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Fabio Berti: amor pela família, pela leitura e pelo ensino

Completando 20 anos de graduação neste ano, Fábio acredita que traz de herança do pai a obstinação pelo conhecimento
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Foto de Daiana Berto

Por Luiza Borges

Nascido em Caxias do Sul, o jornalista e professor universitário Fabio Ramos Berti teve já na infância fortes influências da comunicação. A avó materna, dona Maria Amélia, que sem muito estudo, mas com uma visão perspicaz, o aconselhou: “Tens que assistir aos telejornais e ouvir rádios, pois a professora pode cobrar estas informações na aula”. Foi dela que surgiu a primeira noção de que a imprensa é importante na educação das pessoas. Para ele, mesmo que de forma subliminar, talvez a mensagem tenha marcado e influenciado na escolha da profissão.

Filho do engenheiro mecânico Júlio César Berti, e da professora Maria Júlia Ramos Berti, Fabio conta que sempre teve facilidade em redigir textos e, principalmente, com a expressão oral. Por escolha dos pais, chegou a cursar Direito, mas percebeu que não era a expectativa de vida que queria. Foi então que, seguindo o coração, iniciou a faculdade de Jornalismo.

Hoje, mestre e doutor na área de Educação, tem certeza de que fez a escolha certa. “Meu programa de pós-graduação em Educação em Ciências, e área de pesquisa em Comunicação Científica e Jornalismo Científico, teve como finalidade mostrar às pessoas o quanto é importante o esclarecimento em relação às questões do dia a dia. O entendimento de que, especialmente o investimento público na área de pesquisa e inovação, reflete lá na frente como melhoria na qualidade de vida”, conta o professor, que aponta a Comunicação como um papel relevante neste processo.

A carreira jornalística

Já no primeiro semestre de faculdade, Fabio foi ser estagiário da editoria de Esportes do jornal O Pioneiro, da serra gaúcha, mesma época da qual lembra de uma de suas referências profissionais: José Barrionuevo. Não demorou para migrar para a Rádio Caxias, emissora que era tradicional pelo formato hardnews. Aos 18 anos, o então estagiário apresentou o primeiro programa. ‘Retrato Falado’ era semanal, ia ao ar aos sábados pela manhã, e proporcionou a Fabio entrevistas com pessoas expressivas da cidade natal – figuras dos setores empresarial, político, esportivo e lideranças comunitárias. Marcante foi o seu primeiro entrevistado, o jornalista e cartunista Carlos Henrique Iotti, que o presenteou com um desenho do personagem Radicci. Foi ali que começou um gosto especial por comandar programas de rádio.

Foram cinco anos importantes, que transformaram o estagiário em coordenador de Jornalismo. “Uma grande escola. Fui repórter de Geral, passando pelo Esporte, plantão policial, até as chamadas unidades móveis da época. E, com o passar do tempo, tive oportunidades de ascender. Toda aquela experiência foi me abrindo portas”, recorda. Chegou a apresentar programas diários, tendo contato com muitas pessoas importantes, e assim, foi criando seu networking. “Aquele trabalho me proporcionou convites para cobrir férias de colegas em outras rádios, falar sobre eleições, fazer coberturas esportivas para outras emissoras da Capital e de fora”, recorda.

Trabalhou ainda como coordenador de comunicação no Esporte Clube Juventude, onde reestruturou o setor, inserindo assessoria de imprensa e implantando a primeira zona mista no futebol brasileiro, respeitando o surgimento das repórteres mulheres no jornalismo esportivo. “Foi um trabalho muito interessante e inovador”, revela o juventudense de coração.

Além do esporte, Fabio se aventurou pela área da política, onde trabalhou por três anos, sendo eles na Secretaria de Ciência e Tecnologia do Estado do Rio Grande do Sul, a convite do então Governador do Estado, Germano Rigotto. Foi quando saiu da serra gaúcha, adotando a Capital como novo lar. Desde então, foi também assessor de comunicação na Assembleia Legislativa e na Secretaria de Esportes e Lazer, onde coordenou a comunicação e o comitê de gestão da Copa do Mundo de 2014, no Estado.

A mudança foi encarada como um desafio, já que, para ele, uma das faces mais interessantes de um jornalista é ser um cidadão do mundo. “A notícia acontece o tempo todo, em todo o lugar. Especialmente depois do advento tecnológico, estamos efetivamente conectados com o mundo. Sempre procuramos ampliar os espaços profissionais, e esta transição foi um estímulo muito interessante”, analisa.

Fora da sala de aula

Em Porto Alegre, ele conheceu a atual esposa, Carine Bajerski. Casados há três anos, formam uma família ao lado de Lucas, 15 anos, filho da relação anterior de Fabio, e de Marina, sete, também da relação anterior de Carine. É com o trio que faz questão de passar as folgas, momentos estes raros para um jornalista e professor universitário. Mas, quando estes intervalos surgem, opta por passeios culturais com a família, além de se aventurar pelo mundo da gastronomia. “Como um bom gaúcho, não dispenso o tradicional churrasco, e entre as preferências: costela e vazio. Por outro lado, gosto de fazer um assado em casa, com preferência por peixes”, revela o professor, que já está passando as dicas de como comandar a churrasqueira para Lucas.

