos uma relação como a gente queria.”

Do primeiro casamento, nasceu Fernando, que ganhou dois irmãos de coração: Lucas e Igor, filhos de Paulo também do primeiro casamento. Como nenhum dos três mora com o casal, a saudade é compensada no período de férias, quando os cinco se mobilizam para viajar junto. Ainda que o convívio com os meninos não seja tão frequente, Cris confessa que a bagunça é grande quando se reúnem e que é muito mimada pelos quatro, incluindo o marido. Não importa o assunto, ela é sempre a primeira.

Caseiros, o final do dia reserva um prato preparado por ela e, aos finais de semana, um drinque aprontado por ele. Do programa culinário, resultou a composição da estrutura completa de um bar e na elaboração de um cardápio de bebidas personalizado da casa. O companheiro de quase 15 anos elogia que até mesmo um sanduíche vem caprichado e cheio de amor. “É quando relaxo. Gosto de misturar sabores e descobrir combinações de temperos”, conta.

Responsabilidade multiplicada por cinco

Se comandar uma sala de aula não era seu objetivo, auxiliar na estruturação curricular do curso de Publicidade e Propaganda da Universidade de Cruz Alta (Unicruz), ser professora na Ufrgs e na ESPM-Sul, coordenadora e diretora na Famecos também não estavam em seus planos. Como explica, as oportunidades foram surgindo e, aos poucos, foi se descobrindo docente e pesquisadora. Foi em razão da volta para o município que havia deixado aos 16 anos para estudar em Porto Alegre, que a administração da Unicruz lhe abriu as portas para o mundo acadêmico. A partir disso, procurou especialização, fez mestrado pela Federal do Rio de Janeiro e emendou o doutorado, com bolsa, na Unisinos. “A cada oportunidade fui me debruçando com a maior intensidade possível em cima delas. A construção de uma carreira sem um planejamento prévio me permitiu chegar até aqui”, reflete com gratidão.

Prestes a completar 21 anos de sala de aula, uma nova fase a inquieta: dirigir a faculdade pela qual se formou. Cris encara a novidade como uma forma de retribuir o acolhimento e a viabilização de projetos por parte da instituição, e também de mostrar que a academia é ambiente de contribuição à sociedade por meio de pesquisas. “É uma responsabilidade multiplicada por cinco da mesma forma que o desafio”, afirma, ao se referir aos quatro cursos e ao Programa de Pós-Graduação (PPGCom). Ela garante que, entre tantas vontades, a maior delas é honrar o slogan ‘Eu sou Famecos’, pois, com 50 anos de existência, as exigências são enormes. “Muitas pessoas passaram por aqui e isso nos enche de orgulho. Nossa responsabilidade é grande em manter o brilho nos olhos daqueles que optaram por estudar conosco.”

Múltiplas formações

Com Paulo, aprendeu que as viagens sobre duas rodas não são somente um meio de deslocamento, mas um estilo de vida. O harleiro, como ela o caracteriza, a ensinou que os motociclistas são fascinados pela estrada e não pela velocidade. Os comportamentos particulares da tribo do esposo fazem com que ela anseie por mais brechas na agenda para desfrutar dos passeios com ele. “A gente acaba conhecendo lugares incríveis. Isso te tira de casa, do conforto, e te põe em uma experiência sensorial incrível”, avalia, e garante que nos locais mais inusitados encontra a paz que procura.

Uma das grandes experiências foi a viagem para Machu Pichu, no Peru, onde se sentiu transbordada pela intensidade da natureza na região. “Aquela exuberância me emocionou. Diante daquilo tudo, me coloquei em conversa com Deus e agradeci.” Por falar em Deus, até os 10 anos, teve formação metodista e, a partir de então, optou pela católica, onde fez a preparação para Primeira Comunhão, Crisma e casou. Com a mãe, aprendeu que cada um escolhe a crença que deseja seguir. Em seu caso, encontra a tranquilidade na reunião de várias experiências religiosas.

Nem tão doce assim

Para se desligar dos compromissos profissionais, se teletransporta para histórias de suspense e muita ficção, como as obras do norte-americano Harlan Coben. Segundo ela, a fórmula de narrativa é semelhante em cada novo título dele, mas a desconecta do mundo lá fora. Outro livro que a surpreendeu foi ‘Assinatura das coisas’, de Elizabeth Gilbert, também autora de ‘Comer, Rezar e Amar’. “Sem spoiler, mas ela fala de uma época em que as mulheres ainda não eram protagonistas. A personagem, instigada pela família a estudar, descobre na área da botânica um universo de respostas”, recomenda.

Com jeito calmo e gestos delicados, confessa que nem sempre corresponde às expectativas de seus ouvintes, que aguardam por uma resposta gentil. “Não me percebo doce, me vejo um pouco dura. Às vezes sou supersincera.” A publicitária afirma que, a cada dia, se policia para não falar exatamente o que está pensando para não chatear as pessoas e busca estabelecer uma boa relação com todos. A inspiração de comportamento vem do pai Odir, que também tem facilidade nas relações interpessoais, entretanto reconhece que ainda tem muito caminho pela frente para ser como ele.

Apaixonada pela vida, defende que as pessoas devem se permitir vivenciar de pequenos prazeres. Argumenta que o corpo possui um tempo finito, e o que se leva do período aqui na Terra são os amigos, viagens, vivências profissionais e pessoais. E as marcas de expressão no rosto. “Que a gente possa deixar a vida mais longa que puder, mas com maior número de experiências possível. Afinal, tu queres viver ou durar?”