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Bernardo Braga Barreiro: Um homem de família

Guiado pelas orientações dos pais, o administrador Bernardo Braga Barreiro considera o trabalho fundamental na construção do caráter
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Por Gabriele Lorsheiter

Pontualmente no horário marcado, lá estava o diretor de Marketing da RecordTV, Bernardo Braga Barreiro. A timidez inicial logo deu lugar a uma conversa que revelou um homem devoto à família e apaixonado pelo trabalho. A criação nos preceitos mórmons, religião praticada pela Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, justifica a maneira de agir e de encarar as situações do dia a dia. “Cresci sabendo que a espiritualidade traz equilíbrio, que isso ajuda a entender o outro e saber respeitar as diferenças”, destaca.

De forma enfática e tom descontente, o diretor diz não admitir preconceito, seja ele racial, político ou religioso. “O preconceito racial mexe muito comigo. Por todas as empresas que passei sempre me perguntei ‘por que não há um afrodescendente num cargo de liderança?’. É difícil, sei que há uma série de fatores, mas isso me dói”, ressalta. Desde pequeno, escutou do pai a máxima ‘o trabalho dignifica o homem’. Mais do que um ensinamento, o conselho é um dos principais mandamentos da doutrina, que levou Bernardo a iniciar sua história no mercado de trabalho ainda na infância.

O primeiro emprego foi aos oito anos como ajudante na fábrica de móveis do pai. “Não era trabalho escravo”, logo justifica afirmando que era por prazer. Aos 19 anos, a vontade de ajudar levou o jovem a largar tudo para ser missionário mórmon na zona leste de São Paulo. “Todo rapaz é convidado a servir para mostrar a religião a quem não conhece. Foi uma experiência de vida espetacular, pois estive em contato direto com muitas pessoas com todos os tipos de problemas.”

Coração uruguaio

Natural de Ribeirão Preto, em São Paulo, Bernardo é filho de uruguaios que, na década de 1970, abandonaram a vida na cidade natal para reiniciar na cidade paulista. Na época, o país vizinho vivenciava momentos tensos no cenário político. O fim da Segunda Guerra Mundial atingiu diretamente a economia do Uruguai instaurando uma crise que gerou insatisfação popular. O fato originou o grupo dos Tupamaros, que atuaram no Movimento de Libertação Nacional e do qual seu pai fazia parte. “Meus pais estavam correndo riscos. Saíram com a roupa do corpo e foram para São Paulo”, relata.

A reconstrução veio acompanhada de muito trabalho e união familiar na fábrica de móveis construída pelo pai. Quando Bernardo completou 13 anos, a família se mudou para o Rio Grande do Sul. Empreendedor nato, o patriarca resolveu montar uma pousada na Barra do Chuí, na fronteira com o Uruguai. Mais do que um sustento, o empreendimento era uma maneira de estar próximo da cidade natal. “Ajudamos a montar a pousada, colocamos mesmo a mão na massa. Meu pai sempre deixou claro que trabalhar é uma forma de resolver problemas. Aprendi bem a lição”, salienta.

Já aos 15 anos, Bernardo se mudou com a família para Porto Alegre para estudar e trabalhar. Na capital gaúcha atuou como garçom, balconista de farmácia e atendente em uma floricultura, ofício que ainda pratica com a esposa, Lilian, na manutenção do jardim da casa. “Adoro mexer na terra, é uma terapia para mim, funciona como uma válvula de escape. Volta e meia eu e a Lilian conversamos sobre montar uma floricultura um dia”, comenta.

Após terminar o ensino médio, prestou vestibular na Ufrgs para Engenharia Civil, não passou por poucos pontos. “Ainda bem que não passei, pois não tinha nada a ver comigo”, diz, aliviado. O fascínio pelos números levou Bernardo para a área de Ciências Contábeis que passou a cursar na antiga Faculdade Porto-Alegrense (Fapa), atual UniRitter. Como estagiário, trabalhou no setor de contas a pagar e receber da Ipiranga Petroquímica. Mesmo estando em uma grande empresa, algo clamou mais forte e levou o diretor a largar tudo para viver como missionário.

De volta para o Sul

Na volta para Porto Alegre, teve a oportunidade de trabalhar na Brasil Telecom no início das operações da telefonia móvel no Estado. A experiência ajudou na hora de decidir a volta para a sala de aula. Ao conseguir uma bolsa pelo Prouni, Bernardo recomeçou a faculdade na PUC e, em 2011, concluiu o curso de Administração de Empresas com ênfase em Gestão da Informação.