Gringo que é, Fabio não dispensa um vinho para acompanhar as receitas gastronômicas. “Gosto de beber e também estudar sobre esta bebida. Não sou enólogo, quem sabe um dia, mas sou enófilo, gosto de apreciar uma taça em momentos especiais”. Entre os desejos do educador, está o tempo. Horas a mais no seu dia seriam de bom grado, pois gostaria de se dedicar mais à leitura, estar com a família, mas principalmente, viajar com ela. “Feliz do cidadão que consegue reconhecer a sua realidade, conhecendo outras culturas e civilizações. E, ao retornar para casa, fazer com que as experiências positivas transformem para melhor os ambientes de trabalho e de vida”, reflete, completando que deseja ainda adquirir muitas outras experiências, e trazer como bagagem para ajudar a melhorar o local onde vive.

Leitor inveterado

“Preciso estar sempre lendo”, garante o professor, que completa: “Nem sempre consigo acessar as obras que gostaria. Talvez sinta falta dos clássicos da Literatura, mas, pela exigência de atualização que precisamos como jornalista, educador e pesquisador, a leitura é um hábito permanente”. Sobre as preferências, cita literatura latino-americana.

Comenta ainda a afinidade com um ex-colega jornalista, falecido há dois anos, Eduardo Galeano. “Ele tinha uma visão sociológica e antropológica muito interessante. A introspecção da história dos povos latino-americanos, esta miscigenação e todos os problemas que temos em nossa sociedade atribuídos as pátrias-mãe”. Nessa linha, Fabio também destaca a obra ‘Futebol ao sol e à sombra’, de Galeano, uma de suas favoritas. Nostálgico, também enaltece uma obra despretensiosa, lida na infância, chamada ‘Meu pé de laranja lima’, de José Mauro de Vasconcelos. Para ele, a obra deveria fazer parte da leitura de toda criança.

Transmitindo conhecimento

A rotina inicia cedo, levando os filhos para a escola. Logo após, reserva um tempo para cuidar da saúde e praticar exercícios físicos. Só então direciona toda a sua atenção para o ensino, pois, quando chega à coordenação do IPA, começa a preparar o dia como professor, utilizando a manhã para planejar os cursos, já que durante a noite dá aulas e reserva para atender aos alunos na coordenação da instituição. Todo este envolvimento acadêmico é considerado como o mais desafiador, pois requer muita concentração. “Temos que estar preparados, pois interferimos no futuro do profissional que vai contribuir para a sociedade”.

E nesse contato com estudantes, Fabio conta que gosta de estar presente já na chegada dos calouros, pois busca garantir que eles entendam a condução do curso e as disciplinas de introdução do Jornalismo. Lecionando também no curso de Publicidade e Propaganda do IPA, analisa que a sala de aula deixou de ser vertical há muito tempo. “Atualmente, existe um fluxo gigantesco de informações. Pela natureza, quem cursa Comunicação tem o hábito da leitura desenvolvida ou em desenvolvimento. Os alunos que recebemos chegam com um nível de informação e de conhecimento bem interessante”, reflete aquele que entende o papel do professor como o de intermediador.

Para interagir com os pupilos, utiliza da experiência em determinados momentos quando surgem dúvidas vinculadas ao conteúdo, mas busca debater tudo o que acontece na sociedade. “Procuro fazer da sala de aula uma grande discussão sobre como os jornalistas devem se portar, e como influenciamos nestes momentos”, relata ao citar que se considera um profissional obstinado, que busca transmitir este valor aos alunos. “Precisamos fazer com que os critérios jornalísticos, a técnica e a ética estejam à frente, e, além de tudo, perseguir aquilo que acreditamos ser o correto.”

Construindo com educação

São estas peculiaridades que fazem de Fabio um profissional realizado. Um dos momentos mais satisfatórios da carreira foi quando colou o primeiro grau de um aluno. “Foi sublime”, resume, emocionado. E diz mais: “A gente passa por tantas experiências em diferentes veículos de Comunicação, oportunidades de entrevistas com grandes figuras nacionais e internacionais, tantos momentos importantes na carreira, mas o ápice é este: saber que, através do ensino, contribuo com a nossa profissão para a perpetuação dela, e assim, interfiro na sociedade”. E como referência neste quesito, aponta Caco Barcellos como sendo um repórter que conseguiu unir qualidade e desempenho técnico com perfeição no exercício ético da profissão. Ele o considera um ícone, em alguém que muito se espelhou e continua admirando, pois deseja ver muitos alunos com o mesmo perfil de Caco.

Completando 20 anos de graduação neste ano, Fabio acredita que traz de herança do pai a obstinação pelo conhecimento. E com muito orgulho, após uma breve pausa, o cita como referência para a vida. “Meu pai venceu! Tinha dificuldades no sentido financeiro, mas correu atrás do sonho dele e, com muito suor e determinação, conseguiu se graduar e nos proporcionou uma vida melhor”, detalha. Espelhado em Júlio César, também almeja e batalha, através da sua profissão, por um futuro em um país mais justo, em que haja igualdade de oportunidades para todos os cidadãos.

De acordo com ele, isto acontece quando se permite uma educação pública de qualidade. “Neste cenário, espero continuar como professor universitário e jornalista, percebendo a profissão como cada vez mais importante para uma sociedade livre, e que o Jornalismo possa ser prestigiado enquanto profissão que atua a favor do povo”, encerra.