Uma seleção composta por longas etapas rendeu uma vaga no núcleo de Operações Comerciais da RBS TV, e o bom desempenho colaborou na conquista de um lugar no setor de Marketing da empresa. “Tive gestores maravilhosos que fizeram despertar em mim a paixão pelo mercado publicitário”, destaca.

Em 2009, após muito namoro e conversas com o então diretor comercial Rigorberto Gruner e a então diretora de Marketing, Aline Storchi, da RecordTV, o administrador aceitou o convite para trabalhar na emissora, que iniciava a sua operação em solo gaúcho. O profissional tinha a missão de montar uma área de informações, que incluía pesquisa de mídia e de audiência da RecordTV. “O próprio presidente, na ocasião o Fabiano Freitas, conversou comigo sobre como seria um grande desafio”, lembra, orgulhoso.

Hoje, o profissional está à frente do Marketing da emissora do Grupo Record RS. “Assim como outros veículos, a empresa vem passando por modificações como forma de encarar a crise econômica, por isso, os setores de Marketing e Inteligência foram fundidos como forma de aliar forças.”

O lar

Na capital gaúcha, conheceu a esposa, que também é mórmon, e se casou aos 22 anos. Do casamento, nasceu Sofia, de oito anos, e Guilherme, de cinco. “Sou muito caseiro, fazemos muita coisa em família. A melhor parte do meu dia é quando chego em casa e sou recebido pelos meus filhos que me contam cada detalhe do dia deles”, salienta. Assim como foi inserido na religião ainda na infância, os filhos também passaram a praticar a doutrina. “Eles gostam muito de frequentar a igreja. Nunca forcei. Aliás, meu pai sempre me falou que se um dia descobrisse que outra crença me fazia bem, eu poderia seguir”, observa.

Assim como o pai, batizado aos oito anos, Sofia decidiu que também era o momento. Bernardo explica que para a doutrina o batizado é uma opção. “A religião considera que aos oito anos a criança passa a ter maior discernimento para decidir se quer se batizar. A pessoa pode escolher a idade, tem pessoas que sempre frequentaram a igreja, mas que optam se batizar já idosas”, esclarece.

Além de frequentarem os cultos, a família tem na rotina a realização da reunião familiar semanal, na qual até mesmo problemas são discutidos juntamente com os filhos. “Eles precisam estar cientes sobre as decisões que, de alguma maneira, irão afetá-los”, salienta. Aos domingos, todos participam do culto, momento que os membros praticam o voluntariado junto à comunidade. Cada um tem um cargo. Atualmente, o administrador é especialista em bem-estar e tem como missão ajudar quem está procurando emprego ou contribuir com quem está precisando de emprego ou mesmo reforçar os estudos.

Pensando fora da caixa

Formada em Pedagogia, atualmente Lilian trabalha em casa cuidando dos filhos e aproveita o tempo livre para realizar cursos na área da Gastronomia. A paixão pela panificação levou a esposa a criar e comercializar uma linha de pães. “Acabei adorando a ideia e no momento estou estudando sobre fermentação natural. Gosto muito daquele pão com casca dura e azedo”, comenta Bernardo.

Ele não descarta a ideia de, no futuro, o hobby virar um negócio. “Tudo começou como brincadeira. Estamos reformando a casa e montando um espaço gourmet onde colocaremos um forno a lenha e também um a gás profissional. É como eu digo, a vida é uma evolução, agora estamos aqui, daqui a pouco em outro lugar. Não dá para ficar parado”, argumenta. A iniciativa vai ao encontro do que o diretor acredita ser ‘pensar fora da caixa’. Para isso, costuma participar de eventos e estudar por conta.

A leitura tem sido fundamental neste processo. “Leio muito. Estava lendo um livro ‘Virando a página – de jornalista a carpinteira’, no qual a escritora conta sobre o desejo de trabalhar com as mãos e a mudança de vida após largar o emprego”, comenta, ao explicar que achou a história curiosa e, de alguma forma, se enxergou nela. “Amo o que faço, me sinto útil, mas chega o momento que temos vontade de fazer algo diferente e estou aberto a novas experiências”, destaca.

Determinado, trabalhador e de família, Bernardo acredita que a felicidade está na simplicidade. “Me considero um cara equilibrado, desprovido de vaidade. Um cara que realmente respeita o próximo, cumprimento da mesma maneira o porteiro e o presidente da Record. Sou modesto e, por isso, não gosto de falar de mim”, finaliza.